Quase com 18 anos…

Essa semana me dei conta que fazem 30 anos que trabalho. Caramba quanta coisa eu fiz nesses últimos 30 anos. Comecei a recordar do começo, quando eu fiz quase 18. E dei risada sozinha com as histórias.

Estudei na mesma escola do jardim da infância até o colegial, hoje ensino médio. Uma das coisas que mais gostei dessa onda de redes sociais foi reencontrar meus amigos e amigas de escola. Vivemos praticamente 14 anos juntos e de repente foi cada um para um lado. Como eu não tenho filhos, frequento menos a comunidade judaica. Não vou na Hebraica, não sou de nenhuma sinagoga. Acabei saindo do gueto. Pois é, viver em comunidade é praticamente viver em um gueto. Você frequenta a mesma escola, o mesmo clube, a mesma sinagoga, os mesmos restaurantes, alguns movimentos juvenis judaicos, o mesmo Guarujá, o mesmo Bom Retiro, a mesma Higienópolis. Parecia que só tinha judeu para tudo que era lado.

Aí eu fiz 17 anos e fui fazer cursinho no Anglo da Tamandaré. Acordava 7h ia para escola que era do lado de casa, saia as 12h40, corria para casa para almoçar, pegava o metro, descia na São Joaquim e enfrentava aquele ladeirão até a Tamandaré. Ufa 14h. As aulas do cursinho eram infinitamente melhores que da escola. Na verdade os professores eram verdadeiros artistas. A aula de biologia do Julio Cesar era tão divertida e boa, que vinham alunos de outras salas assistir. E assim, assuntos chatíssimos passavam a ser interessantes. Tinha musiquinha para tudo, para decorar tabela periódica, para entender mais de literatura. Uma verdadeira farra. Na volta muitas vezes a Sarita me dava carona e eu me livrava de ter que subir aquele ladeirão.

No Anglo eu conheci a Flavia. A Flavia era muito bonita e alegre, a garota que mais chamava atenção na sala. Ficamos amigas. Vire e mexe eu ia na casa dela do lado do Parque do Ibirapuera. Um dia ela me chamou para um programa diferente, me pediu para acompanha-la em uma cartomante. Eu nunca gostei e ainda não gosto e não me interesso em saber o futuro. Sempre vivi o presente e no máximo traço objetivos e metas para o meu futuro, com alguma previsão calculada por mim mesma. Agora saber o futuro pelos outros? tô fora. As minhas amigas Raquel e Marjorie até que gostavam, liam de tarot, mapa astral até borra de café. Mesmo assim, lá fui eu.

A cartomante ficava na Galvão Bueno, na Liberdade, perto do Anglo. Logo depois da ponte. Era um corredor bem estreito ao ponto de você conseguir por os pés na parede. Bem sujo e escuro. Sentamos em uma fila de cadeiras e ficamos esperando. Era um tal de entra e sai ao ponto de termos que encolher as pernas, entre um travesti e uma puta que queriam passar. Lugar bem do esquisito. Depois de tanta espera, a Flavinha me convenceu de entrar na sala. E lá estava a cartomante. Ela tinha uma fisionomia mix de uma caveira com pele, com os olhos bem profundos e olheiras, com bruxas de um filme da Disney. Sinistro. Ela leu as cartas para mim e disse duas coisas: que alguém da minha família iria morrer em breve e que eu iria conhecer o meu primeiro marido em cinco, seis anos em uma viagem para bem longe. A minha avó faleceu logo depois e realmente eu conheci meu primeiro marido na Espanha, quase 5 anos depois desse episódio. Nunca mais fui em uma cartomante.

Eu nunca estudei. Eu frequentava as aulas e tinha uma dificuldade absurda de ficar quieta. Conversava até com a parede. Mesmo assim, eu sempre passei de ano e com relativas boas notas, nada de 10, mas boas notas. No terceiro colegial a coisa foi mais complicada. Com essa pressão de cursinho e escola, eu acabei pegando segunda época de matemática, mas tirei 10. Meu pai sempre foi muito rígido comigo e com meu irmão em relação aos estudos. Inconformado que eu não estudava para o vestibular, ele praticamente me trancou no quarto 15 dias antes das provas para ver se eu estudava. Eu chegava exausta do cursinho, acabava dormindo as 20h da noite para aguentar a maratona. E de verdade eu morria de sono o dia todo, provavelmente por conta das mudanças de hormônio típicas dessa idade e também por dormir demais. Dormir mais de 8h não faz nada bem.

