Em Nova Iorque com o Seu Saul


Viajar não é comum na minha família. Eu fiz de tudo para incutir as rodinhas nos meus pais. Melhorou, mas mesmo assim, eles continuam bastante caseiros. Como diz meu amigo Ozzy, só falta você ver as raízes crescendo. Tenho pais árvores. Plantou, dali não sai nem ferrando.

Em 1995, meu pai se aposentou. Minha mãe continuou trabalhando mais um ano. Eu aproveitei a oportunidade para ver se conseguia convencê-lo a desbravar o mundo com a minha mãe. E sugeri dele ir comigo conhecer Nova Iorque. Eu tinha uma viagem programada de trabalho e achei que ele podia se divertir. Ele topou. E lá fomos nós para a Big Apple.

Ficamos no Pickwick Arms. Esse hotel hoje é o PodHotel. Quem me indicou foi um new-yorker, pois era o hotel onde o pessoal da ONU costumava ficar por ser muito perto na 51st entre 2nd and 3rd. O hotel era uma droga. O quarto minúsculo. Minúsculo daquele que você quase toma banho do lado de fora do banheiro de tão pequeno. Ficamos nós dois nesse quarto. Eu adorava ficar lá, pois a localização era excelente.

O importante era ir para NY, não importava onde iria ficar. Para conseguir convencer minha empresa de pagar as viagens a trabalho, eu tinha que gastar o mínimo, se não o bravo do meu chefe-catalão, Javier, cortava o benefício. Logo, aprendi a viajar e ficar em qualquer lugar, comer qualquer coisa, pois o importante eram os congressos e as visitas as empresas. Uma experiência inesquecível e fundamental na minha formação profissional.

Nessa época, um dos meus programas prediletos em Nova Iorque, era ir ao Au Bon Pain tomar café da manhã na 53st and 3rd. Bastava abrir a porta e a música clássica do ambiente, transformava a caótica vida da cidade, em paz. O local era todo de vidro. Tomava um double expresso, comia pan au chocolat, bagel com cream cheese e outras delicias engordativas e ficava olhando a rua e o dia começando para os new-yorkers.

Meu pai queria tomar café da manhã como no Brasil. O sufoco começava em pedir uma meia com pão, manteiga e geléia. Tenta pedir algo simples, mas fora do script de um americano para ver a zona que é…coffee? milk? decaf? sugar? no sugar? to go? pão????? not bagel: pão (eu não sabia o nome do pão que lembrava o francês e ficava apontando), butter? yessss. Já começávamos a dar risada logo de manhã, pois era meia hora para o caixa entender o pedido.

Outro programa que eu adorava, era ir na Barnes and Noble gigantesca que ficava na 54st and 3rd. Passamos horas na loja, meu pai na sessão de mapas, e eu vendo livros de tudo que é assunto. E depois o Central Park, claro.

Meu pai queria ir na Estatua da Liberdade. Eu nunca tinha ido, nunca mais fui, mas lá fomos nós. E para subir aquela escadaria toda? ele me ensinou uma técnica para não doer os joelhos, que funciona mesmo. Era agosto. Nunca mais fui em agosto para NY, o calor é insuportável, tomávamos litros de água.

Eu tinha combinado de visitar a universidade médica que meu primo é diretor no Brooklin, pois ele queria me mostrar a tecnologia nova que estavam usando por lá. Nesse dia meu pai foi passear sózinho, foi no Empire State. O calor era tanto que achei que ia desmaiar no metro. Eles tentaram me avisar para não ir, pois a rádio havia avisado que seria insuportável de quente dentro do metro. Estavam me esperando com uma garrafa de 2l de isotonico. Eu cheguei ensopada e bebi toda a garrafa. Eu lembro de um amigo do meu primo me dizer: “Mas você não mora no Brasil? um país tropical?”… Amigo! Vamos com muita calma, mas em Sampa não faz esse calor dos infernos, ou não fazia. Foi nessa viagem que a internet explodiu. Meu primo queria me mostrar a conexão entre dois computadores, com câmera e rede T1. Sobre esse assunto vou deixar para outro texto, afinal foi o marco da revolução da informática, e não vou misturar com as aventuras com o seu Saul.

