A Guerra da Hipocrisia.

A guerra sem armas, sem bombas, sem inimigos revelados, sem confronto direto, é a pior de todas as guerras. A guerra da ganância que compra e vende sem pensar nas consequências, se é trabalho escravo, se vai poluir o mundo, se vai prejudicar a saúde, é a pior de todas as guerras. A guerra do poder de líderes capazes de mobilizar as pessoas em odiarem uma as outras, com palavras, com preceitos, é a pior de todas as guerras. A guerra da mídia, que expõe as notícias em forma tendênciosa, criando conceitos, criando tendências, é a pior de todas as guerras. A guerra dos que tem opinião para tudo, sem se aprofundar, sem vivenciar, é a pior de todas as guerras. 

A negligência com que o ser humano se comporta em relação ao outro em seu próprio “habitat” é a maior e a mais sangrenta guerra. Ela não aparece na mídia em fotos muito bem captadas, nem tem cara de filme de destruição do mundo de Hollywood, mas ela mata, ela discrimina, ela menospreza, ela corrompe, ela vende cigarro que dá câncer, ela contamina os rios, ela destrói as matas, ela acaba com a camada de ozônio.

Acabamos de vivenciar uma guerra de negligência absurda com o investimento bilionário da Copa. Deveria ser interditado, levado a mais alta supremacia da corte mundial, Haia, ONU, quem aprovou e gastou esse dinheiro. Alguém que aprova um investimento desse montante em um país onde as pessoas tem que sobreviver com míseros 70 reais por mês, ou sem isso, em condições precárias de saneamento básico, de saúde, sem comida, sem roupa deveria ser condenado por crime de guerra, da guera pela sobrevivência. Quantas pessoas poderiam ter saído da miséria se esse dinheiro fosse direcionado para melhorar as condições de vida humanas no Brasil? Quantas crianças poderiam deixar de morrer de desnutrição? Genocídio mudo. Genocídio de consequências de ação. Genocídio da negligência do ser humano em relação ao próximo.

Posso citar um milhão de exemplos dessa guerra da hipocrisia. Quer seja o racismo contra os negros no Brasil, que é escancaradissimo e todo mundo finge que não existe. Quer seja a homofobia e a discriminação da comunidade homossexual. Quer seja o descaso com os mendigos que moram na minha rua. Quer seja o descaso com as crianças que pedem dinheiro no farol. Quer seja por 4750 mortes que aconteceram em São Paulo nesses últimos dias por assassinato. E quer seja lá por que mais atrocidade horrorosa que nem queremos saber.

Quem mora em um edifício e convive com a famosa “reunião de condomínio” tem a prova de como é podre o ser humano. Todo mundo já quis ver um vizinho no raio que o parta, por ele não saber conviver em sociedade.

Então eu hipócrita, que vivo e convivo com tudo isso, na grande maioria das vezes calada, conivente, pois não dá para querer mudar o mundo, tento mudar meu microcosmo. Não participo mais de reuniões de condominio. E você?

Para refletir.

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12 Anos. A bat-mitzváh.

A maioridade religiosa judaica é o momento em que você aprende a ler o sidur, o livro de rezas, e tem idade para participar dos rituais de orações. Durante milhares de anos foi comemorada a maioridade dos meninos aos 13 anos, o Bar Mitzváh. Acontece que o mundo mudou e o judaísmo se modernizou e incluiu um pouco mais as mulheres nos serviços e rituais religiosos. Assim as meninas comemoram a Bat Mitzváh com 12 anos.

Na minha época, a cerimônia das meninas era coletiva, diferente dos meninos, que tem seu dia único e exclusivo para rezar, ou no máximo três, se tiver um congestionamento na sinagoga, mas cada um de uma vez. Já as meninas se reuniam um dia, as vezes 30, 40, e faziam uma cerimônia muito bonita, como um coral. E depois era feita uma comemoração familiar. Hoje fazem-se festas de meninas como as dos meninos. As famosas e suntuosas festas judaicas de Bar e Bat Mitzváh, que mais lembram casamentos.

A minha comemoração foi totalmente diferente e tão inesquecível quanto a minha viagem. Resolveram no nosso ano fazer uma experiência diferente e fizemos a cerimônia em um sítio, Ingá, que pertence a Congregação Israelita Paulista (CIP) e fica em São Roque. E lá fomos nós, umas 30/40 meninas, passar 4 dias em Ingá em uma imersão de tradições judaicas com direito até a aprender a fazer chalá, o famoso pão trançado do Shabat, aulas de canto, aulas de rezas e uma farra daquelas. Um monte de crianças juntas? imagina a zona.

No dia da Bat, o domingo, vieram as famílias, os pais e alguns poucos familiares e amigos para assistir a cerimônia. Todas vestidas de branco. E meu tio Sigbert que entregou nosso “diploma” de Bat Mitzváh para cada uma das meninas.