E começaram as provas. No vestibular da FUVEST, mais temido, eu até fiz uma quantidade boa de pontos, mas não passei. O próximo era o Mackenzie. As respostas tinham que ser computadas em três cartões perfurados. Tenho certeza que misturei os cartões, pois consegui a proeza de não passar no Mackenzie.

Os pais da Flavia foram para Itapema e não queriam deixar ela sozinha em casa. Assim ela passou esse período do vestibular com as freiras do Colégio Maria Imaculada no Paraíso. Um dia ela me ligou para combinarmos de ir juntas na prova da FEI e de repente começou a falar tudo enrolado pelo telefone, parecia alemão. Como meu pai é espirita, eu entendia alguma coisa de mediunidade e achei que ela estava incorporando algum espirito. Chamei meu pai. Ele ficou com ela no telefone um tempo até aparecer alguém para acudir. Ficamos preocupados e resolvemos ir até a escola ver o que estava acontecendo. Chegamos lá e em uma sala próxima a portaria estavam sentadas quase uma dúzia de freiras e a Flavinha no meio chorando. Ela ficou muito feliz em me ver e começou a dizer que queria um tal caderno de anotações. Como ela estava muito agitada fomos buscar o tal caderno. O lugar era um convento, com aqueles pátios enormes, aqueles corredores com arcos. Tudo escuro, silencioso, não tinha ninguém, cena de filme de terror. Nós, as freiras e a Flavia no corredor. Quando chegamos no andar que ela estava, tinha uma grade e o tal caderno não estava lá. As freiras contaram que encontraram ela com a cabeça enfiada no meio das grades. Ela começou a gritar: “ Não é possível, tava aqui, tava aqui”. O quarto dela era no final desse corredor, fomos até lá e o caderno estava lá. Bem, essa foi a cena mais apavorante da minha vida e do meu pai. Sempre contamos essa história, pois nunca senti tanto medo. Meu pai diz que as freiras e suas feições angelicais que seguraram a onda daquela cena de filme de terror. Depois a Flavia saiu desse convento e passou a frequentar centros espiritas para lidar com sua mediunidade. Nunca mais encontrei com ela. Não sou espirita, não acredito em reencarnação, mas vivi essa experiência.

Voltando ao vestibular. Passei na FEI.

No fundo eu queria entrar na FATEC. A FATEC era a faculdade mais importante do Brasil de processamento de dados. No dia do vestibular da FATEC meu pai resolveu me levar. A prova era em uma escola pública perto da Lins de Vasconcelos. Chegamos um pouco antes da prova, ele estacionou o carro e ficamos observando os estudantes chegando. Só tinham orientais: muitos japoneses, alguns poucos chineses e coreanos. Meu pai disse brincando: “Caramba, amanhã vamos ter que vir com uma metralhadora. Essa vai ser concorrida”. Demos bastante risada. Os orientais sempre tiveram a fama de ser excelentes em exatas. Passei no vestibular da FATEC.

O vestibular da FATEC aconteceu justo nos primeiros dias do Rock in Rio. Eu sempre fui apaixonada pelo Queen, não consegui ver o show, mas deu tempo de irmos nos outros. Rock in Rio merece outros texto.

Em fevereiro começaram as aulas na FATEC. Era a primeira vez que eu ia estudar em uma escola que não era o Peretz, com pessoas que não eram judias ou meus amigos da vida toda. Vou dizer que foi bem estranho. A primeira pessoa que veio falar comigo tinha o cabelo meio tingido de ruivo com as pontas loiras e todo arrepiado, parecia o Urso do Cabelo Duro. O Lauro, amigão querido, perguntou as horas, e eu quase corri. Eu me sentia um bicho em um território estranho. Ao invés de ter uma sala e os professores virem dar aula, eu tinha que achar em que sala tinha aula. Nossa turma devia ter uns 95% de orientais. Logo de cara me dei super bem com a Jeni. Nessa eu aprendi que japonês pode ser bem quietinho ou totalmente doido. Aprendi também que os japoneses são super esforçados, estudiosos, meticulosos, mas os chineses são mais inteligentes. Outro amigão dessa época era o Hor. O cara fazia FATEC, São Francisco e FEA e ainda trabalhava no Gallup. Eu tinha que assinar as listas de presença para ele, pois ele vinha praticamente para fazer as provas e sempre tirava 10. Chinesinho do capeta esse Hor. Eu continuava falando pelos cotovelos. Consegui ser punida pelo professor de matemática, que chamávamos de Bozo, a sentar do seu lado como tentativa de fazer eu calar a boca durante a aula. A minha cadeira tinha que ficar grudada na dele de professor. Castigo que nem de escola primária, mas na faculdade.

