O sonho da casa própria.

Vivemos em uma cultura que ter uma propriedade é quase como respirar. Enquanto não conseguimos ter a nossa casa própria parece que não temos absolutamente nada. Tem gente que já percebeu que o melhor é deixar o dinheiro rendendo. Mesmo assim, segui a risca o que meu pai me ensinou. Dos 18 aos 28 anos guardava 30% do meu salário para realizar o tal sonho.

Saí de casa para morar junto com 22 anos. Meu namorado-futuro-ex-marido morava em um apartamento estilo república, com um amigo, perto da Consolação. Fui para lá com meu edredon e meu travesseiro dormir em um colchão de casal no chão. Meus pais quase morreram. Minha mãe dizia: “Meu Deus, minha filhinha dorme no chão.”

Aos poucos consegui dar um ar de casa de menina. Primeiro me livrei do amigo. Depois quando vi que não ia sair de lá tão cedo, fiz uma pequena reforma. Pintamos o apartamento, colocamos cortina, compramos uma cama, armário na cozinha, sofá e mesa da sala. Ufa, era finalmente uma casa.

O prédio ficava em uma região meio estranha de São Paulo. No sexto andar moravam travestis e putas da Augusta. E vire e mexe o Oscar do basquete estava por lá. O pai dele era dono do prédio ou da maioria dos apartamentos. Um dia meu vizinho de porta quebrou um pau danado com a mulher e foi assim que paramos de lavar roupa na Landromatic e compramos nossa primeira máquina de lavar (do vizinho, claro).

Não tinhamos garagem e o carro ficava em um estacionamento longe pacas. A primeira vaga era na garagem do MundoMix na Augusta. Para ir até lá, passavamos pelas putas da região, que já nos conheciam e até nos cumprimentavam. Depois tivemos uma garagem na frente do cemitério da Consolação. Um dia caiu uma chuva horrorosa e a tampa de uma caixa d’água de concreto, do prédio ao lado da garagem, despencou do 10o andar e caiu no teto da garagem, em cima do nosso carro. Puta sorte do caralho. Acertou o nosso carro, ou melhor acabou com nosso carro. E foi assim que conhecemos o Tribunal de Pequenas Causas e passamos um belo tempo processando o prédio. Imagina se tivesse caído na cabeça de alguém? Matava.

Um belo dia resolvemos casar, e aí chegou a hora de procurarmos a tal sonhada casa. Nosso briefing era muito claro: queríamos um apartamento de três dormitórios em um prédio antigo, pé direito alto, sem salão de festas, parquinho, pois íamos morar dentro do apartamento e não fora. Na época não era como hoje que você olha tudo na internet com fotos e vai ver o que te interessa. Ninguém queria apartamento antigo. Hoje virou vintage. Você visitava toneladas de imóveis que não te interessava. Ficava bem desanimado. Levava um tempão, mas um dia aparecia o sonho.

E apareceu.

Eu andava muito a pé nessa época. Desci a Padre João Manoel e vi um prédio que me chamou a atenção e pensei: “Adoraria morar aí”. E era lá mesmo. A corretora estava me esperando na porta. Subimos e eu disse: “É aqui”. Aí começou o perereco, óbvio que era mais caro que o nosso orçamento e ainda teriamos que jogar uma bomba e reformar tudo. O apartamento estava fechado faziam 5 anos, pois a proprietária havia falecido. O edifício é o mais antigo dos Jardins e nunca tinham feito uma reforma. Então imaginem o estado. Aliás o pior era a falta de infra. Não tinham tomadas, não tinha antena de tv, telefone, internet então. Coisas básicas de uma vida moderna.

Negociamos e fechamos.

Ficamos tão felizes que resolvemos dormir no apartamento quando pegamos as chaves. Levamos os sleeping bags, um Veja e um paninho. Bem…

O quarto estava imundo. A camada de “pó de cinco anos” no chão era enorme. Demos uma limpadinha e deitamos. Esses sleeping bags eram para 0 grau. Muito apropriado para o clima brasileiro. Primeiro assamos dentro deles. Depois, a sensação era que os ônibus da Rua Augusta estavam subindo em cima de nós e as motos atravessando o apartamento. O barulho, por conta do lugar vazio e das janelas antigas de ferro, era enlouquecedor. Não deu 5 minutos e estávamos com uma rinite alérgica daquelas.

Ainda tentamos disfarçar, mas passou uma hora, eu comecei a chorar. Queria devolver aquele apartamento barulhento dos infernos e voltar para o nosso moco! Levantamos no meio da madrugada e voltamos para nossa casa.

Hoje temos janelas anti-ruído. Já fizemos 4 reformas. Moro nesse apartamento há 18 anos, 13 com o Mi e sou apaixonada pelos dois.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s