Minha relação com a Espanha

Ontem eu falei da minha relação com a Itália e fiquei dividida, afinal a Espanha também mora no meu coração.

Sempre quis desbravar o mundo. Até 20 anos de idade, eu conhecia o Guarujá, Rio de Janeiro, Itaipava, Petrópolis, Foz do Iguaçu, Itajaí, Florianópolis, Blumenau, Ubatuba e algumas cidades do interior de São Paulo. Devo ter esquecido alguma coisa, mas era praticamente isso. Não tínhamos muita grana, e viajar nunca foi a prioridade da família.

Um belo dia, a minha amiga fatecana, Paula me trouxe um recorte da Folha sobre uma espécie de concurso para fazer estágio remunerado no exterior. Para participar tinha que ter inglês fluente, estar cursando alguma faculdade de exatas e ter vontade de desbravar o mundo. E lá fomos nós. Eu me formei na Cultura Inglesa e fazia Processamento de Dados na FATEC. Segundo minha mãe foram 8 anos levando e trazendo sacolinhas de casa para Cultura e da Cultura para casa. Diz ela que nunca viu eu abrir a tal sacola para estudar. Nem eu sabia o quanto sabia de inglês, pois nunca tinha falado com ninguém. Passei no teste do inglês. Ufa…

O resultado foi publicado e fui classificada. Podia escolher entre algumas opções na Europa. E a mais interessante me pareceu o estágio de 1 ano na Arthur Andersen em Madrid, na Espanha. A Paula escolheu o estágio de 1 mês em uma empresa na Finlândia. Na época, a Finlândia era um país nos quintos dos infernos, não tinha Nokia, nem Marimeko. Eu lembro de dizer: Finlândia, tá doida? vai passar um mega frio?.

E assim, com 21 anos eu fui para Madrid. Que eu conhecia da Espanha? absolutamente nada. Não falava uma palavra de espanhol, nem de portunhol. Não conhecia nada da cultura. Não conhecia nenhum espanhol.

Cheguei em Madrid e fui direto para uma residência de estudantes que o próprio IASTE (a instituição que me enviou para lá) recomendou. A residência do Seu Soberon. Parecia coisa de filme de terror. Um apartamento caindo aos pedaços, com dezenas de quartos, cada um com uma decoração diferente, com papel de parede pela metade, camas semi-destruídas, um banheiro horroroso com uma banheira cheia de baratinhas. Uma sala com móveis improvisados. Sentei na sala com a minha malinha. Deu vontade de chorar e voltar para casa. Eu sabia que tinha outra residência e pedi para ir conhecer. A espanhola, com aquela paciência toda típica de espanhol, me explicou o endereço, que claro não entendi nada. Minha primeira discussão com um espanhol. E lá fui eu para a outra residência. Era tão mais horrível que voltei correndo achando tudo lindo. Engoli o choro e fui conhecer meu quarto. Nessas aprendi que tudo depende do referencial.

Na residência tinham mais de 50 estudantes do mundo todo participando desse tipo de convênio de estágio. Era a ONU. Eu conversa em português, inglês, francês, espanhol, gesticulando, tudo ao mesmo tempo. A turma dos poloneses bebia vodka com Schweppes que nem doidos. Os franceses comiam pão Pulmann com geléia no quarto e nem ofereciam. O sirio andava com dois dicionários gigantescos: um árabe-inglês, e outro inglês-espanhol, para conseguir se comunicar. Os latinos passavam o dia procurando um jeito de ligar para suas casas, sem pagar, “por supuesto”. Os famosos orelhões quebrados. E dois ou três brasileiros. Conheci a Vivi e a Magda e logo ficamos amigas. A Cris Cotta vinha a cada temporada ver quem chegou. Ela já morava em Madrid há algum tempo. E assim ficamos amigas também.

