Maria Martins, ou simplesmente Maria.

E aos meus 47 anos de idade eu descubro, na minha modesta opinião, a mais importante artista brasileira de todos os tempos. Maria Martins, ou simplesmente Maria. Acho o nome Maria lindíssimo. Passei desapercebida pelo talento e pela obra dessa artista e pelo visto muitos passaram. Você conhece? Ano passado tivemos uma retrospectiva de sua obra no MAM paulista. Tenho certeza absoluta que estive no MAM exatamente na época da exposição. Tomei um café em uma reunião e não vi a exposição. Frustradíssima de ter perdido. Correria da vida, outros interesses na época, perdi. Maria foi resgatada em 2010 ao universo brasileiro das artes, primeiro pelo apaixonado Charles Cosac, que dedicou seu patrimônio e anos da vida em editar os artistas brasileiros e perpetuar seus trabalhos em elaborados livros, verdadeiras obras primas. Depois pela Documenta (13), em 2012, famosa e respeitadíssima mostra de arte moderna e contemporânea em Kassel na Alemanha que dedicou uma de suas salas a obra de Maria. E agora pelo MAM em 2013. Maria, uma figura complexa, como bem disse seu neto Felipe, em uma entrevista no lançamento do seu livro pela Cosac, nasceu em Campanha, no interior de Minas Gerais em 1894. Estudou nas melhores escolas, aprendeu francês, música, muita literatura, escrevia poemas, casou, viajou o mundo. Em uma viagem para Itália, teve um caso relâmpago com Mussolini, que acabou de vez com o seu casamento. Já separada em Paris, seu pai implorou ao amigo Carlos Martins para visitá-la. Ele era o embaixador brasileiro em Londres, e assim Maria, passou a ser Maria Martins. Vida de embaixatriz, viveu em várias cidades como Paris, Copenhagen, Tóquio, Quito e Bruxelas. Começou a estudar artes plásticas e técnicas de cera perdida, em Bruxelas com Oscar Jesper. Em Washington 12 anos depois de começar os estudos, Maria fez sua primeira exposição, do total de 3 realizadas no Estados Unidos. O período produtivo de Maria nas artes plásticas durou menos de 10 anos, mas que 10 anos. Durante a segunda guerra, todos os principais artistas europeus tinham se refugiado em NY. Assim Maria conheceu André Breton que lhe apresentou os principais artistas da época como: Mondrian, Duchamp, Max Ernst, Yves Tanguy, entre outros. Seu relacionamento com Martins, aberto e ultra moderno, permitia vários affairs dos dois, e Maria “namorou” o pintor holandês Piet Mondrian. Depois, por mais de 10 anos teve um caso amoroso e perturbado com Duchamp, que influenciou imensamente sua obra e a dele. Em 1943 Maria e Mondrian participaram juntos de uma exposição na Valentin Gallery de NY. Mondrian não vendeu nada nessa vernissage, e Maria resolveu comprar seu quadro, Broadway Boggie Wooggie, por U$ 800,00, querendo ajudar o amigo. Depois doou para o MOMA. O conselho do MOMA quase recusou a doação do desconhecido, hoje parte importante do acervo. André Breton, conhecido como o fundador do surrealismo, escreve a apresentação da sua mostra individual de 1947 em NY, trecho final: “O pensamento analógico, oficialmente abandonado desde o Renascimento, procura retomar seus direitos. É normal que o impulso nesse sentido lhe venha dos lugares onde a natureza está em plena exuberância. Neste astro que sobe, se inscreve entre todos o nome de Maria.” A obra de Maria é tão forte e instigante quanto Brancusi, Giacometti, entre outros artistas surrealistas da mesma época. Infelizmente ao retornar ao Brasil na década de 50, Maria foi incompreendida pela elite, talvez por ser mulher, talvez por ser uma mulher totalmente fora do contexto da época, ou ainda o Brasil estar preso ao movimento racionalista. Apesar de ter auxiliado e participado da 2a e 3a Bienais brasileiras, caiu no esquecimento. Verônica Stigger curadora da mostra do MAM e estudiosa da obra de Maria Martins fala bastante da relação de Maria com as lendas e a natureza Amazônica, mostrando mais uma vez a influência das origens da infância nas obras dos artistas. A primeira exposição de Maria fala da Yara, de Iemanjá, de várias figuras importantes do folclore brasileiro, mas com um olhar Maria, ora sendo devoradas por plantas, ora se transformando em plantas, ou ao contrário. Uma antropofagia reversa e perversa. E uma relação com o sexo bem aberta, aberta em pernas abertas, em vulvas, em cenas que remetem ao sexo livre. A obra mais famosa de Maria, retrata o Impossível, o amor entre o homem e a mulher. Quase uma guerra, dizem que é o retrato da sua relação com Duchamp. O Impossível é uma obra belíssima, muito forte. Ao admirar as obras lembrem-se que o período de produção reflete 1942 a 1951, o que torna os trabalhos ainda mais fortes. Falar de Maria é inesgotável. Estou há dias estudando. Encontrei uma tese de mestrado de um aluno muito aplicado da Unesp com mais de 240 páginas, que é um mergulho nessa fase surrealista das artes, onde Maria é parte importantíssima do contexto. Acredito que a falta de “internet” da época tenha colaborado para o seu esquecimento. Se Maria tivesse permanecido em New York, com certeza hoje era a sua obra que iríamos admirar no Metropolitan e no MOMA ao lado de Brancusi e Giacometti. Ao retornar ao Brasil, o tempo fez esquecê-la. Além das esculturas em mármore, porcelana, madeira e bronze, Maria era excelente pianista, jornalista, ajudou vários artistas e instituições brasileiras, como a Bienal e o MAM carioca, e escreveu vários livros, além de poemas densos como esse abaixo: “Even long after my death Long after your death I want to torture you. I want the thought of me to coil around your body like a serpent of fire without burning you. I want to see you lost, asphyxiated, wander in the murky haze woven by my desires. For you, I want long sleepless nights, filled by the roaring tom-tom of storms Far away, invisible, unknown. Then, I want the nostalgia of my presence to paralyze you.” Simplesmente Maria.

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