Primário.

O primário foi marcante na minha vida, por vários motivos. O primeiro foi a mudança de turno. Até então eu estudava no período da tarde. Dizem que estudar no período da tarde não é muito bom, pois a criança acaba não acostumando acordar cedo. Se é essa a razão, eu nunca acordei cedo. Cedo para mim é 8h30. Adoraria as 6h estar de pé e as 8h30 já ter feito um montão de coisas. O dia rende mais, você tem mais disposição, mas não adianta, eu sou das 8h30, quando a coisa aperta, talvez eu consiga acordar as 7h40. E se a coisa estiver mais light, não saio da cama.

No primeiro dia de aula do primário juntaram-se as turmas da tarde com a da manhã e novos amigos surgiram. Estudava nessa escola desde os 4 anos. A professora leu a lista de presença e uma tal de Marjorie não tinha vindo. Achei o nome lindo, diferente, comprido, uma novidade na época. E passou uma semana e nada dessa tal de Marjorie aparecer. E passou quase um mês e ela veio para a escola.

A Marjorie estava passeando em algum lugar do mundo de férias, mais que prolongadas com a família. Talvez foi só uma semana, ou dois dias, mas minha memória da infância diz que foi um mês. A minha curiosidade com a tal da Marjorie era tanta, que fiquei ansiosa para ela vir logo para escola. E assim ficamos amigas. Fazíamos todos os trabalhos de escolas juntas. Logo de cara ganhei um apelido do irmão dela, que não esquece até hoje uma lambança que fiz em um desses trabalhos em grupo.

Tanto a minha mãe quanto a mãe da Marjorie nos incentivavam bastante com trabalhos manuais, comprando tudo que era tipo de material para fazermos os trabalhos. Tinhamos que fazer uma maquete de alguma coisa, e a Tia Bete comprou um prancha de isopor, uma cola específica de isopor, um cortador de isopor, ou seja todas as traquitanas possíveis para fazermos a tal maquete. Começamos a construção. Colocamos tudo na mesa da copa que era bem grande em formato quadrado. Daquelas que para você conseguir alcançar alguma coisa no meio, você tem quase que deitar em cima da mesa. Eu sempre fui meio estabanada e quando já estava quase tudo pronto, eu derrubei o vidro de cola no trabalho. E foi aí que passei a ser a Ester-Melequenta. O Sidney conta isso até hoje como se tivesse acontecido ontem.

E por conta da memória do Sidão, eu nunca mais esqueci e toda vez que alguma coisa pula da minha mão ou eu derrubo alguma coisa, fica martelando o tal: “Ester-Melequenta”. As coisas pulam da minha mão. Hoje de manhã pulou o pó do café. É algo incrível em vez de acertar no coador, o café pula para fora, ou a comida pula para fora da panela, ou a água fora da jarra. Tem dia que parece que tudo esta vivo e pulando.

Outra coisa que marcou muito o primário foi a proximidade de salas com a minha prima Clarinha. A Clara é seis anos mais velha que eu, mas a sala do ginásio ficava ao lado da nossa sala. E a Clarinha tem uma rinite alérgica daquelas e espirra para caramba e tem um espirro inesquecível, não é daqueles espirros estrondosos, é super feminino: “Etichin Etichin Etichin”. Bem, eu sabia toda vez que ela espirrava, pois eu escutava da minha sala.

Na escola judaica temos aulas de hebraico desde o maternal, mas são aulas de safá ou língua hebraica. A partir do primário começamos a ter mais aulas de cultura judaica e torá, que seria uma aula de religião. Ganhamos um livro ilustrado, bem infantil, que conta a estória da Gênesis, que Deus criou a terra em 6 dias e no 7 descansou. Esse livro que é a nossa Torá tem que ser encapado de veludo azul e customizado pelo aluno. O meu tinha uma fita prata com a estrela de David. E eu adorei customizar, eu sabia de cor todas as páginas e até hoje me emociono quando leio em algum lugar: “Bereshit Barach Elohim et a Chamaim ve Et Haaretz. E no primeiro dia Deus criou o céu e a terra.” E achava o máximo o dia do Tohu Vah-Bohu, o dia do caos. E melhor ainda saber que você podia trabalhar 6 dias para descansar no 7.

A única coisa que eu não gostei nada e que me atrapalhou por muitos e muitos anos, foi aprender logo no início do ginásio, outra versão da Gênesis, de Darwin, que não tinha nada de romantismo, e que o mundo surgiu de uma explosão, etc, etc. Deu um nó danado. Fiquei muito brava durante anos. Não queria mais participar de nenhuma festa judaica ou jejum de Yom Kipur ou qualquer outra tradição, pois achava que fui enganada. Até perceber que tudo não passava de uma simbologia para explicar a mesma coisa de outra forma e que tradições são importantíssimas.

Apesar de não ser religiosa, sou mais judia do que nunca. Com ou sem Adão e Eva. E cada vez mais pró-Israel. Am Israel Chai.

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