12 anos. A viagem.

Quando completei doze anos meu tio Mailech queria me dar uma viagem e eu podia escolher para onde eu queria ir. Doze anos é a idade da maioridade judaica feminina. Na verdade inventaram isso recentemente, mas fui uma das primeiras turmas a comemorar a Bat Mitzváh, hoje já é uma tradição na comunidade. Na época as crianças queriam ir para Disney, mas escolhi fazer uma viagem com os meus pais, pois quase nunca viajávamos juntos.

Assim fomos na agência da Monark Turismo na Av. Santo Amaro e minha mãe e meu pai escolheram um roteiro de carro para Foz do Iguaçu que incluía outras cidades do sul brasileiro em 12 dias de estrada. Viajar naquele tempo era sempre um grande evento e a minha tia Nunha deu de presente para nós uma caixa com 24 Toblerones. Inesquecível o presente, levamos uns 4 para a viagem e deixamos a caixa em casa com a supervisão da Bena, que acabou comendo praticamente tudo em 12 dias, deixando uns 2 para não dizer que comeu tudo…inesquecível mesmo…

E pé na estrada. Meu pai tinha um Passat verde, tipo abacate. Era essencial ter um plano de emergência para carros, o famoso Touring, pois a probabilidade do carro quebrar na estrada era enorme. Vivíamos em mecânicas, cada hora quebrava alguma coisa e pneu então, furava sempre. E assim, com Touring, eu, minha mãe, meu irmão e meu pai munido de um monte de mapas, partimos em direção a Foz do Iguaçu. A primeira parada foi Guarapuava, uma cidade já no Paraná, perto de Ponta Grossa. A idéia era dormir para enfrentar o longo percurso até Foz em duas etapas. Chegamos em Foz no final do segundo dia e ficamos em um hotel do lado brasileiro. Fizemos todos os passeios, inclusive do lado Argentino. E meus pais ainda fizeram um passeio que entrava em um barquinho e ia na boca da Catarata, nem sei se pode fazer isso hoje. Bem radical.

A imensidão das Cataratas, aquele volume gigantesco de águas marcou minha infância. Eu lembro nitidamente como se fosse hoje a água caindo em cima de nós do lado brasileiro, um verdadeiro banho de catarata. Lembro do cassino no Paraguai, primeiro caça-niquel da vida. Lembro da visita a Itaipu. Meu pai é engenheiro civil e tinha muita curiosidade em conhecer a obra de Itaipu, e não só a obra, como as Setes Quedas. Um complexo de sete cachoeiras interligadas por pontes pencil que seriam inundadas com a abertura das comportas de Itaipu. Fomos conhecer as Setes Quedas um pouco antes delas sumirem. Minha mãe ficou morrendo de medo de atravessar as pontes, pois eram parecidas com essas de filmes, com pequenas tabuinhas de madeiras, bem precárias, e balançavam para burro. Visitamos todas as quedas. E aí o carro quebrou. Primeiro chamado do Touring. Santo Touring.

Próximo destino era Curitiba, chegamos em Curitiba no final do dia, quase de noite. Ficamos em um hotel no centro da cidade e lembro de dois fatos. Meu irmão não se entendeu com a luz do restaurante do hotel que era tipo de boate e começou a passar mal, correu para o quarto e nessas de limpar o banheiro, ele abriu a água do bidê e inundou o quarto. Coisas de criança em viagem…

No dia seguinte fomos passear pelo centro de Curitiba e foi aí que conheci o Choco Milk ou Choco Leite, naquela famosa garrafinha de vidro da Batavo. Caramba como era bom, um todinho de garrafa. Só tinha no Paraná. De Curitba fomos para o Porto de Paranaguá subindo pela serra por um trem que passa pela estrada de Morretes. Uma serra linda. O Porto de Paranaguá era um dos mais importantes do Brasil. Descendo a serra, paramos em Itajaí para dormir. Itajaí é a cidade do porto. Não sei porque ficamos por lá, mas de lá acabamos indo para Itapema, Camboriú, Blumenau, Florianópolis, Joinville. Opa Joinville, foi por conta de Joinville que tomei o único tapa na cara da minha vida.