As fotos dizem tudo…

Una Furtiva Lagrima, L’elisir D’amore de Donizetti

Bravo! Caruso de 1904 remasterizado, 1904!!!!! e o fabuloso Pavarotti!!!! duas versões de Una Furtiva Lagrima emocionantes. Bravo, bravo e mais bravo!!!

Una Furtiva Lagrima, L’elisir D’amore de Donizetti

Una furtiva lagrima
negli occhi suoi spuntò.
Quelle festose giovani
invidiar sembrò.
Che più cercando io vo?
Che più cercando io vo?
M’ama! Sì, m’ama, lo vedo. Lo vedo.
Un solo instante i palpiti
del suo bel cor sentir!
I miei sospir, confondere
per poco a’ suoi sospir!
I palpiti, i palpiti sentir,
confondere i miei coi suoi sospir…
Cielo! Si può morir!
Di più non chiedo, non chiedo.
Ah, cielo! Si può! Si, può morir!
Di più non chiedo, non chiedo.
Si può morire! Si può morir d’amor

12 anos. A viagem.

Quando completei doze anos meu tio Mailech queria me dar uma viagem e eu podia escolher para onde eu queria ir. Doze anos é a idade da maioridade judaica feminina. Na verdade inventaram isso recentemente, mas fui uma das primeiras turmas a comemorar a Bat Mitzváh, hoje já é uma tradição na comunidade. Na época as crianças queriam ir para Disney, mas escolhi fazer uma viagem com os meus pais, pois quase nunca viajávamos juntos.

Assim fomos na agência da Monark Turismo na Av. Santo Amaro e minha mãe e meu pai escolheram um roteiro de carro para Foz do Iguaçu que incluía outras cidades do sul brasileiro em 12 dias de estrada. Viajar naquele tempo era sempre um grande evento e a minha tia Nunha deu de presente para nós uma caixa com 24 Toblerones. Inesquecível o presente, levamos uns 4 para a viagem e deixamos a caixa em casa com a supervisão da Bena, que acabou comendo praticamente tudo em 12 dias, deixando uns 2 para não dizer que comeu tudo…inesquecível mesmo…

E pé na estrada. Meu pai tinha um Passat verde, tipo abacate. Era essencial ter um plano de emergência para carros, o famoso Touring, pois a probabilidade do carro quebrar na estrada era enorme. Vivíamos em mecânicas, cada hora quebrava alguma coisa e pneu então, furava sempre. E assim, com Touring, eu, minha mãe, meu irmão e meu pai munido de um monte de mapas, partimos em direção a Foz do Iguaçu. A primeira parada foi Guarapuava, uma cidade já no Paraná, perto de Ponta Grossa. A idéia era dormir para enfrentar o longo percurso até Foz em duas etapas. Chegamos em Foz no final do segundo dia e ficamos em um hotel do lado brasileiro. Fizemos todos os passeios, inclusive do lado Argentino. E meus pais ainda fizeram um passeio que entrava em um barquinho e ia na boca da Catarata, nem sei se pode fazer isso hoje. Bem radical.

A imensidão das Cataratas, aquele volume gigantesco de águas marcou minha infância. Eu lembro nitidamente como se fosse hoje a água caindo em cima de nós do lado brasileiro, um verdadeiro banho de catarata. Lembro do cassino no Paraguai, primeiro caça-niquel da vida. Lembro da visita a Itaipu. Meu pai é engenheiro civil e tinha muita curiosidade em conhecer a obra de Itaipu, e não só a obra, como as Setes Quedas. Um complexo de sete cachoeiras interligadas por pontes pencil que seriam inundadas com a abertura das comportas de Itaipu. Fomos conhecer as Setes Quedas um pouco antes delas sumirem. Minha mãe ficou morrendo de medo de atravessar as pontes, pois eram parecidas com essas de filmes, com pequenas tabuinhas de madeiras, bem precárias, e balançavam para burro. Visitamos todas as quedas. E aí o carro quebrou. Primeiro chamado do Touring. Santo Touring.

Próximo destino era Curitiba, chegamos em Curitiba no final do dia, quase de noite. Ficamos em um hotel no centro da cidade e lembro de dois fatos. Meu irmão não se entendeu com a luz do restaurante do hotel que era tipo de boate e começou a passar mal, correu para o quarto e nessas de limpar o banheiro, ele abriu a água do bidê e inundou o quarto. Coisas de criança em viagem…

No dia seguinte fomos passear pelo centro de Curitiba e foi aí que conheci o Choco Milk ou Choco Leite, naquela famosa garrafinha de vidro da Batavo. Caramba como era bom, um todinho de garrafa. Só tinha no Paraná. De Curitba fomos para o Porto de Paranaguá subindo pela serra por um trem que passa pela estrada de Morretes. Uma serra linda. O Porto de Paranaguá era um dos mais importantes do Brasil. Descendo a serra, paramos em Itajaí para dormir. Itajaí é a cidade do porto. Não sei porque ficamos por lá, mas de lá acabamos indo para Itapema, Camboriú, Blumenau, Florianópolis, Joinville. Opa Joinville, foi por conta de Joinville que tomei o único tapa na cara da minha vida.

