Confissões de uma brava.

 

Esse texto termina a trilogia, que define como os outros me enxergam. Não necessariamente eu concordo ou acho o mesmo, mas é assim que as pessoas me entendem. Anteriores: Confissões de um gênio e Confissões de uma louca.

Ensinar o outro é uma arte. Durante muitos anos eu dei cursos de tudo que é assunto, na sua grande maioria ligados a alguma área da computação. Quando trabalhei na Arthur Andersen, em Madrid, fui convidada pelo sócio da área de Recursos Humanos a formar sua equipe em softwares básicos como: DOS, WordPerfect e Lotus 123. Um dia em uma das aulas, uma aluna de origem inglesa, virou para mim e disse: “Tenho medo de você”. Eu reagi com um baita susto: “Como assim medo de mim?”. Ela tentou explicar que se sentia intimidada comigo. Eu tinha 22 anos. Eu achei que podia ser algum tipo de diferença cultural. Bem da esquisita por sinal, afinal ela morava na Espanha e espanhol é conhecido pela agressividade ou rispidez no trato. Talvez por isso eu me entenda tão bem com o espanhol.

Passaram-se alguns anos e esse tipo de reação de ter medo ou dizer que eu era muito brava se repetiram. De todos os adjetivos que encontraram para minha pessoa, esse sempre foi o que mais me intrigou. Por que será que me acham brava?

Voltando ao tal raciocínio rápido, a forma impulsiva, a falta de paciência com o outro, achei que ser brava deveria estar relacionado com algum tipo de resposta torta. E os anos foram passando.

Naquela famosa agência que eu trabalhei. Um dia na hora do almoço, todos já tinham saído e estavam apenas eu e os meus dois chefes no terceiro andar, que era conhecido por não ter paredes. Tive uma discussão com alguém ao telefone e claro que todo mundo escutava. O Washington virou para o Gabi, e disse: “Se a Esterzinha pudesse ela jogava uma bomba no segundo andar”. E como jogava. Trabalhava em uma empresa que um lado era a vanguarda e o outro estava na idade da pedra lascada. Era surreal. E eu cuidava da vanguarda e a turma do segundo andar cuidava de me atrapalhar. A minha braveza nessa época era quase leonina. Só faltava morder.

Minha mãe sempre dizia: “Não posso abrir a boca”. Ela vivia dizendo que eu só dava patada.

Criei a POPCOM em 99 e pela primeira vez tive que contratar funcionários. Tarefa nada fácil. Ainda mais para alguém que não entendia o outro como eu. Eu achava que todos fossem “rapidinhos” como eu. Só depois de muita terapia que fui entender que eu era o problema e não os outros. Eu brinco que devo valer por uns 5/10 funcionários. Pelo menos nessa época da POPCOM, quando eu me desliguei da empresa, tiveram que comprar outra inteira para me substituir. Pode ser até virtude, mas muitas vezes atrapalha a minha vida. Como dou conta de muito, quando eu vejo estou fazendo demais e sobrecarregada.

Em 2000 assumi a Vice Presidência de um start-up internacional, a PSN.com. Eu tinha 32 anos, era mulher, brasileira e iria ter um cargo de extrema responsabilidade em um grande investimento voltado para o futebol latino-americano, assunto exclusivamente masculino. Não contente em ter o cargo, ainda assumi uma Vice-Presidência em duas áreas que teoricamente não se complementam: criação e tecnologia. Belo embrolho que me meti. Contratamos uma equipe de mais de 120 funcionários, entre eles muitos geninhos, em 4 países.

Para me manter em cima do tapete em um ambiente ultra competitivo como é o mercado americano, eu soltava todas as frangas. Eu tinha que lidar com advogados, fornecedores de contratos milionários, fundos de investimento, os outros executivos e os funcionários. Os advogados quase me deixaram louca. Eu passava as noites discutindo contratos ao telefone. Cheguei a jogar telefone na parede em hotel. Vivia mais viajando que qualquer outra coisa. Igual cena de filme. Hoje eu até gosto de ler contrato e entendo que o advogado pode até entender da parte jurídica, mas a parte comercial e técnica tem que ser revisada pelo contratante. Os fornecedores sabiam que tinha um fundo de investimento injetando montanhas de dólares e queriam a qualquer custo entubar a empresa com produtos milionários, superfaturados e inúteis. E quem dizia não era eu. Os funcionários foram contratados em uma tacada só. E para adaptar as pessoas em outros países, em uma nova estrutura totalmente sem estrutura? afinal era um start-up. Foi bem complexo.

