Voar com maturidade.

Eu adoro voar. Em 1992 fiz uma viagem de mochila pela Europa e uma das paradas era em Chamonix. Chamonix é uma cidade enfiada, exatamente isso, enfiada no meio de duas montanhas gigantes, o MontBlanc de 4.810 metros e Aiguille de Midi de 3.842 metros. Você vê só um pedacinho do céu. Muito estranho, dá uma sensação de claustrofobia absurda que depois de alguns dias passa. O lugar é lindíssimo. Um charme de vila. Ficamos na casa da familia do Jean Claude e da Vivi. Parecia que a geleira do MontBlanc iria escorrer pela janelona da sala. Uma semana em Chamonix, fora de temporada, ou seja, ninguém por lá, mas com o melhor gaufre do planeta e um dos visuais mais lindos do mundo. Um dia, em uma das subidas ao Montblanc, vimos dois sujeitos voando de parapente. Eles abriam o parapente no alto da montanha e saltavam em direção a cidade. Fascinante. Por pouco não dava vontade de voar junto com eles por aquelas montanhas maravilhosas, naquela paisagem de sonho.

Voltando a São Paulo vimos um anúncio minúsculo colado na vitrine da Livraria Cultura do Conjunto Nacional: Aulas de parapente, Fernando. E aí começou a aventura, convencemos o nosso amigo Pedro que chamou o Mauro e lá fomos nós fazer aula com o Fernando. As primeiras aulas eram em Franco da Rocha. Franco da Rocha é uma cidade na periferia de São Paulo, que eu definiria como um verdadeiro inferno do fim do mundo. A paisagem até lá era horrível, uma miséria sem fim. Ainda por cima, tinha o presídio de segurança máxima por lá. Apelidamos carinhosamente de Frank gives the Rock, ou Gives. E assim fomos vários fins de semanas para Gives. Ponto também de aeromodelismo, motoqueiros, triker e outros esportes. Em Gives tinha um morrinho onde era fácil treinar. Na época a segurança em vôo era nenhuma, apenas o paraquedas reserva, mas a “cadeirinha” era super precária, não tinha airbag, era praticamente uma tabuinha.

Como funciona um parapente?

Você tem um tecido altamente resistente em formato de meia lua feito em gomos. Esse gomos são tencionados com uma corda muito resistente de kevlar e presos juntos em dois lados: esquerdo e direito em duas braçadeiras que são seus guias na sua mão, os batoques. Os batoques tem mosquetões que você prende na tal cadeirinha. A tecnologia em torno disso é fantástica tanto em relação ao tecido da vela (o pano em meia lua), quanto das cordas, da cadeira, do mosquetão, etc. Cada componente tem uma resistência específica para o peso, o impacto do ar, o impacto ao solo, ou seja, de certa forma você tem alguma proteção. O princípio do vôo é igual ao avião, você cria uma sustentabilidade ao inflar a asa e utiliza a sustentação do ar para flutuar, ou voar. Você tem os comandos nos batoques, ou essas braçadeiras da esquerda e direita, para conseguir frear, subir, descer, virar para direita ou esquerda. Você comanda o parapente ou paraglider ou glider, conforme a orientação do vento e a intensidade das térmicas.

Para voar você precisa entender alguma coisa de meteorologia, de nuvens, de térmicas. Quanto mais você entende do assunto, no meu caso, mais medo você tem de voar. Com 20 e poucos anos tudo parece possível e você encara qualquer coisa até com uma cadeirinha de “taubinha”, mas depois de algum tempo, ficamos medrosos, na verdade, ficamos menos tontos, menos imaturos, e aí, você quer cadeirinha com estrutura, com airbag, e todo o tipo de tecnologia para te ajudar: rádio, variometro, até o carro tem que ser diferente, de preferência uma 4×4. O rádio serve para você se comunicar com as pessoas em terra para avisar onde você pousou, pois alguém tem que ir te buscar, e te dar algumas orientações de vôo. O variometro é um instrumento eletrônico essencial para você saber se está subindo ou descendo, pois perdemos essa referência voando. As térmicas, massas de ar quente que se desprendem do solo, são invisíveis e fazem você subir, para descer você tem que estolar, ou seja, puxar os batoques e meio que “desinflar” o glider para perder pressão e conseguir descer. Você pode se ferrar e subir tanto que fica sem ar, se perde em uma nuvem ou entra em um cb. O cb, ou cummulus nimbus, é o terror de qualquer um que voa de qualquer coisa. É uma nuvem com cara de monstro, muito grande, preto, que tem um formato muito característico, que avisa que vem uma chuva daquelas, O cb tem uma força interna de descarga elétricas que pode destruir muita coisa. Ou seja, a última coisa que você pode fazer é entrar em um cb. O pouso também tem que ser muito bem calculado, você tem que se orientar pelo vento de frente e de cauda. O vento de cauda aumenta a sua velocidade, o de frente mantém e breca. Para pousar você precisa ir em direção ao vento de frente e se livrar dos postes com fios elétricos, cercas, prédios, casas, você tem que encontrar um lugar seguro para pousar.

