Confissões de um gênio.

Desde criança eu escuto: “Gênia. A Té é uma gênia. Com a Té eu faço qualquer coisa.”

Teve uma que adorei: “Com a Té eu abro até barraquinha de cachorro quente.”

E o que é ser gênia para os outros?

No meu caso, eu tenho um raciocínio lógico e espacial mais rápido que a média. Esse “fenômeno” faz com que eu entenda, perceba, capte situações antes dos outros. Em relação ao raciocínio espacial eu defino como a virtude de conseguir fazer analogias entre o concreto e o totalmente abstrato. Por isso entendo tão bem o universo dos computadores e gosto tanto de arte, design, arquitetura.

O que isso me trouxe de bom?

De verdade até os 34 anos de idade, esse raciocínio me trouxe uma agressividade e uma falta de paciência absurda em relação ao outro. Achava que o outro era sempre burro. Não entendia. Não chegava lá. Era uma rebelde.

Que aconteceu com 34 anos?

Comecei a fazer terapia. E um belo dia na famosa arrumação do armário da terapia. Bum! Percebi que o mundo não era burro, e sim eu que era mais “rapidinha”. Na mesma hora lembrei de uma situação que ficou muito presente na minha memória. Sempre trabalhei para os donos das empresas, mesmo nas grandes. E muitos anos no mercado publicitário, onde tive três chefes por um bom tempo, os três sócios da agência. Os três totalmente diferentes. Um deles, bem mais velho, era o responsável pela parte administrativa e operacional. Tinha sido industrial, odiava publicidade, e cuidava da agência como uma indústria, os operários eram os criativos.

Um dia eu tentei explicar para ele que o nosso mais importante fornecedor estava “corrompendo” o mercado, e que apesar de ele achar que era o mercado e não a casa, ou a agência dele, essa corrupção acontecia em todos os lugares. Eles eram amigos de mil anos, ele me olhou e disse: “Isso é inadmissível, ele jamais faria isso comigo.”. Passaram-se alguns anos e ele me chamou: “Tá vendo esse depósito aqui. (era um comprovante de depósito do banco). Fulano recebeu essa propina e meu amigo fez isso para provar que ele é safado.”. Conhecia muito bem a pessoa, seu modo de vida, e defendi ele até que veio a frase: “Se você continuar defendendo, quem vai embora é você.” Achei aquilo horrível. Passou mais algum tempo, talvez um ano. Nosso escritório tinha uma famosa escada que ligava os dois andares. Eu estava descendo a escada, meu chefe subindo, ele me puxou pelo braço e disse: “Você tinha razão”. E, a amizade de mil anos ficou estremecida por muito tempo.

E nessa sessão de terapia eu entendi. Eu vi antes. Ele levou anos para ver. Mesmo sendo meu chefe, mesmo sendo competente, mesmo sendo inteligente. Ele não enxergava tão rápido. Idem aconteceu com a internet em 1995. Dessa vez a única pessoa que me escutou foi justamente esse meu chefe. O resto da agência inteira me olhou como se eu fosse um ET. Imagina: “A internet!”.

Essa mesma cena se repete todos os dias, praticamente, na minha vida. Aprendi a controlar o meu ímpeto de chamar, ou transparecer que acho o outro burro, algo que fazia, tenho vergonha de confessar, constantemente. Tem uma frase popular que é a melhor definição para essa minha virtude: “Deus escreve certo por linhas tortas”. O outro chega, por outro caminho, mas chega. E complementa com uma frase que meu pai me disse quando fiz 18 anos: “Ninguém é insubstituível”. Verdade mais que absoluta. A coisa vai funcionar, de outra forma, mas vai.

Tenho vários amigos assim. Facilita muito conversar com pessoas com a mesma rapidez de raciocínio. Tenho vários amigos assim, que continuam tratando o outro como burro. Não fizeram terapia. Tenho amigas casadas com amigos assim. Tenho amigos filhos de pessoas assim. Tenho amigos irmãos de pessoas assim. Tenho amigos pais de pessoas assim. Todos sofrem. As amigas casadas são anuladas do seus pensamentos, pois não conseguem competir com a tal genialidade do outro. Os filhos viram sombra dos pais geniais, que tem até dificuldade de se relacionar com os próprios filhos. Os irmãos são comparados constantemente por pais que não entendem que os filhos são totalmente diferentes.

