Confissões de uma louca.

Esse texto faz parte de uma trilogia que começou esse fim de semana com: Confissões de um gênio, e vai terminar amanhã.

E todo dia alguém me chama de louca: “Sua louca!”. “Minha amiga louquinha”. Minha mãe: “A Té é toit mishigane”. Meu pai: “Epa, o louco número 1 da familia sou eu! Em loucura ninguém me ganha”. E filha de louco, louquinha é.

E por que será que sou louca?

Essa eu percebi bem antes de fazer terapia e herdei mesmo do meu pai.

Sempre gostei de trabalhos manuais. Quando eu era criança minha mãe, minha tia, a Dani, mãe da Raquel, a Clarinha, minha prima, passavam o dia fazendo tricô. Eu e a Raquel entramos na onda também. Tentei fazer uma malha branca, lembro dela até hoje. Nunca consegui terminar, mas inventei uma técnica de fazer meias. E assim, eu fiz toneladas de meias de lã. Cheguei até ensinar a Marjorie e todas as minhas amigas em uma temporada em Itaipava, e incentivada pela Tia Bete, que comprou lã e agulhas para todas nas lojinhas de Petrópolis. Nem consigo imaginar usar uma meia de lã hoje, tem que fazer um puta frio. Das meias eu passei para luvas. Eu consegui inventar um jeito de fazer luvas com cinco dedos, aquelas só com dedão são bem mais fáceis.

Com uns vinte e poucos anos me dei conta que tinha uma impulsividade fora do normal. Cada vez que me entusiasmava com alguma coisa, eu despendia uma energia contagiante. Ficava tão entusiasmada que chegava quase a uma obsessão. E essa obsessão se dava por fases que da mesma maneira que apareciam com uma intensidade absurda, desapareciam como se nunca tivessem acontecido. Um pouco mais velha eu percebi que eu tinha um prazo para executar determinada tarefa, tudo que fosse de longo prazo não funcionava. Por isso eu fazia meias, que eram feitas em algumas horas e não malhas.

Sempre gostei de cerâmicas e porcelanas pintadas. Os famosos pratos pintados da Costa Amalfitana, os azulejos portugueses, as porcelanas sofisticadas das fábricas de 1700 como Limoges, Royal Kopenhagen, os Lladró, que colecionava para minha mãe, e a porcelana chinesa. E aí resolvi soltar a criatividade e pintar. Óbvio que não fui fazer um curso. Li tudo a respeito, comprei livros. Fui em uma lojinha que tinha na Augusta, comprei as tintas, alguns azulejos, e dei de presente azulejos pintados para todos os parentes e amigos. Durou alguns meses, e passei dos azulejos pintados para o tear manual. Ganhei um pequeno tear para aprender a tecer, inspirada nos tapetes persas, shiraz, killin que invadiram São Paulo no início de 90. Dessa vez me entusiasmei tanto que resolvi fazer um curso no Sesc Pompéia. Nessa época eu tinha o Omeleto, um fusca amarelo ovo, caindo aos pedaços. Eu voltava do trabalho de metro da Vila Mariana para Consolação. Pegava o material, o Omeleto e ia lá para o Sesc, e conseguia chegar as 19h. Nem imagino como fazer isso hoje. Seria impossível.

A aula era com uma japonesa, muito legal. Usava lãs naturais. E aprendia os “pontos” no meu tear pequeno. Um belo dia atacou a impulsividade. Queria fazer um tapete. Essa coisa de aprender ponto e não fazer nada não tinha a menor graça. A professora me deu o endereço de um artesão que construía tear e lá fui eu em algum lugar na Casa Verde comprar meu tear de verdade. Era enorme. Ocupava metade da sala do meu pequeno apartamento. Nesse dia passei oito horas tecendo meu tapete. E nunca mais pus a mão no tear. E desisti da aula. E passei para o próximo assunto. Mesmo assim o tear ficou montado na sala por mais de ano, até que eu dei de presente para Clarinha.

Essa mesma energia para trabalhos manuais eu tenho para criar empresas, projetos, me entusiasmar com um filme, um livro, um restaurante, uma determinada cidade, cultura, artista, chocolate, uma pessoa, seja lá o que for, quando eu gosto de alguma coisa, eu tenho opinião e muita opinião. Será que por isso me chamam de louca? porque eu digo o que penso? Não sei. Acho que é pela intensidade. Eu vibro tanto, meu olho deve brilhar, ou até virar, fico totalmente possuída pelo assunto.

Em 1995, eu fui para Nova Iorque e Boston participar dos congressos da Mac World e Seybold. Na verdade eu fiz esse percurso durante seis anos, duas vezes por ano. Mas nesse ano algo de muito importante estava acontecendo no mundo. A conexão entre dois computadores em locais totalmente diferentes, tinha ganho uma nova interface: “A world-wide-web”.

O que era isso? Um software, browser, que traduzia uma linguagem já usada a muito tempo por militares, o SGML, e uma tecnologia que também já existia a muito tempo, final da década de 50, o protocolo IP para conectar dois computadores. A www permitia que um usuário comum pudesse se conectar a uma quantidade absurda de conteúdo programado em HTML, a versão digital do SGML, e navegar por essa informação através de uma busca e cliques em palavras que relacionavam um texto a outro texto. SGML quer dizer Standard General Markup Language e foi criado para catalogar documentos de maneira a se encontrar um determinado assunto de maneira mais fácil. Por exemplo, Roosevelt, traria tudo ligado ao presidente. Morfina, tudo ligado ao medicamento e todos os cruzamentos que esse assunto pode ter na medicina ou em qualquer outro tema. Nada mais que a internet que estamos usando a quase 20 anos.

