Ivrit.

Esse é o último texto sobre línguas e o último do feriadão.

Tenho algum tipo de deficiência cognitiva. Por anos achei que era dislexia, pois não consigo diferenciar rapidamente a esquerda da direita, puxe e empurre, sobe e desce. O mais desesperador é aquele desenho de abrir e fechar porta de elevador. Congelo e fecho na cara da pessoa. Sem falar nos malditos ícones engraçadinhos de masculino e feminino de banheiros. Várias vezes já entrei no banheiro errado. Outro dia descobri que isso pode ser deficit de atenção, ou DDA, como chamam hoje. Bem, seja lá o nome, eu escrevo muito rápido e perco mais tempo corrigindo as toneladas de erros de gramática, sintaxe, misturas com outras línguas, que propriamente escrevendo o texto. Tenho facilidade com idiomas, e isso me levou a ser uma analfabeta em várias línguas.

A língua que mais estudei na vida foi o ivrit. Ivrit é hebraico em hebraico. Entrei na escola judaica com três anos de idade e sai com 17. Durante esses 14 anos tive pelo menos 2 vezes por semana aula de hebraico, de 40min a 1h. Calculando que temos 4 semanas em um mês, devo ter estudado no mínimo 1120 horas de hebraico ou 3 anos seguidos sem parar 1h por dia. Além das aulas de Tora (Religião), Moledet (Geografia de Israel), História Judaica e Tradição. Adorava todas as aulas. Principalmente Moledet e História Judaica. Por muito tempo eu sabia mais de história e geografia de Israel e do Oriente Médio do que de qualquer lugar do planeta.

Hebraico é uma língua antiga com mais de 3.300 anos. Os judeus da diaspora, como os meus avós, falavam dialetos como o iddish e o ladino e foram perdendo o hebraico que era usado mais nas rezas. O hebraico voltou a ser importante para os judeus com a fundação do Estado de Israel em 1948, sendo a língua oficial do país, além do árabe.

O hebraico é uma língua afro-asiática. Você consegue encontrar algumas semelhanças nos hieróglifos egípcios, no árabe, mas é muito parecida com aramaico. O desenho das letras é totalmente diferente do alfabeto em latim. Se escreve da direita para esquerda. As letras são basicamente consoantes, e embaixo das letras tem os pontinhos: as vogais. Quem é fluente em hebraico consegue ler e escrever sem pontinho, ou seja, lê basicamente consoantes. O vocabulário não tem praticamente nenhuma relação com o latim, o anglo-saxão, ou qualquer outra língua ocidental que conhecemos. Não é difícil como os ideogramas chineses, japonês, mas também não é tão fácil.

Eu sou letrada em hebraico. Consigo ler as letras, de preferência quando tem as vogais. As vezes eu leio e entendo o que li e as vezes só leio. Outro dia assisti um documentário em hebraico e me deu um super nervoso, pois entendo 3/5 palavras em uma frase, mas não entendo a frase. Não sei o que é pior não entender nada, ou entender 40, 50%, as vezes 100% de uma frase, se for uma frase fácil, mas não entender o texto completo.

Sempre quis ir para Israel. Era um sonho de anos e provavelmente de qualquer judeu na diaspora. Muitas viagens que fiz na vida estavam atreladas a alguma viagem de trabalho, ou casamento de alguém, ou bar-mitzvá. Eu demorei para conseguir ter o tempo que queria para ir para Israel. Toda vez que programava de ir acontecia alguma coisa e tinha que desistir. Finalmente há uns 4 anos atrás fomos passar 10 dias depois do bar mitzvá do Ariel em Bruxelas.

Voamos de El Al: Bruxelas – Tel Aviv. A aeromoça anuncia na hora do pouso: Shalom a Baita, ou Bem-vindo a sua casa. Eu já chorei aí. Israel é a casa dos judeus. Você pode ter sido bem acolhido em qualquer país do mundo. Ser brasileiro, corinthiano, mas pisou em Israel, a coisa pega. Pega de uma maneira inacreditável. Você se sente em casa de verdade. Passei dez dias tentando conversar, lendo placas em hebraico. Teve até uma engraçada: Ch, ch, ch,,,che,,chevr…chevro..CHEVROLET…O Mi me tirou o maior sarro. Era um outdoor gigante e tava escrito Chevrolet de um lado em hebraico e do outro tinha um carro com o logo enorme da GM. Fiquei orgulhosa de ter conseguido ler.

Não sei porque estudei tanto e não sei quase nada. Acho isso frustrante demais, mas com certeza os meus amigos de escola vão dizer o mesmo. Salvo os que foram morar em Israel.

Voltei para o Brasil, e logo apareceu no meu FB um anúncio de uma universidade de Jerusalém que dava curso de hebraico online. Me inscrevi, grudei no meu teclado as letras, fiquei toda entusiasmada. Na primeira aula, da turma intermediária, eu desisti. Apesar de ser interessante, pois tinha gente do mundo todo. A grande maioria não conseguia falar nada, e a aula virava uma zona, sem produtividade alguma. Como boa ariana me entusiasmei e desisti do assunto.

Ainda vou morar um tempo em Israel e recuperar esse tal hebraico que deve estar perdido aí em algum lugar do meu cérebro.

Antes de terminar a minha saga pelas línguas, quero contar minha breve experiência com o mandarim. A China um dia vai dominar o mundo e vamos ter que nos comunicar com os 1.2 bilhões de chinezinhos. Fiz um curso online super bacana, do qual não consegui passar da primeira fase. Dessa vez não desisti, mas é difícil, muito difícil e não conseguia aprender mesmo. De qualquer forma logo depois de começar aprender um pouco de mandarim eu fui para Hong Kong. Cheguei lá toda feliz, iria poder me comunicar pelo menos um pouco. Falava para todo mundo: Ni Hao? e o povo me olhava feio. Achei que não estava entoando correto, até que perguntei para Joyce, a nossa salvadora-assistente e ela me explicou que em Hong Kong se fala cantonês. Aff que fora…

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