Voltei para o hotel e fomos ao Met. Meu pai é bem metódico. Ele adora mapa e traçou uma meta de ver o museu inteiro. Eu desisti na metade. Ele aparecia entra uma sala e outra, riscava com um x o que já tinha visto. Eu fiquei sentandinha, apoiada na minha mochila amarelo-ovo da Kipling, esperando ele terminar o tour-completo. Levaram horas…

Depois fomos ao Museu de História Natural, ao Guggenheim. Passear no East Village, Soho, Canal St, China Town, na J&R, CompUsa. Foi a primeira vez que meu pai viu uma bandeira gay. Na época não se falava de gay como hoje. Não se conhecia muito do assunto, muito menos a bandeira. Eu expliquei sobre o que se tratava, e ele me agarrou: “Epaaa, só falta darem em cima de mim aqui. Vem cá, você vai ficar comigo para acharem que tô acompanhado”. Imagina só a cena. Fomos em bar de jazz, no Broome Street, na John’s Pizzeria várias vezes. Gastávamos uma grana de taxi para ir até lá de Midtown. Encontramos minha família americana que nos levou na ONU e na Union Square. Passeio super interessante. Depois fomos almoçar em um restaurante típico chinês new-yorker que eu não entraria nem ferrando. Eu lembro que a conta deu uns 25 dolares para 5 pessoas. Sim, era barato pacas.

Nós tínhamos alugado um carro para ir para Boston. Não lembro porque inventamos de ir de carro, mas essa foi uma grande aventura. Destrinchar aquele emaranhado de pontes, viadutos, auto-pistas sem GPS, só para o seu Saul leitor especialista de mapas. Ele lia o mapa e eu guiava. Foram 4 horas de estrada em linha reta. Boring. Boring. De morrer de boring. Quase dormi. Meu pai não viu nada, absolutamente nada, só olhava o mapa. Fomos para um Best Western em alguma cidade colada em Boston. Boston tem a rede hoteleira mais cara do planeta.

A minha viagem de trabalho começava em Boston. Eu tinha a MacWorld. Tinha que ir no MediaLab no MIT e mais lojas, pesquisas, etc. Seu Saul me acompanhou em absolutamente tudo. Ele adorou. O MediaLab então ele ficou doido. Fizemos um tour junto com uma empresa japonesa que estava querendo comprar alguma tecnologia que iríamos ver dali a 10 anos no mercado. No caso eram sensores de reconhecimento de movimento. Bolinhas para grudar no corpo e assim a câmera captava o movimento. Hoje usado em filme 3d e até em videogame caseiro, mas na época era a revolução. E fomos conhecer o Mitchel Resnick, responsável na época pelo desenvolvimento de tecnologia para educação. Eles estavam testando legos com movimento.

Fui muito para Boston por causa dos congressos e considero uma das cidades mais bonitas dos EUA. Meu pai ficou encantado com a arquitetura, as townhouse vitorianas da Newbury St, o Copley Square. Fomos visitar museus, Harvard, Cambridge e jantar no Legal Sea Food.

O Legal Sea Food é uma cadeia de frutos do mar que nasceu em Boston. A especialidade é clam chowder, ostras e lagostas. A clam chowder é de comer de joelhos, as ostras e as lagostas também. Tudo super fresquinho. Eu lembro meu pai tomando cerveja e batendo papo com o garçom. Foi aí que ele descobriu que para soltar a língua em inglês, ele precisava tomar cerveja. Meu pai adora bater papo e o motivo que ele não viaja muito é justamente não poder conversar fluentemente em outras línguas.

Voltamos para Nova Iorque. Eu tinha mais alguns compromissos de trabalho, e falei para o meu pai ir ao Moma, que depois eu iria buscá-lo. Era na época que o Moma tinha aquele bancão comprido para sentar na entrada. Ele estava sentadinho dormindo e já tinha encostado na pessoa do lado. Tadinho. Ele odiou o Moma…pois é…que frustre…ele disse que já tinha visto na Bienal de não sei quantas bolinhas de anos atrás vários artistas e quadros no Brasil. Meu pai não gosta de ver duas vezes um filme, e pelo visto um quadro. Tem uma memória de elefante.

Foram 10 dias intensos, não paramos um segundo, chegamos exaustos, demos muita risada, ele amou. E eu achei: “Agora vai…”. Que nada. Ele conta em detalhes a viagem até hoje, mas não se animou a fazer mais tantas viagens assim. Talvez 1 a cada 5 anos.

Eu, por outro lado, já fui mais de 30 vezes para Nova Iorque. Fui tanto que tinha uma época que chegava e já me sentia em casa. Ultimamente tenho ido mais para Miami, quem diria…

(puxei a cordinha agora ferrou. Outras aventuras na lista para serem escritas…)

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