Conto esse fato sempre que posso para tentar ajudar quem está em algum lado do balcão dessa situação. Não é agradável para nenhum dos dois. Talvez por isso tantos gênios famosos tinham ou tem comportamentos tão depressivos. Normalmente gênio tem uma inteligência emocional bem perturbada. Como é que dá para viver em sociedade se nem conversar você consegue?

O engraçado é que ter esse dom, como poderia ser o dom das artes, da música, da dança, ou qualquer outro dom, não transforma você em grande coisa. Principalmente se não conseguir domar o dom.

Uma vez eu estava conversando com uma das minhas cinco melhores amigas, e ela começou a falar de poesia. Fazem uns 10/15 anos isso. Eu disse: “Nunca consegui ler uma poesia. Eu não entendo.” A resposta dela: “Nossa Té, você é tão inteligente e não consegue ler poesia. Estou chocada”. Pois é, eu devia ter deficit de atenção desde criança, descobri recentemente. Se vocês soubessem quantas vezes tenho que revisar um texto e mesmo assim escrevo errado, é angustiante. Comecei a me esforçar para entender poesia depois desse diálogo. E fiquei apaixonada, por Pessoa, Mario Quintana, Neruda, Oscar Wilde, Poe, entre outros poetas. Me acalma.

O gênio não pode errar. O gênio não pode dizer que não sabe. Afinal é gênio. Meu lema é: “Eu não sei tudo. Eu gosto de aprender. Quando eu não sei eu digo que não sei. E eu mudo de idéia.”. Isso deixa o outro desconcertado. “Como assim não sabe? Não sei ora.”.

Gênio gosta de se relacionar com gênio. Coleciono amigos gênios, muito mais gênios que eu. Sou casada com um gênio. Vou dizer que na nossa relação eu me sinto uma burra. Perdi as contas quantas vezes ouvi: “Quer que eu faça um desenho para você entender?”. Imaginem a confusão que não é aqui em casa para um lidar com a virtude do outro. Essa semana tivemos uma reunião com a vice-presidente de um banco bem famoso. Apresentamos um vídeo em inglês. A pergunta: “Michel onde você aprendeu esse inglês perfeito, sem o famoso sotaque brasileiro?”. O Michel ficou até vermelho. E para explicar que nunca morou fora, não estudou inglês e que o inglês e o vocabulário absurdo que ele tem é de ouvido. E que ouvido ein? Eu sou casada com o “Mikipedia”. Tudo que ele sabe ele aprendeu sózinho, sem faculdade, sem cursos, cem por cento auto-didata. Como é que põe isso no currículo? Cursou a faculdade dos gênios.

Nem tudo é o que parece ser.

Escrevi esse texto não com o propósito de ser arrogante, apesar de ninguém poder dizer que é gênio. Soa arrogante: “Oi tudo bem?. Prazer. Sou gênio.”. Que se foda. Escrevi esse texto com o propósito de ajudar meus amigos, amigas, parentes que sabem como é difícil conviver com essa virtude.

Se você é gênio não tenha vergonha. Assuma que você é gênio e aprenda que o outro é apenas diferente de você!

Anúncios

A imensa capacidade de amar de Vinicius de Moraes.

Dormindo com a imensa capacidade de amar, e quantas vezes, de Vinicius de Moraes, nosso poetinha…

Amor em paz

Eu amei
Eu amei, ai de mim, muito mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer
E me desesperar

Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
Encontrei em você a razão de viver
E de amar em paz
E não sofrer mais
Nunca mais
Porque o amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz

E quando a música brasileira era inacreditavelmente bela.

e quando a música brasileira era inacreditavelmente bela…que poesia linda, mais uma do poetinha…

Chega de Saudade

Vai, minha tristeza, e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe, numa prece, que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade, a realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas, se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim
Não quero mais esse negócio de você viver assim
Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim

Golnaz Fathi

Este slideshow necessita de JavaScript.


E na onda de estudar arte contemporânea além das fronteiras, chego ao berço da civilização ocidental, a Pérsia, onde tudo começou. Estudei tanto o Tigre e o Eufrates, como os povos se dispersaram, a cultura, e hoje ficaram tão herméticos e sabemos tão pouco.

A arte islâmica é maravilhosa. Os arabescos, o turquesa, os azulejos e até as jóias. Um dos meus anéis favoritos é uma replica que comprei no Metropolitan de uma jóia persa em prata. Gosto tanto que fiz a versão em ouro.