Voltei totalmente enlouquecida dessa viagem. Cheguei na agência, onde trabalhava, possuída pelo o assunto. Todos congelaram. Me olharam como seu fosse louca. A única pessoa que me ouviu, foi a mais velha, que mal sabia por a mão em um computador. E assim criei um dos primeiros domínios da internet brasileira, um dos primeiros sites, e até ganhei um prêmio. Louca eu? hãn, hãn…

E o assunto pode ser até trazer vacas coloridas em tamanho natural para colocar no meio das ruas de uma cidade tão mal cuidada como São Paulo. No final de 2003, estava batendo papo com a Raquel, e ela me contou do evento das vacas que tinha acontecido em Bruxelas. Nessa mesma época estava me associando para abrir a Toptrends. Voltei desse papo totalmente enlouquecida. Já imaginei as vacas pela rua, a Nestlé patrocinando o evento, e a alegria de ver São Paulo menos cinza. Cheguei em casa, fiz uma pesquisa, descobri quem eram os donos dessa idéia, entrei em contato. E na próxima reunião com os sócios, contei a idéia. Congelaram. A Ester ficou louca. Vaca? O mesmo se repetia em reuniões com clientes. Vaca? agora ela enlouqueceu de vez. E já se passaram 10 anos e a loucura foi feita em várias cidades do Brasil. Sim, vacas!

Essa loucura toda está bem relacionada com a minha velocidade de raciocínio e uma característica do meu signo de Aries, a impulsividade.

Eu engordei muito depois dos 34 anos. E comecei a me identificar com os hipopotamos. Comprei até um hipopotamo de ouro e passei anos com esse hipopotamo no pescoço. Quando comecei a trabalhar com as vacas, as pessoas achavam que era uma vaca. Eu ficava brava: “Não é um hipopotamo”. Pintei dezenas de quadros de hipopotamos, que estão distribuidos pelos familiares. E tenho um casal, a Gorducha e o Gorducho, que são emoldurados em dourado, como uma obra de arte de museu, e que estão pendurados em casa com destaque.

Meu último ataque de loucura relacionado com trabalhos manuais foram as pulseiras de shambala. As shambalas são pulseiras feitas de bolinhas coloridas e amarradas com uma técnica bem simples de macramê. Uma joalheria lançou essas pulseiras com as bolinhas feitas de ouro e brilhantes. Negros para homens, brancos para mulheres, ouro branco, ouro amarelo, muitas bolinhas, poucas bolinhas. Achei tão lindas essas pulseiras, que resolvi aprender, sozinha claro, e fazer para mim. Fui até a 25, comprei uma tonelada de material, gastei uma bela grana, e durante 15 dias fiquei fazendo shambalas uma atrás da outra, de todas as cores, com bolinhas de turquesa, de coral, de quartzo rosa, ônix, uma diversidade de cores e materiais. Foram mais de 70 shambalas. Fiz um chá para amigas em casa, e algumas compraram, e mesmo assim, tinha toneladas de shambalas. A Shashá gostou tanto que levou para vender na sua loja, vendeu tudo. Tenho ainda muito material, mas nunca mais fiz pulseirinhas. O mesmo aconteceu com anéis, com esmaltes, e até com pepinos azedo.

Entre todas as tentativas malucas para emagrecer, eu fui parar no famoso Dr. Samir, que a mulherada magrinha toda conhece. O Dr. Samir é uma espécie de cientista louco. Ele adora criar formulas mágicas para tratar suas pacientes, logo tudo que você toma é formula. Uma das formulas devia ter uma quantidade enorme de diurético, e eu tinha uma necessidade de comer sal e comida ácida absurda. Para suprir essa necessidade, eu comia sal mesmo puro, salada, picles e pepino azedo.

Todo final do ano alugávamos uma casa em Camburi e a família toda ia para lá. Nesse ano fiquei preocupada, como eu ia suprir minha necessidade de sal? Falei com o Dr. que não era normal, estava comendo sal demais e não devia fazer bem. Como estava emagrecendo, ele disse que não tinha problema. Bem, lá fui eu na Zilana com 13 potes vázios e enchi de pepinos azedo a granel e azeitonas pretas chilenas. Em 10 dias eu comi todos os potes. Virou a piada da familia. Essa eu tinha batido o recorde da loucura. Eles já estão acostumados, mas essa não superaram até hoje. Oh loco! haja pepino!…

Se ser louca é ter prazer por coisas simples da vida, eu sou totalmente louca. Posso passar horas contanto histórias dos meus ataques de impulsividade. E com toda naturalidade dizer que mudo de idéia. Não mudar de idéia ou não admitir que mudou de idéia é algo muito esquisito. Você passa a vida aprendendo, se informando, construindo um conhecimento, impossível achar que tudo é igual sempre. A vida é um processo evolutivo e mudar de idéia faz parte desse processo.

Sinceramente eu as vezes até acho que devo ser louca mesmo de tanto que ouvi que sou, mas como sempre, que se foda, eu sou quem eu sou. Gostou? ok. Não gostou? azar.

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