E aí sim, me chamavam de brava, quase que diariamente. Foi um grande aprendizado, lidar com as pessoas e principalmente com os geninhos. Um geninho é um problema sério em uma equipe. Destoa. Não tem jeito de não destoar.

Nessa época nossa equipe foi chamada para desenvolver um projeto para Inter de Milão. Quando cheguei em Milão, no escritório da Inter, percebi que íamos fazer uma besteira do tamanho do mundo. O presidente da Inter, que tinha acabado de assumir e não era italiano, achou que deveria trocar o sistema e o projeto de internet, de um site que já estava no ar, que tinha uma equipe exclusiva trabalhando para ele, que atraia milhões de “tifosos”, torcedores, aliás essa equipe trabalha nele até hoje, e que funcionava. Só não era “bonito”. Convenci todos que tínhamos apenas que mudar o “look and feel” e deixar o “background” do jeito que estava. Em italiano, para dezenas de pessoas. A coisa era assim, cada dia um novo desafio, e não tinha como ser frouxa. E aí o jeito era ser brava ou firme ou segura.

Hoje, eu teria agido totalmente diferente com a equipe de funcionários. Eu não tinha paciência, não entendia o limite do outro. Não entendia que para uma equipe funcionar tem que ter uma certa coesão, um complementar o outro, e não disputar, não abafar. E resolvia no grito. Essa braveza toda me fez receber o convite para ser CEO dessa operação e recusei. Achei que não tinha maturidade suficiente.

Aprender a delegar e aprender a gerenciar pessoas é uma evolução na carreira profissional. E aprendi um pouco. Melhorei muito nesse aspecto. Sou bem menos agressiva, sei dar valor para o outro, entendo que cada um tem um limite e uma aptidão. Esse limite determina o que cada um é capaz ou não de fazer, e o bom gerente sabe lidar com esse limite. A aptidão dificilmente vai ser “multi-task” como a minha, logo aprendi que cada um é bom em alguma coisa, e as vezes até dentro de uma determinada áerea. Por exemplo, eu sou muito boa em analise, suporte e lógica e apesar disso sou péssima em programação de sistemas. Conheço muitos criativos excelentes para peças impressas, péssimos para sinalização, pior ainda para webdesign, e por aí vaí. Gosto de elogiar e criticar para melhorar. Com isso mantenho equipes mais tempo operando e consigo até viajar de férias. Mas continuam me chamando de brava. Tem cliente que até manda recado: “Não quero negociar com a Ester que ela é muito brava”. E aí, sobra para mim sempre dizer: “Não”. Fico com a fama de brava, para limpar a barra dos que ficam por cima do muro.

Acabei de me desligar da Toptrends e super tranquila, pois sabia que tinha formado uma equipe que podia me substituir nas tarefas operacionais. As tarefas de estratégia, criatividade e negócio são mais dificeis de substituir. Já o bom vendedor vende qualquer coisa de avião a alfinete. Isso se chama maturidade e aprendizado e só se adquire com anos de experiência.

Eu não gosto de todas as pessoas. Não sou nada fácil em dar abertura para alguém fazer parte do meu seleto circulo de amigos. Conhecidos, posso até ter aos montes. Amigos que frequentam a minha casa? não, não, não. Almoços de empresa com dezenas dando risada? nem pensar. Nunca consegui ter turma, ter essa coisa de falar com qualquer um, qualquer coisa. Pode parecer antipático, mas eu sou assim, seletiva. Só me conhece de verdade quem eu dou abertura de chegar perto. Poucos e muito privilegiados. Logo cliente, é cliente, não amiguinho. Trato como profissional, não nhe nhe nhe.

Cheguei a conclusão que ter opinião, ter firmeza na opinião, dizer não, ser exigente, não ser puxa saco, maria vai com as outras, discordar do outro, não gostar de todo mundo, sair de cima do muro, não dar desconto para ter prejuízo para dizer que fez, dizer para o cliente que não dá para fazer, entre outras manifestações de alguma personalidade, levam a essa constatação que sou brava.

Tenho outros amigos assim, com “Síndrome de Braveza”, como os louquinhos e os geninhos. Damos risada. No fim, quero mais é que se fodam todos que me acham brava. E aviso: “Cuidado que eu mordo!”.

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