Alberto da Veiga Guignard, a eterna criança grande.

Nasceu em 1896 em Nova Friburgo. Aos 11 anos mudou-se com a mãe, a irmã e o padrasto para a Alemanha. Guignard nasceu com os lábios leporinos. Essa deficiência, que na época não tinha cirurgia, dificultava a sua fala, a alimentação e ainda lhe trazia problemas de auto-estima. Estudou artes em Munique, morou em Paris e Florença. Perdeu a mãe e a irmã ainda morando na Europa e resolveu voltar ao Brasil aos 34 anos de idade. Pouco se sabe desse grande período que Guignard morou na Europa. Parece que se casou e se separou no dia do casamento. Participou de salões de arte importantes e foi o primeiro brasileiro a participar da Bienal de Veneza. Os catálogos constam seu nome, mas não se tem o registro das obras. Chegou ao Rio de Janeiro com uma mão na frente outra atrás, praticamente sem nenhuma obra. Se encantou com o Jardim Botânico, onde montou seu atelier. Sempre foi um apaixonado por paisagens de montanha, tanto que suas obras sempre retratam montanhas mesmo morando no Rio, nunca o mar. Passou uma temporada em Itatiaia até que Juscelino Kubitschek o convidou a formar uma escola de arte em Belo Horizonte. A Escola Guignard existe até hoje e formou e ainda forma importantes artistas brasileiros. Sempre foi um ótimo instrutor intuitivo. Passaram por suas mãos Iberê Camargo, Almícar de Castro, Farnese de Andrade, entre outras figuras importantes.

A vida de Guignard é repleta de episódios pitorescos e melancólicos. Em 1932, aos 36 anos de idade, conheceu em um concerto do Theatro Municipal a estudante de música Amalita Fontenelle, onze anos mais jovem e de Campinas. Durante 5 anos Guignard escreveu para a sua paixão platônica, cartões e mais cartões em praticamente todas as datas comemorativas. Cartões desenhados e contornados por frases de amor, dedicatórias e poesias. Chegaram a trocar cartas, mas os cartões nunca foram enviados. Esses 121 cartões foram reunidos em um álbum e doado, ainda em vida, para o poeta Oswald de Andrade. Hoje fazem parte do acervo da Casa Guignard em Ouro Preto e refletem a timidez de Guignard para expressar os seus sentimentos.

Ao perguntar a Guignard como ele sabia que havia terminado um quadro. Ele respondeu: “- Quando ele faz ” Tiiim…”. O artista é sempre retratado pelos amigos e alunos como um menino ingênuo. Uma pessoa muito simples desprovida de bens materiais. Vivia perambulando de casa em casa de amigos, com uma pequena malinha e um livro de Da Vinci. No aperto, vendia quadros por qualquer preço para comer.

Guignard foi um grande retratista. Até hoje seu acervo não foi catalogado mas estima-se mais de 700 retratos e um total de mais de 2.000 obras. Era um pintor compulsivo, como Portinari, pintava o tempo todo. Várias vezes os modelos não gostavam do retrato. E ele dizia: “Daqui a 40 anos, quem vai saber como você era…”. Tal feito, aconteceu com o próprio JK que encomendou seu retrato e não gostou, deu de presente para sua irmã, que colou um cartaz na obra. Essa obra foi recuperada depois para uma exposição.

Outra cena constante nos seus quadros são os balões de São João. Parece que Guignard pintava esse tipo de quadro uma vez por ano na época do aniversário do seu pai, pois era justo em São João, como uma homenagem. Guignard não era um intelectual, apesar de ser culto e de ser o brasileiro modernista com a mais consistente e longa formação acadêmica europeia. Era amigo de Portinari, Cecilia Meireles, entre outras personalidade importantes da época.

As telas de Guignard sempre retratam alguma paisagem, mesmo nos retratos. A forma como ele pintava era também peculiar, ele começava pelo céu e ia descendo até completar totalmente a tela com uma paisagem e depois ia colocando igrejas, casas e pessoas. Talvez por isso que temos a sensação que os objetos estão sempre voando na tela. Outro ponto interessante é que Guignard gostava de pintar sobre a madeira e no final de sua carreira foi abandonando os excessos de tinta e de informação na tela, criando cenas que lembram aquarelas de um universo onírico. Normalmente as paisagens e os retratos eram criações da sua cabeça, o lirismo de Guignard, inspirados pela cena observada. Além de paisagens e retratos, Guignard pintou vasos e vasos de flores inspirados no vaso de girassol de Van Gogh. Parecia uma homenagem ao pintor que ele admirava tanto. Eram as únicas telas intensas em cores.