Duas crianças pequenas: 12 e 9 anos. Quilômetros e quilômetros de estradas, muitas vezes sem nem ter o que olhar. Começamos a inventar brincadeiras. Esse dia de Joinville a brincadeira era, eu dizia: “Edifício Bonifácio Schmil”, e meu irmão respondia:”Ouviuuuu!”. Ou ao contrário. Passamos algumas horas repetindo sem parar essas duas frases. No começo meus pais acharam engraçadinho. Eles davam risada a cada: “Ouviuuuu”. Depois de algumas horas, as risadas dos meus pais começaram a transparecer um certo nervosísmo. Eles riam, mas diziam: “Parem com isso”. Até que meu pai soltou: “Ou vocês param com isso ou o próximo que falar essa frase vai apanhar”. Pronto ficamos os dois mudos. Chegamos em Joinville fomos conhecer o centro de exposições, passear pela cidade e voltamos para Itajaí no final do dia.

Já no quarto do hotel que era conjugado com meus pais. Eu de pijaminha pronta para entrar na cama, fui dar boa noite para o meu pai, encostei na orelha dele e soltei: “Edifício Bonifácio Schmil”, “Ouviuuuu”. Imediatamente voou uma voadora na minha cara, ele ria de nervoso e me bateu. Eu fiquei muda, não chorei, não ri, corri para cama. E assim, fazem mais de 30 anos que repetimos essa história em gargalhadas de família. Meu primeiro, último e único tapa na cara. Espero.

Durante esses dias em Itajaí fomos também para Bombinhas. Bombinhas na minha imagem de infância é como uma praia do Caribe. Era inacreditável de linda a praia, virgem, não tinha praticamente nenhuma casa, a água era transparente, a areia branquinha, branquinha, e você via toneladas de peixinhos nadando e foi a primeira vez que vi uma agua viva. Voltei para Bombinhas 20 poucos anos depois para passar um ano novo com a Cuca e fiquei chocada com o crescimento desenfreado das praias do sul do Brasil. Transformaram um paraíso em um inferno, de construções horrorosas, um turismo feio, um trânsito infernal, apesar da região continuar lindíssima, mas tem que ter muita boa vontade para querer voltar para lá, principalmente no ano novo. Você fica literalmente preso por conta do trânsito. Por isso que gosto do Litoral Norte Paulista que proibiu a construção de prédios, em muitos lugares as ruas ainda são de terra. Infelizmente no Brasil, desenvolvimento é sinônimo de esculhambação. Salve Jurerê Internacional em Floripa que é praticamente a Riviera Francesa (segundo os catanarinenses, claro).

Essa viagem foi inesquecível. Foi a minha viagem de infância. Meu pai registrou todo o momento em slides e durante anos, a nossa diversão eram as sessões para assistir os slides da viagem. Adorava assistir slides. Hoje as fotos digitais resgataram esse momento slides, temos a tradição na família de assistir juntos as fotos na casa dos meus pais na tevezona da sala. O problema é que acabamos nos entusiasmando, pois como diz meu irmão, foto digital é de graça, e tiramos infinitamente mais fotos do que o necessário. Até para selecionar é um saco. Avanços da tecnologia. Vou adorar quando a máquina for inteligente e ficar só com a foto boa e apagar sozinha todas as dezenas de versões ruins. Não seria o máximo?

Esse texto é em homenagem ao meu irmão, que diz que não lembra de nada, e assim ele tem a memória dele registrada através do meu olhar. Um olhar sempre romântico e com humor da minha vida bem vivida e da minha família que sempre é uma fonte inesgotável de inspiração para que novas viagens, novas aventuras, novos encontros, novos almoços, novas sessões de fotos, se repitam para sempre.

Bom final de domingo!

Pavarotti arrebentando em Lucevan Le Stelle, Tosca de Puccini

Bravo! Bravo! um milhão de vezes Bravo!

Pavarotti arrebentando em Lucevan Le Stelle, Tosca de Puccini

E lucevan le stelle,
ed olezzava la terra
stridea l’uscio dell’orto
e un passo sfiorava la rena.
Entrava ella fragrante,
mi cadea fra le braccia.

O dolci baci, o languide carezze,
mentr’io fremente le belle forme disciogliea dai veli!
Svan per sempre il sogno mio d’amore.
L’ora fuggita, e muoio disperato!
e muoio disperato! E non ho amato mai tanto la vita!
tanto la vita!