A FATEC fica na estação Tiradentes do metro. Era muito fácil ir na aula, eu morava ao lado da Estação Vila Mariana. A Tiradentes é praticamente a porta de entrada para o Bom Retiro. O edifício da FATEC é muito bonito e acabou de ser reformado. Anteriormente foi o prédio da Poli, a faculdade de engenharia da USP. Na minha época estava bem detonado. Um dia vi um anúncio no CPD da faculdade, que eles estavam contratando estagiários. Cai nessa e me candidatei. Fiz três meses de estágio. Um trabalho totalmente imbecil. Eu tinha que datilografar os programas na perfuradora de cartões. Nem vou explicar o que é isso, pois na época já era do arco da velha, imagina hoje.

A Paulina, amigona da minha mãe, conversando com uma mãe de aluno, a Simy, na porta do Peretz, ficou sabendo que a empresa do marido dela estava precisando de uma pessoa. Lá fui eu para entrevista. A empresa ficava no quarto de empregada da casa desse casal na Vila Clementino, bem perto da minha casa. Esse quarto era minúsculo como todo quarto de empregada, algo que acho repugnante, por que os quartos de empregada tem que ser minúsculos? Cabiam dois computadores e a impressora matricial no meio. Os computadores eram dois IBM PC originais! Comparado com os computadores da faculdade, era como ter os dois melhores MAC do mercado hoje. Uauuu! Meu chefe, Israel Burman, o maior gênio que conheci na minha vida, trabalhava na verdade na Hidroservice.

A Hidroservice era a maior empresa de cálculo de engenharia do Brasil. Ele era engenheiro e calculou toda obra do Metro da Paulista e da Linha Norte/Sul. A noite ele chegava em casa e desenvolvia sistemas ou melhor, cuspia sistemas. Nunca mais vi isso na vida. A cabeça dele era totalmente estruturada, nunca vi ele desenhar um diagrama, fazer uma analise e mesmo assim o sistema era perfeito. Desde o ponto de vista de módulos administrativos e básicos, até o modelo de base de dados. O primeiro sistema que eu trabalhei era de Contabilidade. Era um sistema para pequenos e médios escritórios. Nada no mundo pode ser mais chato que contabilidade. Outra coisa que eu tinha que fazer era digitar os números das planilhas de jornais com os dados da bolsa de valores. Na época não existiam programas para isso e o Estado publicava todos os dias as variações das ações no mercado. O Burman colecionava uma pilha gigante dessas páginas do Caderno de Economia e tinha criado uma planilha em Lotus 1,2,3 para estimar os ganhos e perdas em ações. Com isso ele teria dados estatísticos e matemáticos para saber onde investir. Ano 1985, ok? Ao mesmo tempo ele defendia uma tese de mestrado na Poli em Gerenciamento de Obras e aproveitou para cuspir o melhor sistema de gerenciamento de obras do mercado.

E assim do quarto da empregada ele tinha as maiores empreiteiras do país de cliente. Depois mudamos para um escritório maior e a Martha Gabriel, outra gênia absurda que também cuspia código entrou no time. Detalhe a linguagem que eles programavam era Fortran. Vou dizer que tive uma sorte fora do normal, logo no meu primeiro emprego eu tive a oportunidade de conhecer essas duas mentes brilhantes. O Burman hoje é funcionário da Microsoft em Seatle. Ele faz parte do Tier1 de Suporte. Aquele cara que se não é ele que resolve o problema, tem que chamar o Bill Gates. Viaja o mundo todo para dar suporte para Nasa, Bancos, etc. A Martha Gabriel é a maior colecionadora de diplomas, mestrados e doutorados que eu conheço. Quem já assistiu uma palestra dela sobre algum assunto sabe que está na frente de uma monstra. Eu era uma menina, nem tinha 18 anos, quando conheci esses dois. São meus amigos até hoje. E foi assim que tudo começou.

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