O Seu Soberon tinha o cabelo todo ensebado e dava em cima de todas as mulheres. Parecia um cafetão. Mesmo assim o ambiente era excelente. Na verdade o lugar era a república dos estudantes da Complutense, mas como eram férias de verão, os estudantes voltaram para suas casas e teríamos 45 dias para ficar por lá. A maioria dos estágios era de 1 mês. Só o meu era de 1 ano.

Primeiro dia de Arthur Andersen. Fui andando até a estação. Fazia um calor absurdo. Parei no café ao lado e descobri que podia tomar “café con hielo y sin azúcar”. No verão é bom pacas. Desde então nunca mais tomei café com açúcar. Peguei o metro na estação de Quevedo e fui até o endereço. Cheguei em uma espécie de escola. Eram várias salas, com umas 30 pessoas por sala. Eram os cursos de “verano de los arturos”. O primeiro curso eram três semanas de Contabilidade. Depois da Contabilidade foram mais três semanas de Cobol. Aprendi espanhol na marra. Tinham duas coisas que eu odiava na vida: a primeira era Cobol e a segunda era Contabilidade. Passei seis semanas em tortura. Achei que não ia sobreviver, mas não só sobrevivi, como foi uma das melhores experiências da minha vida.

Durante o verão a residência do Seu Soberon era uma festa todos os dias. Ficávamos pulando de quarto em quarto. Cada fim de semana inventávamos um passeio ou por Madrid ou pelas cidades vizinhas. Madrid é uma das cidades cosmopolitas mais lindas do mundo. Ser estudante na Europa é muito diferente que ser estudante no Brasil, com pouquíssima grana você consegue visitar museus, viajar, ir ao cinema, ir em bar, ou seja, ter uma intensa vida social e cultural. Fui para Toledo, para Segovia, para Ávila, Sierra Nevada, Lerida, Merida e até para Portugal. Mochila nas costas, trem e albergue. Era uma farra.

Aprendi a amar a Espanha. Conheci a cultura, a culinária, a música. Conheci o espanhol e seu jeito rude de ligar com os outros e até na forma de comer. Algo que me marcou muito, foram os defuntos de porquinhos vestidos de papai noel nas vitrines dos açougues na época do Natal. Espanhol é um brucutu. Quase um homem das cavernas. Come de bochecha de bicho até navajas.

Aprendi que os judeus foram expulsos da Espanha na Inquisição e não voltaram. Como qualquer judeu, a primeira coisa que fui atrás foi de uma sinagoga para passar as festas. E quem disse que eu encontrava? lembrem-se não tinha google na época. Sobraram 2000 judeus na Espanha, que se escondiam como podiam. A sinagoga de Madrid ficava disfarçada. A porta parecia de um lugar abandonado, e por trás a porta verdadeira. Foi a primeira vez que senti o anti-semitismo na pele.

Na Espanha eu tive contato com um mundo muito sofisticado das artes. Velazquez, Goya, Picasso, Miró, entre outros artistas maravilhosos. Foi um ano bastante intenso, repleto de histórias emocionantes e inesquecíveis. Marcou o início da minha descoberta do mundo. A partir daí nunca mais parei de viajar.

Quando voltei para o Brasil, logo conheci a Cuca. A Cuca é uma espanhola da gema, mas catalana. A Catalunia é outro país dentro da Espanha. A identificação foi imediata e ficamos muito amigas. Com a Cuca aprendi a amar Barcelona e a Costa Brava. Eu entendo praticamente tudo de catalão, mas tenho uma frustração absurda, pois não consigo falar. Com a Cuca eu aprendi que catalão é praticamente um judeu. Com a Cuca aprendi que uma das melhores comidas do mundo se encontra em Barcelona e na Costa Brava. E nada de chefe que faz coisa esquisita de fumaça. Comida de verdade com ingredientes de primeira qualidade. As anchovas e as olivas são maravilhosas, pa amb tomaquet, e todos os frutos do mar. Visito ela frequentemente e a cada visita me apaixono ainda mais.

Logo não podia deixar de manifestar a minha relação mezzo-italiana/mezzo-espanhola, ou hoje até mais catalana que espanhola.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s