O universo de Guignard é realmente fascinante. A vida de um artista engrandece e muito sua obra. Morreu pobre de ataque cardíaco em Ouro Preto. Hoje sua obra é bastante valorizada em leilões e faz parte do acervo dos principais museus e colecionadores brasileiros. Guignard, assim como Portinari, Tarsila e Di Cavalcanti é considerado um dos maiores pintores modernistas e o que mais retratou o Brasil na sua mais pura ingenuidade.

“Eterna criança grande, Guignard conservou a ingenuidade, o lirismo e a frescura da infância, como se a vida e o tempo por ele tivessem passado impunemente, deixando-o intacto”. falou a escritora e amiga do artista Lucia Machado de Almeida

Quando já tinham serenado as barricadas dos paulistas, Alberto da Veiga Guignard voltou da sua longa estadia na Europa, em cujas escolas de arte decorreu toda a sua juventude. Pois bem, Guignard que é dos pintores brasileiros o que recebeu mais longe formação européia, é justamente um dos representantes mais autênticos do espírito regional da pintura brasileira. Dono de uma técnica apuradíssima nos anos de estudo na Europa, ele é, todavia, a negação do espírito de virtuosismo. Há na sua pintura uma espécie de ingenuidade que não vem da deficiência de técnica, mas do sentimento com que contempla a paisagem nativa, sobretudo a das velhas cidades de fisionomia colonial. Ele nos transporta evidentemente ao âmago do Brasil, e sua pintura tem uma nota enormemente enternecedora e íntima, cujo segredo é perceptível a qualquer coração brasileiro. Esse grande lírico é o primeiro nome de importância que encontramos na fase que poderíamos chamar de ‘post-modernismo’, indicando um caminho já consolidado”.  escreveu Ruben Navarra em 1943, no ensaio “Iniciação à Pintura Brasileira Contemporânea”, escrito originalmente para ser publicado como apresentação da mostra de pintura moderna brasileira na Royal Academy of Art em Londres, em benefício da RAF (Royal Air Force) em 1944

Por Iberê Camargo, o mestre “não era um intelectual, era instinto puro… intuição pura. Era um artista profundamente intuitivo”

“Nasceu em Nova Friburgo, em 25 de fevereiro de 1896, feio como todo recém-nascido.
Estudou em Munique, na Real Academia de Belas Artes, onde aprendeu desenho e amou.
De acadêmico passou a moderno, após ter visto uma exposição de arte moderna alemã: o modernismo o fascinou.
Em 1930 veio para o Brasil, onde teve um choque com o ambiente artístico, bem atrasado em relação à Europa. Abriu seu ateliê no Jardim Botânico, entre a vegetação e milhares de mosquitos.
Veio para Belo Horizonte, a chamado do então prefeito Juscelino Kubitschek, e daqui se enamorou desde o primeiro dia da paisagem.
Fundou a Escolinha de Guignard, que tem vivido por milagre e amor de alunos e mestres, e aqui ensinou arte a diversas gerações de jovens. Adora ser cercado pela juventude, principalmente moças bonitas, e Ouro Preto é a sua cidade amor-inspiração”.
Guignard
(Guignard por ele mesmo. Pequeno texto autobiográfico no catálogo da exposição Guignard, no Museu de Arte da Prefeitura de Belo Horizonte. Junho de 1961.)

Em cartaz no MAR, Rio de Janeiro – Guignard e o Oriente, entre o Rio e Minas

11/11/2014 a 26/04/2015 – curadoria de Priscila Freire, Marcelo Campos e Paulo Herkenhoff,

e em julho no MAM, São Paulo –Alberto da Veiga Guignard

9 jul – 11 set – curadoria de Paulo Sérgio Duarte

A Casa Guignard fica em Ouro Preto aberta para visitação, curada pela Priscila Freire, grande especialista em Guignard.

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