As entrelinhas.

Em 99 eu conheci uma das minhas amigas mais geniais, Dilea Frate. Além de ter criado o programa do Jô, que dirigiu por quase 20 anos, Dilea foi editora chefe do Jornal Nacional, antes do Jô, com 30 e poucos anos de idade, é mole o quer mais? Hoje produz os conteúdos mais interessantes e inteligentes para o mercado infantil, a TV Piá, e vários livros bárbaros para crianças tratadas como crianças com cérebro, não como bobinhas.

A Dilea tinha uma teoria nessa época que a imprensa estava cada vez mais marrom. Para mim o marco da imprensa marrom foi, bem no começo do SBT, o programa Aqui e Agora do Hilton Franco, Wagner Monte e companhia de desgraceira. Hoje temos o divertidissimo Datena e seu Cidade Alerta da Band.

Voltando a Dilea. Além de dirigir o programa, ela redigia o texto falado pelo Jô na abertura do prgrama. Para isso lia os jornais do mundo todo. Quando eu digo mundo todo, inclui aí Libano, Turquia, seja lá da onde fosse a notícia e não só CNN e NYT. As notícias eram sempre engraçadas. Essa pesquisa/leitura rendia um material riquíssimo de boas notícias em qualquer parte do mundo. E assim a Dilea criou a Cia. da Boa Notícia, e foi por isso que nos conhecemos. Eu entendia de internet e transformaria a Boa Notícia em um site. Fizemos a primeira versão, ajudei de tudo que é jeito. A Dilea sustentou o projeto por mais de 10 anos. Nunca ninguém quis patrocinar, apesar de ter leitores assíduos. Já contei várias vezes essa história, pois realmente me marcou muito.

E por que? Porque ela tinha toda razão: Ninguém está interessado em boas notícias. Hoje, passados 15 anos, até o Estado de São Paulo virou o Notícias Populares. Acontecem mais crimes bizarros? mais corrupção? mais políticos safados? mais guerras? mais desgraceiras em geral no mundo? Não. Somos desgracentos desde os primórdios da nossa existência. O mundo vive coberto de desgraças o tempo todo. É fácil encontrar uma nova desgraça. Um novo serial killer. Uma nova epidemia. Um novo furacão. Uma nova guerra. Falar mal. Meter o pau. É isso que vende.

Da mesma maneira que você consegue “caçar” um monte de notícia de desgraça, você consegue encontrar um monte de notícias interessantes. Faça um teste.

Tenho lido vários artigos da imprensa internacional metendo o pau na nossa imprensa nacional que criou uma aura de desgraceira geral no Brasil pré-Copa. Acontece que tudo que a imprensa nacional cobriu era verdade. Mas nas entrelinhas esqueceram de contar que aqui fazemos eventos gigantescos como a Parada Gay em São Paulo, o Carnaval no Rio, São Paulo, Bahia, Recife, o Rock In Rio. Temos jogos 2 vezes por semana em todos os estádios precários que existiam no país. Temos mega shows que lotam estádios com mais de 60 mil pessoas. Temos festa de Parintins, do Bumba Meu Boi no Maranhão, de Rodeio em Barretos, Junina em um monte de estado do Nordeste. Romarias de centenas de milhares para Aparecida do Norte. E milhares de outras festas que nem sei onde acontecem e que conforme viajamos pelo Brasil nos surpreendemos pela beleza e magnitude.

De organização com milhares ou centenas de milhares de pessoas reunidas somos mais que escolados. De bom humor, risada, alegria, somos mais que conhecidos. Mesmo sobrando mijo para tudo que é lado, lixo, alguns sendo assaltados, morrendo um aqui outro acolá, queimando um carro alegórico aqui outro lá, despencando algum palco, ou qualquer outro tipo de “inconveniente” causado por aglomeração de pessoas.

Quando reclamamos da infra-estrutura, estávamos nos referindo ao nosso dia-a-dia conturbado para pegar um vôo, pegar um metro lotadissimo até as tampas, chegar ao trabalho, vencer a violência diária, conviver com a diferença exorbitante social, conviver com os impostos e burocracia, com a corrupção em todos os níveis, ou seja, tudo isso existe, está aí, vai continuar aí, com Copa ou sem Copa. No momento o que interessa é Boa Notícia, percebam que praticamente desapareceram as desgraças. O mesmo acontece na semana de Carnaval.

E assim continuamos nas entrelinhas.

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