E assim cheguei em Golnaz Fathi, uma das grande revelações da arte iraniana contemporânea. Nasceu em 1972, em Teerã. Uma mulher artista, nesse mundo tão masculino e machista. Onde a mulher nem pode mostrar seus cabelos, seu corpo, não pode isso, não pode aquilo, é tolhida de praticamente tudo, por conta dos costumes extremistas religiosos. Surge então Golnaz Fathi no meio dessa repressão toda.

Sua obra é caracterizada por cores forte. Muito vermelho, muito amarelo ouro, preto, azul escuro. Sem título para livre interpretação. Abusando da sua formação como caligrafa, tarefa exclusivamente masculina, que ela conseguiu estudar. Palavras soltas que não tem significado. O significado é a sensação que a obra transmite ao espectador.

E me transmitiu, ora liberdade, ora repressão, ora angústia, ora vazio, paz, silêncio, nos grandes espaços em branco, ora tumulto, ora uma certa sexualidade no vermelho. Uma beleza única. Estou apaixonada pelo trabalho de Golnaz Fathi.

Vale a pena ler o texto abaixo explicando a série dos círculos recortados. A terra das Mil e Uma Noites é cheia de magia e histórias, e essa série retrata bem esse período.

Ver obras de Golnz Fathi é possível na October Gallery de Londres ou na Pearl Lam Gallery de Hong Kong, Shangai e Singapura.

A selection of Fathi’s compositions, circles divided in half or quartered was shown in an exhibition of the artist’s works, Un / Written, held in Dubai, U.A.E., in June 2005 (fig.1).

These particular compositions are related to a specific site in Isfahan, Imam Square, covering an area larger than that of San Marcos Square in Venice, and flanked by important architectural spaces including mosques known for the particularly beautiful tiles of the domes and decorated façades, and the entrance to the large covered bazaar; the interior divided into separate areas for different types of goods for sale, such as carpets, textiles or metalwork. (2) Located in the center of Iran, in an earlier period Isfahan was called “half the world.” It was the 16th century capitol established by Shah Abbas I, the Safavid monarch known for his patronage of the arts and business. He brought skilled craftspeople to the city, many of whom contributed to his ambitious building campaign, as well as to other projects initiated during his rule.

Golnaz Fathi experienced a moment of intense personal insight while standing in the center of this immense space. According to the artist, the large expanse of the square, and the hidden interior spaces of the architectural sites around it, played an important role in the design of the paintings she completed after returning to Tehran from Isfahan (fig. 2). These paintings contain references to the concept of Isfahan as half the world, Imam Square, and the domes of the mosques through the sectioned circles of her compositions. In the first of the artworks completed after returning to Tehran Fathi used ultramarine and turquoise in reference to the decorated blue tiles of the dome of the mosque. For the second stage of the series Fathi relied on the rich colors of the ‘Ali Qapu Palace (fig. 3). The palace is an important architectural site for several reasons including the elaborately patterned exterior plaster, interior wall paintings, and the Musicians Room. With one exception the works end in monochromatic images; like the others these are also circles cut in half or quartered. However, the final painting includes the color red, a fragment of Hafez’ poem which is significant to the artist, and a straight thick black line leading out of the frame (fig. 4). According to the artist the inclusion of the red color signifies the end of a particularly difficult personal period and the move towards her most recent paintings. (3)
(Veja a matéria super recente da Globo sobre Isfahan para entender a referência, é simplesmente deslumbrante)

CHOI JEONG-HWA

Este slideshow necessita de JavaScript.

Nasceu em 1961 na Korea. Hwa é artista, designer de arquitetura, de móveis e de objetos. Multi talento e multi suporte. A quantidade e a energia da sua produção são tão intensas quanto a potência das suas obras. Usa e abusa das cores, neon, espelho e de materiais pouco nobres como cestinhas de plásticos, bexigas, miçangas e infláveis. Sua obra é pop, muitas vezes over, mas de uma energia incrível. Talvez conviver com um bouquet gigante de flores não seja lá tão agradável. 

Hwa é muito conhecido na Korea e já expos inclusive no Brasil na Bienal de 1998, além de Veneza, Singapura, Londres, Lyon e deve estar por muitas ruas de Seoul.

Para mim, Choi Jeong Hwa lembra uma rave bem doidona e divertidissima. Fica até difícil querer ir muito mais além no texto. Como ele próprio diz: “My art is your heart.”