Encaixotando Farnese de Andrade.

Nasceu em Araguari, MG, em 1926. Mudou-se com a família para BH onde estudou com Guignard. Farnese teve uma formação clássica em arte e desenvolveu a técnica da ilustração e gravura. Passou um grande período trabalhando como ilustrador de revistas famosas como Cruzeiro e Manchete. Na década de 60 já morando no Rio de Janeiro, Farnese passou a colecionar objetos encontrados na orla do mar, como conchas e mariscos, e outros garimpados em antiquários, desmanches e outros tipos de lojinhas.

A partir de então a sua obra passou a ser feita com esses objetos em assemblages, sempre em formato de caixa, oratórios, gamelas de vidros ou objetos resinados para serem perpetuados. A psique de Farnese foi ficando cada vez mais perturbada ao ponto do artista criar para si mesmo. Vivia ao redor dessa coleção e dessas “caixas”, que lembram úteros, pois cada uma contém uma parte da nossa formação: o nascimento, a sexualidade, a religião, a morte, a angústia, o sofrimento. A sua obra é carregada de morbidez, muitas vezes perversa e violenta.

Farnese era homossexual e muito solitário. Não queria ter filhos e não gostava de crianças, achava que a vida era a maior representação do ato da morte. Afinal ao nascer a única certeza que temos é que vamos morrer.  Era diagnosticado com depressão bipolar, que o fazia tomar doses diárias de lítio. Acabou morrendo envenenado com o próprio medicamento em 1996, no Rio de Janeiro. Entre 70 e 75 viveu em Barcelona, onde também exercitou esse ato colecionista. A sua criação é tão única que fica difícil qualificar a obra, dadaísta, surrealista, pós-moderna, talvez farnesiana. Goya teve esse período com a sua fase negra, mas em pinturas, também bastante assustadoras. Então esquecendo os movimentos artísticos, vamos pensar em Farnese como um artista repleto de conflitos pessoais.

A obra de Farnese é muito forte. Eu diria inesquecível. Gostando ou não você fica marcado por essas caixas. Mesmo os quadros tem essa mesma força. Nem tudo tem que ser agradável e conhecer Farnese é conhecer uma mente genial, que consegue “congelar” momentos da vida como se fossem quadrinhos tridimensionais de terror através dessas assemblages. A sensação que eu tenho é que Farnese colocava essa suas angústias para fora a cada caixa. “Pronto, ta aí na caixa. Melhor aí que dentro de mim. E vocês que convivam com isso agora. “ – Provoca qualquer um, pois todos temos as mesmas ou algumas dessas angústias.

Até 11 de Janeiro, a CAIXA Cultural de Brasília recebeu a exposição – Farnese de Andrade – Arqueologia Existencial, curada por  Marcus de Lontra Costa. Vamos ver se vem para São Paulo. Farnese na CAIXA.

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