México, Ciudad de Mexico.

Sim. Eu escrevo faz tempo…esse conto é do projeto TAXI. Viajei muito sózinha a trabalho pelo mundo e sempre adorei conversar com motorista de TAXI. Essa conversa aconteceu na Ciudad de Mexico em Março de 2001…eu ia conhecer o Michel no outro ano…a vida prega cada peça.

3/1/01

Andar pela cidade do México é uma verdadeira aventura. Para quem mora em São Paulo e nunca foi a cidade do México a melhor descrição seria:

– Multiplique tudo o que há de bom em São Paulo por 10.
– Multiplique tudo o que há de ruim em São Paulo por 10.
– Pronto você tem a cidade do México.

Sai atrasada para variar. Tinha que estar em Colonia de Santa Fé às 10.00 horas da manhã e já eram 9.30. Pedi ao bell boy que me chamasse um táxi. No México não devemos pegar táxis na rua, pois corremos o perigo de chegar ao destino descalços, sem passaporte e sem nenhum centavo no bolso. Logo, o melhor, é usar a rede dos chamados táxis turísticos.

Os táxis túristicos são carros luxuosos, mas com pelo menos 20 anos de idade e de intenso uso. O estado é lastimável, os bancos em geral são de veludo vinho, bastante desgastado, mas os motoristas estão sempre muito bem vestidos. Camisa impecável e gravata. Nada de gravata de croche, camisas bem engomadas e gravatas da moda. Isso chama atenção em uma cidade nada preocupada com a estética, calorosa e mais do que poluída. Como dizem os mexicanos, la ciudad esta contaminada.

Segui o meu motorista. Usava uma camisa amarelo clara de mangas comprida, bem passada e uma gravata com desenhos vinho combinando com o estofado do carro. Entrei no carro, passei o endereço e começamos a conversar.

A pergunta de sempre, es la primera vez que viene al ciudad de México? Não, não era a primeira vez, mas tampouco poderia dizer que conhecia a cidade. Expliquei que somente vim a trabalho. Logo, o Sr. Se espantou, como não conhecia os museus, os parques, e as piramides?

Demonstrei meu interesse em voltar novamente em férias. Com mais tempo iria conhecer os parques, os museus, as piramides e quem sabe passar um fim de semana em Acapulco. O Sr. Conhecia muito bem Acapulco. Já hávia levado cinco chicas venezuelanas para lá e tinha dicas ótimas da cidade.

Meu deus que transito, estavamos há quase trinta minutos no Paseo de la Reforma tentando cruzar o parque Chapultepec. O carro não andava e a conversa começou a esquentar.

– Então a Senhora viaja a trabalho e es casada?

Achei que não devia entrar em detalhes sobre minha vida pessoal. Que interessa a um motorista de táxi mexicano meu estado cívil atual. Respondi.

– Sim. Sou casada.
– E que pensa seu marido, da senhora ficar viajando por aí?
– Ele já acostumou.
– Uma vez eu fui viajar e deixei a minha esposa sózinha por dois meses. Recebi uma oferta de emprego interessante e resolvi aceitar. Tive que viajar durante dois meses pelo interior do México em buca de paisagens bonitas para um filme.
– Que interessante – disse, mas pensando, que estória estranha, por que algum diretor de cinema iria confiar no gosto de um taxista?.
– Eu casei e no dia seguinte do casamento fui fazer esse trabalho. Quase fiquei sem mulher.
– Quer dizer que você casou e ao invés de sair de lua de mel, largou sua mulher para viajar pelo México?
– Isso. Ela não gostou nada. Hoje não posso fazer mais isso, tengo hijos.
– Ah, sim. Quantos filhos?
– Quatro.
– Quatro? Nossa que coragem.
– Quero sete.
– Sete? Vai ter que trabalhar muito.
– Eu casei há oito anos. Quando eu casei minha Senhora tinha 37 anos e eu 18 anos. Tienes hijos?
– Não.
– Esta casada há muito tempo?
– 11 anos.
– E não tem filhos?
– Não, meu marido não quis.

Silêncio. Continuamos parados na Reforma, observo o trânsito infernal e o movimento na entrada do parque Chapultepec. Grupo de crianças chegam para passear no parque. Devem vir da escola. Eram 10.00 horas. Lembro que tenho um celular. Vamos ver se a tecnologia me ajuda e se o serviço de roaming internacional funciona dessa vez. Telefono para Ludivina e peço desculpas pelo atraso.

– Senhor, quanto tempo ainda falta para chegar a Santa Fé?
– Uns vinte minutos.

Aviso que em trinta minutos estarei no escritório. O Sr., que na verdade acabava de descobrir, tinha apenas 26 anos, volta a conversar:

– Me gusta las mujeres mas viejas. Uma vez, sai com uma mulher, eu tinha 18 anos, e ela 54 anos. Muy madura. A senhora sabia que aquí no México os homens geralmente tem mais de uma mulher?
– O Senhor casado, e com outras mulheres. E as mulheres sabem?
– Sabem. Essa Senhora era muito bonita. Quando sai com ela pela primeira vez não sabia que tinha 54 anos. Descobri por acaso, vendo um documento de identidade. Acabei terminando pois achei que a vida ia ser muito complicada com ela. E casei com a de 37. Agora tem uma mulher que estuda comigo…
– Você estuda?
– Estou fazendo um curso de turismo e quero aprender russo.
– Por que russo?
– Porque tem muito turista russo vindo ao México e só tem três pessoas que falam russo. Quero aprender russo para poder levar turistas russos para passear. Se eu levar a senhora para Acapulco, o serviço inclue informações turísticas e não somente a viagem. Vou contar toda a história pelo caminho.

Logo lembrei daquelas crianças no Nordeste que contam história e parecem um gravador sem fim. Imaginem só ir para Acapulco, com um motorista poligamo, que gosta de mulheres mais velhas. Acho que com 33 anos ainda não estou no target.

– Mas como é mesmo esse negócio de ter várias mulheres?
– Es así. Eu estou com um problema, pois não quero ter caso com uma mulher. A tal da faculdade. E ela está insistindo muito. E ficou pensando coisas de mim.
– Que eres maricon?
– Ela pensa que sou viado, porque não quero ter caso com ela. Sou casado, não consigo, mas no México é muito comum. Então ela pensa que sou bicha.

Eram quase 10.30 e nada de chegar a tal da Colonia de Santa Fé. Cruzamos o parque de Chapultepec. Todo o bairro chique das Lomas. Já podia dizer que conhecia um pouco da ciudad del Mexico, e nada de Santa Fé. Relaxei, já estava atrasada e entrei na estória de poligamia.

– Mas todos os homens aqui, tem uma mulher oficial e amantes?
– Muito comum. E todo mundo sabe. Eu gosto das mais velhas, por isso me casei com a minha Senhora. Eu tinha 18 anos e ela 37 anos.

Afinal são dezenove anos de diferença. Caramba, não tinha prestado muito atenção. A mulher tinha idade para ser mãe do motorista. E ele ainda quer ter sete filhos. Não quer ter amante, e prefere ser chamado de viado?

Finalmente, chegamos a Santa Fé. Peço o recibo, pago a viagem e prometo que se um dia for para Acapulco irei com ele.

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