Conviver.

Esse último feriado passei por mais um teste de convivência: 7 dias de confinamento em um espaço reduzido de um barco, na imensidão do oceano, 4 pessoas, 2 casais. Diria que se fossem 4 amigos seria diferente. E choveu um dia inteiro. Ninguém foi para água. Saldo bastante positivo.

Como é difícil conviver. Há alguns anos li uma matéria comentando que cada vez mais pessoas moram sozinhas em NY. A série Sex in The City retratava bem isso, mulheres já maduras, que ainda não tinham conseguido se resolver com as suas caras metades, ou trocavam de cara metade como quem troca de roupa. Desde que o divorcio, a separação, a união estável (ou não necessidade do casamento formal) foram instituídos de maneira mais popular, ficou quase impossível conviver. Qualquer motivo é motivo para desistir. E sempre tem um motivo.

Quando eu casei pela primeira vez, o Moisés, marido da prima irmã da minha mãe Rebeca, me perguntou como eu usava a pasta de dentes. Achei bem estranha a pergunta. Ele disse: “Você aperta em qualquer lugar, ou vai vindo de baixo até acabar em cima?”. Hoje o tubo é diferente, mas há 25 anos atrás essa pergunta era bem pertinente.

Regra número 1 da convivência: Tolerância. Ele quis dizer que um simples tubo poderia causar uma bela briga de casal, como a famosa tampa da privada. Logo descubra como seu companheiro/a aperta, ensina ele a abaixar a tampa e sigam as regras. Outra coisa que ele me disse: “Jamais corte as unhas dos pés na cama.”.

Regra número 2: Mantenha o encantamento. Quer cena mais feia que uma mulher de pernas para cima cortando unha do pé em cima da cama? e incluiria mais algumas: Não ande pelado/a pela casa. Tudo que você vê demais perde a graça. Não comparta o mesmo banheiro. Regra fundamental. Ninguém precisa conhecer a intimidade e os odores do outro nesse nível de detalhe.

Voltando ao barco. Se você já viajou em um barco, digo ficou dormindo no barco, deve saber que existem uma infinidade de regras. A água e a energia devem ser controladas de maneira a geladeira sobreviver e o banho durar até o último dia. Além de você conseguir lavar a louça. Primeiro você tem que lembrar de levar absolutamente tudo que você precisa, ou vai ter que voltar para Marina. Ninguém quer voltar para Marina, gasta muito combustível e normalmente algumas horas de navegação. Logo, tem que ser extremamente organizado. Água, cerveja e outras bebidas, comida, e vamos embora navegar.

Aí vem a convivência. O espaço é reduzido, a não ser que você tenha um daqueles iates-navios. O banheiro é bem precário, mas por incrível que pareça sempre tem uma janelinha para o mar, que dá uma paz absurda. Delícia tomar banho em barco, mesmo com toda a precariedade, falta de água quente, lambança. Provavelmente vai ter um banheiro. Os quartos não tem privacidade alguma. E a área comum pode se reduzir a cabine principal se chover. Ou seja, ou você se dá absurdamente bem com quem está no barco, ou provavelmente alguém volta para Marina. E se dar bem é tolerar a infinidade de manias dos outros. Quanto mais velhos vamos ficando essas manias vão cada vez mais se acentuando. Podem ficar insuportáveis para o outro. A mania do outro é sempre pior que a sua.

Eu digo que tenho quase TOC. Não consigo sair da minha casa sem que tudo esteja arrumado e em simetria, e isso inclui as almofadas da sala. O Mi fica louco, mas várias vezes volto do elevador, pois esqueci de arrumar as almofadas. Se tem uma coisa que eu odeio é voltar para casa e estar tudo bagunçado. A questão não é nem odiar, me faz mal. Eu sinto que vou explodir, inconcebível, só pode ser loucura, ou TOC.

Na convivência a dois eu aprendi que a melhor forma de um casamento dar certo é cada um ter seu banheiro e de preferência um quarto. Não necessariamente para dormir, mas para ter suas “coisas”. E a cama tem que ser enorme, para evitar acotovelamentos, cobertores caindo para lá e para cá. Em cama enorme isso não acontece.

De novo no barco. Tem que cozinhar. Cozinhar também é uma tarefa complexa. Cada um cozinha de um jeito. Se você tem 4 pessoas que cozinham. Cada um tem seu jeito de fazer arroz, churrasco, peixe. Não dê pitaco na cozinha do outro. Isso pode causar um belo de um desentendimento. Cozinhar é uma arte. E artista odeia que dêem pitaco. Hoje o homem cozinha cada vez mais. A mulher perdeu seu controle total da cozinha. E tem que lidar com o jeito de cozinhar do homem, as vezes não vai sair a melhor comida do mundo, mas com certeza as intenções foram as melhores. O mesmo acontece com a mulher, mas quem disse que ela admite que não faz a melhor comida do mundo? as que cozinham, claro.

Um dia avistamos o barco pesqueiro chegando e fomos de bote comprar camarão. Os pescadores não tinham nem separado na rede. Mega ultra fresco. Tão fresco que não dava para tirar a casca. Deixamos na geladeira, no outro dia limpamos os 4kg de camarão. E aí? 6 cozinheiros, estávamos em dois barcos. Elegemos 3. E foram mais de 240 camarões em 6 paneladas. Nunca comi tanto camarão na vida. Camarão fresco selvagem é outro bicho, outro gosto. Até que a coisa foi civilizada para a quantidade de cozinheiros.

E a bagunça de panelas e pratos? em barco esquece. Não tem água para muita bagunça. Vamos de descartáveis e se não der para limpar daquele jeito que você limpa em casa, finja que não viu ou você checa onde fazem a comida que você come em restaurante? aliás o melhor misto de padaria é aquele da chapa mais nojenta.

Homem normalmente faz mais bagunça que mulher. Salvo raras excessões de homens extremamente organizados. Em um barco fazer bagunça é algo inadmissível. A bagunça de um sapato pode estar no meio do seu caminho e você tomar um tropeção. Toalhas molhadas secando ao sol? Não. Não. E Não. Ou você quer parecer uma maloca em Napoli?

Taí a experiência mais complexa, escolha quem sabe colocar o sapato e a toalha no lugar. Ou recolha tudo como lixo e jogue em um cantinho. Disciplina. O barco te ensina a ser disciplinado. Tem lugar para absolutamente tudo. E tem que por no lugar certo para não virar, cair ou voar.

Depois de 7 dias continuamos nos amando, nos divertimos, demos bastante risada. Uma hora ou outra alguém escorregou em um dos itens acima. Ninguém é perfeito.

Vivendo e aprendendo.

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