Tunga, o Mestre da Arte Contemporânea.

Até onde Tunga nasceu ele consegue deixar meio nebuloso e controverso. O registro diz que foi em Palmares, Pernambuco, em 1952. Ele cisma em achar que foi no Rio de Janeiro. Talvez, porque na verdade sempre viveu no Rio de Janeiro, mais precisamente 6 meses no Rio e 6 meses para mundo, e temporadas longas em Paris. Tunga, apelido de Antônio José de Barros de Carvalho e Mello, é um intelectual. Daqueles que tem um discurso repleto de referências complexas, da filosofia, literatura a psicologia, da arquitetura, sim, o mestre é formado em arquitetura, a alquimia, a física, a poesia, a partícula.  Tunga já visitou o CERN na Suiça. O que será que um artista foi fazer no CERN, o centro europeu de pesquisas voltado ao estudo das partículas? pois então, não dá para escrever um texto convencional, onde nasceu, o que estudou, o que fez, de uma figura com tanto conteúdo.

Passei semanas estudando Tunga. Já tinha algumas referências, conhecia seu trabalho. Conhecia a famosa história que foi ele quem inspirou Bernardo Paz a colecionar arte contemporânea. Diz a lenda que a família de Paz, endinheirados mineiros de grandes mineradoras tradicionais do estado, eram grande colecionadores brasileiros de arte moderna. Deviam ter os clássicos, Portinari, Volpi, Di Cavalcanti, quem sabe uma Tarsila e uma Anita. Eis que Bernardo conhece Tunga e em longos papos com esse grande articulador de palavras, Tunga fisgou Bernardo. Fisgou a veia contemporânea desse grande incentivador da arte brasileira. E assim Bernardo se desfez de sua coleção, se é que é verdade, ou deixou de lado, e passou a colecionar e ser o maior fomentador da arte contemporânea brasileira. Seu Inhotim é algo indescritível, o museu mais incrível que alguém possa visitar. Deixa qualquer curador, colecionador, artista, amante das artes, enlouquecido. Com certeza fisga milhares, com o formato tão genial de apresentar as obras. Tunga tem vários espaços dedicados ao seu trabalho. Em 2012 inauguraram uma galeria gigantesca, praticamente um museu, para abrigar 30 anos da obra de Tunga. Grande homenagem de Inhotim, ao grande mestre. Entender essa galeria não é nada fácil. Além das obras, existem performances que deveriam acontecer enquanto visitamos, que facilitariam alguma compreensão, mas devem ocorrer esporadicamente.

Tunga experimentou todos os tipos de mídia e materiais, diz ele que suas obras fazem parte de uma sinfonia, onde cada trabalho seria um instrumento, logo entende-se que deve haver um elo entre cada trabalho e que o conjunto completaria o seu grande espetáculo musical. A arte seria a representação de um poema. Várias obras possuem textos, performances, além do que visualmente se vê. Todas são muito marcantes como Ão, uma video instalação que acabou de ser adquirida pelo MOMA, criada em 1981, onde um túnel do Rio é filmado ao som de Frank Sinatra, em um looping infinito, tanto de um trecho da música, quanto ao trecho do túnel, parecendo nunca ter fim. Ou a sua grande instalação True Rouge, onde frascos de laboratório com um liquido vermelho, que remetem ao sangue, ao ciclo da vida, a fertilidade da mulher, são suspensos em um emaranhado sem nunca tocar o solo como se fosse um marionete. Causam estranheza mas ao mesmo tempo é maravilhoso.

A performance das gêmeas xipofagas é uma referência familiar. Em um vídeo recente, Tunga fala de sua mãe e de sua tia, gêmeas idênticas, com personalidades totalmente diferentes, que foram retratadas no famosíssimo quadro de Guignard. Tunga vem de uma família de intelectuais. Seu pai falava mais de 6 idiomas e na sua casa repleta de livros circulavam os principais pensadores do Rio de Janeiro. Logo foi treinado desde a mais tenra idade a lidar com questões complexas, que jamais abandonaram sua mente extremamente criativa e estão presentes em cada trabalho.

Por incrível que pareça, apesar da complexidade, o discurso de Tunga é bastante coerente e muito interessante. Deve ser uma pessoa que podemos passar horas e horas conversando. Bem humorado e ao mesmo tempo sério, fala muito bem inglês, com um engraçado sotaque francês, pois vive parte do ano em Paris. A obra de Tunga está espalhada pelo mundo. Instiga a todos. Tem os que odeiam, ou melhor, que não devem entender nada, e os que o idolatram. Seu último trabalho em apresentação, em galerias do Brasil, Nova Iorque, Milão, California é a “La Voie Humide”, ou a via húmida. Mais uma referência a alquimia, onde você tem os elementos secos e os molhados. Esculturas tridimensionais, que usam diversos elementos, frascos, cumbucas de barro, são suspensas em um tripé. Se olharmos individualmente cada escultura, em um ambiente onde ela esteja próxima a uma parede branca, podemos enxergar um quadro, um quadro que me lembra até Kandinsky, com suas figuras geométricas coloridas.

Tunga propõe uma viagem com suas obras, logo abra a percepção e viaje. Pegue referências, leia, pois entendê-las apenas olhando não é nada fácil. Todas teriam que vir com um tremendo manual, que vai levantar assuntos, dos quais você não faz a menor idéia do que se trata. Amplie seu conhecimento e depois enxergue o seu significado nos pentes, cabelos, potes, líquidos, imãs e todas esquisitices propostas por Tunga. Você vai descobrir o gênio da lâmpada, tem que esfregar.

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