Portugal.

Agosto de 1989. Algum “puente” ou feriado longo: 4 dias. Ivar e Ana Cristina, os únicos motorizados da turma, vieram buscar eu e a Magda na Calle Fernando el Católico. Prontos para zarpar. A viagem iria começar por Coimbra. Missão: Levar o nosso amigo português João Pá, apelido carinhoso, para passar o feriado na casa da sua família em Tomar. Cinco pessoas em um carro que depois seria abandonado nas ruas de Madrid, pois a manutenção não compensava e não iria passar na inspeção anual de veículos. Motorista: Ivar.

E assim fomos à Portugal. Essa região de Castilla y Leon é muito árida. O caminho até Coimbra, nosso primeiro destino, era desértico. Passando a fronteira para Portugal, o cenário muda e fica tudo verde, um verde bem parecido com o Brasil. Exuberante. Em Coimbra se encontra a Universidade de Coimbra, fundada em 1292, é uma das mais antiga da Europa e fiquei encantada com a construção. Gostei tanto que queria estudar lá. Logo de cara nos deparamos com a lógica reversa dos portugueses. Falar a mesma língua e não se entender é muito do esquisito. Algumas palavras como cú que quer dizer pescoço, podem te atrapalhar, mas o que pega mesmo é a construção das frases. O português é muito simpático, extremamente solicito com turistas, pelo menos naquela época, mas nós nos comportamos muito mal. Não tinha como não cair na gargalhada. As famosas histórias que todos os brasileiros passam em Portugal, óbvio que aconteceram conosco. Você pergunta uma coisa e a resposta normalmente é outra, ou é a resposta da pergunta literal que você fez. Aconteceu isso uma vez, duas vezes, na terceira nós dávamos risada antes de perguntar. Lembrem-se não existiam aparatos eletrônicos e internet, nós parávamos o tempo todo para perguntar. Feio. Bando de brasileiros mal educados. Rs Rs Rs.

De Coimbra fomos para Fátima. Todos eram católicos, menos eu, judia que tinha saído praticamente do gueto judaico de São Paulo: Peretz, Hebraica e algum movimento juvenil judaico, para Espanha. Há 25 anos atrás, a Espanha era um país genuinamente espanhol. A inquisição e outras guerras, tinham afugentado árabes, judeus e outros povos, durante anos de perseguição. E sobrou basicamente espanhóis. Nada de japonês, chinês, indu, negro, loiro. Todos eram espanhóis, cabelos negros, olhos negros. Hoje a realidade em países europeus é totalmente diferente. Cheguei em Madrid e descobri que tinham menos de 2.000 judeus vivendo na Espanha.

Voltando a Fátima. Fátima é um importante santuário cristão. Local de peregrinação. Milhares de pessoas do mundo todo vão a Fátima para cumprir promessas. Lembro de ter ficado chocada em ver senhoras velhinhas subindo de joelhos as rampas para o santuário. Foi uma experiência bem estranha. Eu mal tinha entrado em uma igreja, não conhecia Israel, e fui parar em Fátima. Eu fiquei mais chocada com essas cenas de sacrifício das pessoas, como subir de joelhos ou outras promessas, do que com a energia espiritual do lugar.

De Fátima fomos deixar o João Pá em Tomar. Estava acontecendo uma festa na pequena cidade que lembrava uma quermesse. A cidade era uma graça. Aliás Portugal é um país muito bonito. A comida então nem se fala, éramos jovens, duros e em qualquer lugar que parávamos para comer, comia-se maravilhosamente bem. Deixamos o João com a família, depois de curtir a festa, claro, e fomos para Lisboa.

Chegamos em Lisboa e já era de noite e tínhamos que encontrar o albergue da cidade. As instruções do mapa não eram tão precisas, e o nosso querido motorista, Ivar, deu várias voltas e nada de achar. Até que ele parou na frente de um restaurante que estava aberto e pediu para eu e a Magda irmos lá perguntar onde ficava a tal rua. A entrada do restaurante era um corredor e não dava para ver a rua. Fomos até o fundo e perguntamos: “Por favor, onde fica a rua tal?”. A pessoa respondeu: “Longe, muito longe”. Perguntamos de novo: “Mas onde fica?. A pessoa respondeu de novo: “É longe, bem longe. Oras pois.” Outra vez: “Mas o Senhor poderia explicar onde fica?”. E de novo: “Longe.”. Caspita. Mais uma: “Por favor, nossos amigos estão esperando no carro e vai fechar o albergue, onde fica a rua?”. Resposta: “Pois, vocês estão de carro? ah então é perto.” E explicou o caminho. Eu e a Magda nos seguramos para não dar mais uma daquelas gargalhadas da falta de entendimento com os portugueses. Taí um exemplo, teria que falar, estou de carro e quero ir até um lugar, a pessoa achou que nós estávamos a pé. Bom, nunca entendi essa lógica, mas deve ser por aí.

O albergue era sinistro, um horror. Daqueles que você dorme agarrado na mochila. Em 89, Lisboa não era uma cidade limpinha e segura, vimos até um tiroteio. Era bem escura e perigosa, mas pitoresca. Para nós brasileiros, era normal, como sempre a nossa referência de perigo é sempre pior. De Lisboa fomos para Oeiras lembro de termos ficado em um albergue bárbaro, Catalezete, de frente ao mar. Maravilhoso, mais parecia um hotel 5 estrelas, ou talvez, 4, ou quem sabe 3. Ganhei até um passaporte de albergue que guardo até hoje e meu primeiro carimbo. Fomos para Sintra. Tinha tido um incêndio na mata, muito triste ver a mata toda queimada. Sintra é um deslumbre. Fomos para o Cabo da Roca que tem o mirante do ponto do Atlântico na Europa considerado o mais próximo das Américas. Estivemos em Cascais e retornarmos a Lisboa, dessa vez o João foi nos encontrar e passeamos juntos pela cidade. Fizemos um caminho diferente na volta e passamos pelas ruínas em Mérida. E finalmente chegamos em Madrid, depois de mais de 1.500km em apenas 4 dias.

Essa viagem foi inesquecível para mim. Lembro até hoje das gargalhadas. Mesmo com pouca grana, nos divertimos muito. Mas eu nunca mais voltei a Portugal, apesar de ter adorado. Tenho muita vontade de repetir. Quem sabe não marcamos outra com as mesmas pessoas? que tal Magda? que tal Cris e Ivar? e você João recebe a gente?

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