Duas crianças pequenas: 12 e 9 anos. Quilômetros e quilômetros de estradas, muitas vezes sem nem ter o que olhar. Começamos a inventar brincadeiras. Esse dia de Joinville a brincadeira era, eu dizia: “Edifício Bonifácio Schmil”, e meu irmão respondia:”Ouviuuuu!”. Ou ao contrário. Passamos algumas horas repetindo sem parar essas duas frases. No começo meus pais acharam engraçadinho. Eles davam risada a cada: “Ouviuuuu”. Depois de algumas horas, as risadas dos meus pais começaram a transparecer um certo nervosísmo. Eles riam, mas diziam: “Parem com isso”. Até que meu pai soltou: “Ou vocês param com isso ou o próximo que falar essa frase vai apanhar”. Pronto ficamos os dois mudos. Chegamos em Joinville fomos conhecer o centro de exposições, passear pela cidade e voltamos para Itajaí no final do dia.

Já no quarto do hotel que era conjugado com meus pais. Eu de pijaminha pronta para entrar na cama, fui dar boa noite para o meu pai, encostei na orelha dele e soltei: “Edifício Bonifácio Schmil”, “Ouviuuuu”. Imediatamente voou uma voadora na minha cara, ele ria de nervoso e me bateu. Eu fiquei muda, não chorei, não ri, corri para cama. E assim, fazem mais de 30 anos que repetimos essa história em gargalhadas de família. Meu primeiro, último e único tapa na cara. Espero.

Durante esses dias em Itajaí fomos também para Bombinhas. Bombinhas na minha imagem de infância é como uma praia do Caribe. Era inacreditável de linda a praia, virgem, não tinha praticamente nenhuma casa, a água era transparente, a areia branquinha, branquinha, e você via toneladas de peixinhos nadando e foi a primeira vez que vi uma agua viva. Voltei para Bombinhas 20 poucos anos depois para passar um ano novo com a Cuca e fiquei chocada com o crescimento desenfreado das praias do sul do Brasil. Transformaram um paraíso em um inferno, de construções horrorosas, um turismo feio, um trânsito infernal, apesar da região continuar lindíssima, mas tem que ter muita boa vontade para querer voltar para lá, principalmente no ano novo. Você fica literalmente preso por conta do trânsito. Por isso que gosto do Litoral Norte Paulista que proibiu a construção de prédios, em muitos lugares as ruas ainda são de terra. Infelizmente no Brasil, desenvolvimento é sinônimo de esculhambação. Salve Jurerê Internacional em Floripa que é praticamente a Riviera Francesa (segundo os catanarinenses, claro).

Essa viagem foi inesquecível. Foi a minha viagem de infância. Meu pai registrou todo o momento em slides e durante anos, a nossa diversão eram as sessões para assistir os slides da viagem. Adorava assistir slides. Hoje as fotos digitais resgataram esse momento slides, temos a tradição na família de assistir juntos as fotos na casa dos meus pais na tevezona da sala. O problema é que acabamos nos entusiasmando, pois como diz meu irmão, foto digital é de graça, e tiramos infinitamente mais fotos do que o necessário. Até para selecionar é um saco. Avanços da tecnologia. Vou adorar quando a máquina for inteligente e ficar só com a foto boa e apagar sozinha todas as dezenas de versões ruins. Não seria o máximo?

Esse texto é em homenagem ao meu irmão, que diz que não lembra de nada, e assim ele tem a memória dele registrada através do meu olhar. Um olhar sempre romântico e com humor da minha vida bem vivida e da minha família que sempre é uma fonte inesgotável de inspiração para que novas viagens, novas aventuras, novos encontros, novos almoços, novas sessões de fotos, se repitam para sempre.

Bom final de domingo!

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