Eu ia apenas soletrar e no meio do caminho fiquei exausta.

Ontem eu publiquei uma introdução do meu post de hoje.

Quando eu era criança fui induzida a me apaixonar pelo Schulz, o Snoopy, o Charlie Brown e o resto dos Peanuts. A minha única prima mulher de primeiro grau e mais velha que eu seis anos, a Clarinha, era doida com o Snoopy. Ela sempre desenhou maravilhosamente bem e passava o dia desenhando Snoopys e bonequinhas, ora dançando, ora desfilando, pareciam desenhos de estilistas. E eu era doida com ela. A imitava em tudo.

A Clara adora cinema e nessa época sabia todos os musicais de cor. Cantei até morrer com a Julie Andrews, Do, Re, Mi da Noviça Rebelde, que vimos um milhão de vezes no cinema da Hebraica e principalmente no cinema do boi lá na Mario Ribeiro, na frente do Iemanjá, no Guarujá. Imagina ser levada ao cinema pela prima mais velha e amigas? eu me sentia a própria.

Meu primeiro Snoopy original eu ganhei da Clarinha. Com 18 anos ela foi passar uma longa temporada com a nossa família americana e voltou de viagem carregando meu presente na mão. Naquela época nós íamos de comboio ao aeroporto levar e buscar quem fosse viajar. E nunca vou esquecer a minha emoção de ganhar meu primeiro Snoopy vestidinho lindo da Hallmark original. Tenho ele até hoje, bem como a coleção de todas as tirinhas. E mais um outro que parece um farrapo sem uma das orelhas, que era “fake”. Eu chamava de Snoopito e levava para tudo que é lado.

Quando o Schulz faleceu em 2000, eu morava nos EUA e lembro de todas as capas de jornal falando da sua morte, principalmente das matérias do San Francisco Chronicle. Além das tirinhas e da quantidade absurda de produtos licenciados, também tinham os filmes em desenho animado. O filme “A boy named Charlie Brown” era o meu favorito. Contava a participação do Charlie Brown no concurso de soletrar da escola. Foi aí que descobri que os americanos aprendem a soletrar desde pequenos.

O teste é simples. Eu tenho um nome e um sobrenome que em nenhum lugar do mundo é fácil, talvez lá na Ucrânia, o local da sua origem. Logo, peguei a mania desde pequena de ao invés de falar meu sobrenome, soletrar e em qualquer língua. Qualquer americano entende de primeira. Nenhum brasileiro, de nenhuma classe social ou grau de estudo entende. É impressionante. Faltou e muito aula de soletrar na nossa infância ou somos absurdamente desatentos.

Eu já estava pensando em escrever esse texto há alguns dias. Eis que resolvo ler a Veja, não tem jeito, é o que temos, então eu leio meio a contra-gosto, mas leio.

Estou exausta. Foi assim que eu terminei a leitura da infantil matéria de capa da Veja. Não entendi, porque uma revista como a Veja precisa escrever um editorial para esfregar na nossa cara o que já estamos carecas de saber. Primeiro inventa uma pessoa, com a cara do famoso auto-retrato de desespero do Gustave Courbet, pelo menos deram crédito. Depois inventa uma tal jabuticaba. Nunca usei esse termo, mas vai saber as vezes estou por fora de algum novo tipo de gíria. Aí escreve um texto óbvio para qualquer brasileiro residente ou fugitivo dessa zona infernal que vivemos.

A sensação que deu é que a matéria era para “alguém”. Não sei se esse alguém era a imprensa internacional, ou algum político específico. Mas, foi exaustivo ler que somos os reis da ineficiência escancarada. Que perdemos horas e horas do dia repetindo procedimentos imbecis, como soletrar centenas de vezes o nome e o sobrenome. Ou passar horas tentando resolver serviços básicos domésticos. Todos sabemos disso. Todos estamos em estado de ebulição de anos e anos e anos, ou como disse o Sergio essa semana, 500 anos tentando e não chegando a lugar algum.

Quem sabe a simples tentativa de aprender a soletrar não nos ajude a conseguir melhorar um pouquinho. Se o Charlie Brown conseguiu, todos conseguem.

BE – OH – EME ESPAÇO DE – OH – EME – I – ENE – GE – OH…ufa.

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