Os primeiros anos.

Em 20 de Abril de 1967, às 7.05 da manhã, eu finalmente nasci. Finalmente, porque a minha mãe diz que comecei a dar trabalho desde o parto. Meus pais foram para Pro-Matre no dia anterior e minha mãe passou por aquele trabalho de parto que leva horas e horas e nada. Naquela época não era como hoje, que praticamente nem se espera o parto normal, e se faz cesaria. A mulher sofria horrores e aí se a coisa ficava feia partiam para cesaria. Em um dado momento meu pai teve que voltar para casa para buscar alguma coisa. Quando chegou na maternidade os meus avós e tios estavam todos brancos, nervosos, pois o Dr. havia dito que tinha um problema de estreitamento da bacia. Meu pai ficou aterrorizado seu primeiro filhinho, também não se sabia o sexo, já ia nascer com algum problema. Até que conseguiram explicar que quem tinha estreitamento era minha mãe e por isso o Dr. optou pela cesaria. Ufa, final do sufoco, eu nasci.

Eu nasci com 2,7kg, sem nenhum fio de cabelo, carequinha, carequinha. Magra, magra, carequinha e com duas bolotas de olhos azuis. Alguma coisa tinha que ser bonitinha. Parecia mais um ratinho que um bebê. Em homenagem a mãe do meu avô materno Benjamin recebi o nome de Ester. Meu pai correu para o cartório para registrar. O moço do cartório perguntou: “O senhor quer Ester com h?”, e meu pai com o jeito característico dele de falar respondeu: “Pra que o h? eu quero Ester como escreve em português, simples, pra que serve esse “h”?”. E desde então passo a vida dizendo que meu nome não tem “h”.

Meu vô me chamava de “mãezinha”. Minha mãe sempre foi muito caprichosa e eu era toda paparicada como uma bonequinha, sempre impecável, até nos babadores e nas meinhas. Conforme fui crescendo fui ficando bem bonitinha. Aqueles bebês que chamam atenção: loirinha e de olhos azuis. Meu cabelo era bem liso e teve uma época que eu tinha um baita franjão. Pelas minhas fotos de infância, parecia que minha mãe passava o dia arrumando o meu cabelo, pois vivia impecável, como se eu sempre tivesse saído do cabeleireiro.

Quando completei três anos, nasceu meu irmão. Meu irmão foi o bebê mais lindo que já vi na vida. Diferente de mim, nasceu maior, mais gordinho e com uma cabeleira preta de dar inveja. Aqueles bebês bochechudos, sempre risonho, um fofo. Ele recebeu o nome Beno, em homenagem dessa vez ao meu avó paterno que chamava Berco, em russo e Bernardo, em português. Como toda criança fiquei bem enciumada, tinha reinado três anos e aí aparece um menino, que faz xixi diferente, com outras exigências para dividir a atenção dos meus pais e da família. A Clarinha conta que o ciúme era tanto que eu queria fazer xixi em pé, que nem ele.

Um dia estava na casa dos meus avós, um sobrado lindo, com piso de mármore, bem moderno para época, meio Bauhaus, de linhas retas. Subi as escadas e fui correndo em direção ao quarto dos meus avôs, quando eu escuto: “Não deixa a mãezinha entrar”. Era meu avô que estava doente e não queria que eu visse ele na cama. Nunca tive certeza se alguém me contou isso, ou se realmente eu passei por essa situação. Eu tinha dois anos de idade e é essa a única cena que recordo do meu avô, ou seja, eu não vejo a sua cara, só escuto sua voz. Logo, ele faleceu e foi uma tristeza muito grande na nossa família.

Por causa desse episódio, eu morria de medo de entrar no quarto dos meus avós. Não demorou muito e minha avó também faleceu e meu tio ficou morando nessa casa por muitos e muitos anos. Toda vez que ia visitar meu tio, eu subia as escadas e virava imediatamente a direita, eu tinha até medo de olhar para esquerda, que era o lado do quarto dos meus avós. A única coisa que eu via era uma claridade que vinha de uma clarabóia do banheiro. O corredor era comprido, o quarto ficava no final, estava sempre com a porta aberta e escuro.