Esse foi meu maior problema em vôo livre, não sei o que é esquerda e direita, imagina conseguir identificar se o vento era de frente ou de cauda? Normalmente tem uma biruta de referência. Se estivesse virada para mim era de frente. Se estivesse contra era de cauda e eu ia sempre no de cauda. Incrível. E aí ao invés de conseguir estolar, eu me arremessava no solo e tinha que correr para conseguir parar. Nunca aconteceu nada muito sério, só fraturei o cóccix. Vou dizer que é algo chatíssimo, meses sem poder sentar por muito tempo. Ganhei até uma almofadinha de gozação em um amigo secreto da firma.

Os pontos de vôo sempre foram para mim a parte mais interessante de voar. Assim eu conheci a Pedra Bonita no Rio de Janeiro, uma das vistas mais maravilhosas da cidade. Voei de glider e asa. E vou dizer que gostei mais de asa. Asa você se sente um pássaro de verdade, por causa da posição. É sensacional. Meu último vôo de glider foi em 2002 no Rio. Um vôo duplo. Foi a maior carga de adrelina que já tive na vida. Fiquei 48 horas sem conseguir dormir, totalmente louca. Estava bombando todas as térmicas possíveis e inimagináveis e o glider não descia de jeito nenhum. Vi um monte de vezes a praia de São Conrado praticamente de ponta cabeça. Gritava que nem louca, de euforia, de medo, tudo misturado. O piloto quando percebeu que eu era ex-piloto, me jogou os batoques e me deixou pilotar. Em vôo duplo de glider você não vê a outra pessoa, pois você está embaixo dela, logo a sensação é que você está sozinho mesmo. Quando pousamos, tinha uma pequena multidão esperando, pois todos ficaram observando aquele monte de looping para conseguirmos descer. Quando viram que eu era mulher gritavam: “É uma mina! É uma mina!”.

Outros pontos bacanas no Brasil. Pedra Grande em Atibaia, Pedra do Baú em Campos do Jordão, Pico Agudo em Santo Antonio do Pinhal e Pico do Gavião em Andradas. Esse último foi o que eu mais visitei e para mim o mais bonito. Cheguei até acampar lá em cima . Essas viagens para voar sempre foram sensacionais. As vistas dos morros dão uma paz absurda, você sempre está em cima de alguma cordilheira, então você vê as outras montanhas, as vezes alguma cidade embaixo e uma imensidão sem fim. Normalmente são lugares bem altos, acima de 600 m. Fiz uma vez uma viagem pela Itália só para visitar pontos de vôo e acabei conhecendo paisagens maravilhosas próximas ao Lago di Como e Garda, em Bassano di Grappa, perto das Dolomitas, as próprias Dolomitas, Innsbruck na Austria, passando pelo Brenero. A mais fantástica de todas foi Garmish Partenkirchen na Alemanha, perto de Füssen. Onde você vê a cordilheira do MontBlanc e o Matterhorn na Suiça, aquele bem pontudo, é bárbaro. A cada vôo você conhece um piloto que dá alguma dica e um morro vai te levando para outro morro.

Essa minha experiência em voar me fez entender melhor o vôo em aviões comerciais. Muitas vezes eu diria nada agradável, pois eu sei o que está acontecendo quando sacode muito. Por exemplo, voar entre meio dia e duas da tarde pode ser mais sacudido por causa das térmicas, principalmente na decolagem e pouso. Mas, eu amo voar, amo decolar e pousar. Amo essa sensação de imensidão, liberdade, paz, de quando você olha o céu e as nuvens e a terra por cima. Adoro ficar na janelinha observando. E gosto de voar de qualquer coisa, helicóptero, trike. Recentemente voei de hidroavião. Sensacional a experiência. Parece coisa de filme antigo. Todos de fone, você abre as janelas, um barulho ensurdecedor. O piloto bem doidão. A decolagem na água é super precária, tem que abortar um monte de vezes, mas você voa baixo, consegue ver tudo, tão lindo. Já voei de helicóptero sobre Nova Iorque, outra experiência que recomendo, igual de filme, aquela imagem que sempre vemos. Lindo. No Rio de Janeiro eu fui na cara do Cristo, é demais.

Esse texto na verdade é para falar de imaturidade e de acumular experiências. Quando jovens queremos desafios, somos mais arrogantes, menos responsáveis, queremos desbravar o mundo, somos capazes de tudo, até de voar, quanto mais velhos vamos ficando e maduros, mais entendemos nossas limitações, mais escutamos, mais procuramos segurança, ficamos mais calmos e o acumulo de experiências tanto positivas, quantos as negativas vão formando nossa “maturidade”. Sou partidária de acumular experiências, acertar, errar. Eu acredito que estamos aqui para viver, por isso não tenho medo de morrer, tenho medo de viver sem ter feito o que tive vontade de fazer.

Voar é simplesmente…sem palavras.

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