O francês.


A minha melhor amiga de toda a vida, a Raquel, é filha de libanês e egípcio. A Dani e o Aslan vieram para o Brasil fugidos dos regimes anti-semitas e guerras dos seus países, e a língua oficial da casa sempre foi o francês. O francês de árabes. Como frequentei a casa desde os 11 anos de idade, a Dani costumava falar comigo e com a Raquel em francês. Principalmente para dar bronca de alguma coisa ou para alguém não entender. Minha mãe e minha tia faziam o mesmo, mas em iddish.

Assim o francês entrou na minha vida desde pequena. Eu entendia um pouco, mas nunca tinha falado uma palavra. Um pouco antes de ir para Espanha, conheci um francês em São Paulo, aliás um grupo de 14 franceses. Eles eram especialistas em tromp l’oeil e vieram para o Brasil para fazer a sala da presidência do Banco Safra na Paulista. O prédio ao lado do Center Três tinha acabado de ser construído e além dos mármores rosa maravilhosos vindos da Itália, o luxo por dentro era ainda maior. Esse grupo era especialista em restauro de afrescos na Europa. Restauros que incluíam obras do Louvre e os monumentos de Paris. Por incrível que pareça conhecemos o grupo no AeroAnta. Eu nunca fui de conversar com estranhos, mas não lembro como nos abordaram. Nós: Eu e a Raquel.

Como meu francês era bem curto, eu arriscava o inglês e durante os três meses que eles passaram por aqui nos divertimos com esses franceses. Tanto que quando fui para Espanha, meu objetivo era juntar dinheiro para passar uma temporada em Paris e estudar francês.

No meio do caminho a Raquel casou com o Doubi, que é belga de Bruxelas. A Raquel descobriu que falava francês por osmose de tanto ouvir seus pais conversando. E insistiu para eu ir passar uma temporada na casa deles. Os argumentos eram: “Você vai ter além da companhia: comida, casa, roupa lavada e a Revista Veja”.

Acabou meu estágio em Madrid e fui para Paris passar uma semana. A Vivi, minha roommate em Madrid, já estava morando por lá e fiquei no apartamento do Jean Claude, namorado da Vivi, que tinha ido passar uns dias em Chamonix. Conheci Paris meio que sozinha, pois a Vivi estava trabalhando e eu não tinha outros amigos por lá. Paris como sempre deslumbrante e fui super bem recebida pelos parisienses. De Paris fui para Bruxelas de trem, carregando uma quantidade absurda de tralhas de um ano de Espanha. O Doubi e a Raquel me receberam absurdamente bem. Eles tinham acabado de se casar. Moravam em um apartamento muito bacana e eu tinha meu quarto.

A idéia era ficar uns meses em Bruxelas. Estudar francês, curtir minha melhor amiga, mas depois de uma semana, eu resolvi voltar para o Brasil. Eu acho que tive uma crise de homeseek. E também eu já estava namorando com a pessoa que seria meu marido pelos próximos 11 anos. Homeseek+paixonite, voltei. E meu sonho de aprender francês ficou para trás.

Chegando no Brasil, eu voltei para mesma empresa que trabalhava antes e para FATEC para terminar meu curso. Casei. Uma revolução na família, pois “fui morar junto”. Morar junto há 25 anos atrás? era um absurdo. Depois de 1 ano, eu me rebelei. Eu adorava meus chefes, que são meus amigos até hoje, mas odiava o que eu fazia. Acabei saindo da empresa, e assim entrei na Intek, onde começou a minha vida com a Apple.

Um dos clientes da Intek era o Grupo Accor. A Zenaide, na época, assessora da presidência, tinha comprado um notebook Mac em Paris e queria aprender usá-lo. Eu ainda tinha meu sonho de aprender francês e assim foi feita a troca. A Z estudou francês na Aliança. Viajava todos os anos para França e por trabalhar em uma empresa francesa tinha que ter um francês impecável. Apesar de ser brasileira, sempre foi uma brasileira com alma francesa.

Eu dava aula de Mac para Z, e ela me dava aula de francês. Eu saia da Intek e ia para o prédio da Accor na Av. Paulista. Era no meio do caminho da minha casa. As aulas eram de 1h no final do dia. Duas vezes por semana. Claro que ficamos amigas, e nem ela aprendia Mac, nem eu francês, pois batíamos mais papo, que qualquer outra coisa. Esse troca-troca durou mais de ano. E mais uma vez interrompi minha tentativa de aprender francês.

Nesse período, a minha amiga que virou cunhada, Vivi, se casou com o Jean Claude. E aí, eu passei a ter uma família francesa por 11 anos. Me separei e fiquei sócia de uma francesa aqui no Brasil. Ou seja, o francês esteve sempre de alguma forma no meio da minha vida.

Eu entendo bem francês, consigo ler, e falo fluentemente com motoristas de taxis do Congo, Costa do Marfim, ou qualquer outra colônia francesa. Viajo frequentemente para Bruxelas, algumas tantas vezes para Paris, mas de verdade, não desenvolve, diria que tenho um francês médio para bem ruim. Peut être um jour. À bientôt!

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