Minha mãe dava aula na mesma escola que estudei a vida toda e a cena que mais lembro dessa época, era ela em seu fusca azul, colocando seis crianças para dentro do carro: eu, meu irmão, o Marcelo, Anete, e mais dois vizinhos do prédio da frente, e levando todos para escola. Era uma farra sem fim. Quase sempre na volta, estavámos com areia até o nariz. Ao entrar no carro tiravámos as conguinhas vermelhas, que faziam parte do uniforme, e enchíamos o carro de arreia. Além da conguinha, o uniforme tinha uma espécie de avental vermelho com um baita bolsão na frente, que invariavelmente também vinha cheio de areia. Isso quando não virava capa do Batman. Minha mãe vivia doida com essa areia para tudo que é lado, ela como a minha avó, é maniaca por limpeza, imagina o carro cheio de areia? as vezes vinha algum bicho junto, uma joaninha, formigas ou algo parecido.

Outra cena gostosa dessa época eram as festas de carnavais na Hebraica. Eu adorava ir nas matinês de Carnaval. Adorava as serpetinas, adorava os confetes e adora aquelas marchinhas: “Olha cabeleira do Zezé, será que ele é? será que ele é? será que ele é bossa-nova…”. Eu lembro de algum Carnaval a minha avó Sara ter ido conosco e eu sentada no seu colo. Teve alguma festa ou Carnaval que minha mãe me vestiu em uma fantasia de coelhinho cor-de-rosa linda.

Minha avó ficou doente um pouco depois do meu avô e teve que vir morar na nossa casa, pois morávamos em apartamento e ela não podia mais subir e descer as escadas do sobrado. Outra cena que lembro dela, é eu e meu irmão sentados no chão do quarto dos meus pais, minha avó na cama, o quarto bem escuro e a gente conversando, não sei do que. Tenho pouquíssimas memórias dos meus avós maternos, logo ela também faleceu.

A minha primeira infância foi marcada por uma quantidade absurda de perdas na família, primeiro meu avô, depois minha avó e logo vários tios da minha mãe. Parecia que toda hora morria alguém. Nos judeus temos o costume de ir ao cemitério várias vezes durante o ano, e por conta dessas perdas, fizemos isso muitas e muitas vezes quando crianças. Minha mãe não tinha nem 30 anos quando perdeu os pais, dessa maneira muito triste.

Apesar de parecer meio tétrico esse excesso de cemitério, esse é um assunto bastante recorrente na família. Minha mãe quando ficava brava dizia: “Vocês querem me ver no Butantã.”. Butantã é o bairro onde fica o nosso cemitério. Eu e meu irmão sempre brincamos que vamos ter essa sina para o resto da vida, senão vamos ser puxados pelo pé para sempre. Ele sempre diz que sonha passando na minha casa em algum domingo pela manhã para irmos visitar nossos pais, como o meu tio faz com minha mãe e minha tia até hoje. Eles já compraram o terreno lá no Butantã. Coisa de judeu das antigas, tem que garantir o teto, até no além. Sempre que falamos disso, falamos dando risada, pois é tão “over” que já virou piada interna da família.

Nessas minhas memórias de criança eu lembro muito de brincar: brincar de amarelinha, brincar de elástico, brincar de pipa, brincar com areia, brincar com bicicleta, brincar com bola, brincar com água, piscina, mar, simplesmente brincar. Vejo que hoje as crianças passam horas robotizadas nesses ipads, iphones e videogames. Como era bom brincar. Como será que vai ser a memória delas? bati o recorde do não sei o que com dois anos?

Shabat Shalom e que a vida seja sempre repleta de momentos, todos os tipos de momentos, regados sempre de amor e paz, em alguns dos intervalos.

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