Sebastião Salgado, o filosofo. O fotografo. O Marco Polo. O olho de dentro do olho do outro. O gênio.

Em Maio de 2013 eu estava no Rio de Janeiro à trabalho e recebi o convite para o lançamento da Genesis de Sebastião Salgado. Teria a inauguração da exposição no Jardim Botânico e outro evento na Galeria Tempo. Não fui a nenhum dos dois. A Dilea, minha grande amiga, me levou para assistir um show no Espaço Tom Jobim, local deslumbrante no Horto do Rio, antes de irmos para as exposições. Acontece que o show da Bianca Gismonti era tão absurdo de bom, o melhor show de música brasileira que assisti nos últimos tempos, que não deu para sair no meio, ficamos até o final. Perdemos o Salgado, mas eu ganhei a Bianca Gismonti na minha vida. A doce e linda Bianca, excelente cantora, compositora, pianista virtuosa, filha do também virtuoso Egberto.

Logo em seguida na ArtRio, também no Rio de Janeiro, a Taschen tinha o livro em formato gigante em seu stand na feira. A minha obsessão na época era a nossa feira que teria sua primeira edição naquele ano, outra vez vi e não vi a Genesis.

Esse assunto está na minha cabeça desde então.

Em 1997 eu conheci os Trabalhadores, livro que faz parte da minha coleção. Não lembro se conheci Salgado, pode até ser. Não sei se foi o Washigton que me introduziu a ele, pode até ser, pois a W/ era muito próxima da Cia. das Letras, editora do livro. Não lembro se fui na exposição de Trabalhadores, tenho uma lembrança de algo na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Pode até ser. O que tenho certeza é que esse livro me marcou. Marcou por serem as fotografias mais fortes e impressionantes que eu já tinha visto ou vi do ser humano. Em Trabalhadores, Salgado retrata o que a Revolução Industrial provocou ao principal animal que habita esse planeta. A corrida desenfreada por dinheiro independente das condições para obtê-lo. Quer seja perdido entre milhares nas imagens fortíssimas de Serra Pelada, quer seja em Minas de carvão e minério. Tudo para enriquecer pouco e escravizar muitos. Nunca mais comprei um livro de Salgado, fiquei tão chocada com Trabalhadores e Terra, que não conseguia nem folhear as outras, como ela chama, reportagens.

Nesse último domingo, o documentário sobre a vida de Sebastião Salgado concorreu ao tão sonhado um-dia-vamos-ter-o-Oscar-brasileiro. The Salt of Earth, foi dirigido por Wim Wenders e por Juliano Salgado, filho de Sebastião. Na última sexta-feira no meio das barbáries das notícias do Jornal Nacional, eu me pego concentrada na frase de Juliano Salgado: “Eu precisei fazer esse documentário para entender meu pai. Um pai ausente. Que na minha visão de filho sempre me abandonava em busca de novas aventuras. Fui atrás dele, participar dessas aventuras e descobri meu pai.”. Achei muito bonito e da sexta até hoje de manhã a minha cabeça está repleta de Salgado. Assisti o documentário, mesmo com áudio em inglês, francês e português, legenda em espanhol.  Terminou e meu cérebro tinha dado um nó de tanta língua e tanta informação. Assisti dezenas de entrevistas, outros documentários, li tudo que encontrei. Revi meus Trabalhadores e todas as fotos. Fiquei triste que o documentário não ganhou o Oscar, mas eu ganhei um absurdo de conhecimento sobre o ser humano, nosso planeta, sobre a vida.

Sebastião Salgado nasceu em Aimorés (Minas Gerais), em 1944. Foi criado em uma fazenda circundada por uma imensa Mata Atlântica. Essa fazenda dava toda a subsistência para a família de Sebastião e suas seis irmãs. Tudo era tirado da terra. Aos 15 anos Sebastião foi para Vitória completar o segundo grau e pela primeira vez se deparou com a cidade grande e com algo chamado dinheiro. Até então nunca precisou de dinheiro para comprar comida. De Vitória veio para São Paulo onde se formou em Economia na USP. Conheceu sua Lélia. Mulher que o acompanha a mais de 50 anos. Sua melhor amiga, sua agenda, sua administradora, sua curadora, sua esposa e mãe dos seus dois filhos. Na verdade Sebastião Salgado é a dupla Sebastião-Lélia. Os dois jovens enveredaram pelos movimentos de esquerda da época da Ditadura, e em 1969 perceberam que o clima era muito pesado por aqui e resolveram imigrar para França. Foram de navio para Paris. Em Paris Salgado fez mais cursos de economia, mestrados, e foi contratado pela Organização Mundial do Café para fazer alguns trabalhos na Africa. Assim começou seu contato com a realidade dos países africanos. Lélia se formou em arquitetura e um dia comprou uma câmera fotográfica com lentes especiais. Em uma dessas viagens Sebastião resolveu levar a câmera e ao voltar e mostrar as fotografias para Lélia, ela ficou maravilhada com o olhar do marido. Depois de um tempo, os dois resolveram abandonar as carreiras e se dedicar a esse olhar de Sebastião. Nessa época com 29 anos de idade, bem sucedido, Sebastião começou de novo. Foram atrás de agências de notícias, principais revistas e jornais, até que conseguiram o contrato com a Sygma em 1973. Nos primeiros anos o trabalho de foto-jornalismo rendeu fotos marcantes como o atentado a Ronald Regan e várias fotos da miséria na Africa. Com um certo capital e sucesso como foto-jornalista, o casal, resolveu investir no que eles chamam de reportagens. Escolhiam um tema e durante anos de pesquisas, dezenas de viagens, períodos longos em contato com outras culturas e povos, esse material era compilado em exposições, livros, palestras e divulgado no mundo todo. Foi assim que nasceram: Outras Américas, Trabalhadores,Terra,  Êxodos, Genesis, entre outros trabalhos.

Essas expedições, dignas de Marco Polo, são organizadas por Salgado e Lélia através de muita pesquisa para definir o tema e de um tremendo trabalho de logística. Normalmente os trabalhos levam uns 8 anos para serem concluídos. Sebastião fica muitas vezes dois a três meses convivendo nas regiões que visita. Sebastião conhece mais de 130 países, talvez seja o ser humano que mais viveu experiências com outros seres humanos em profundidade. Essa profundidade trouxe para Sebastião um conhecimento da nossa espécie inacreditável. E muita frustração. Frustração essa que o deixou doente, depois de um período largo em Ruanda onde estava registrando imagens para o seu Êxodus. Êxodus retrata o sofrimento dos refugiados de várias situações de guerra e perseguições em diferentes países. Em Ruanda, em 1996, Salgado presenciou o sofrimento e a morte de centenas de milhares de refugiados, eram mais de 2 milhões, era um mar de gente desnutrida, sem a menor condição de higiene, de vida, morrendo aos milhares pelas ruas. As fotos desse período são extremamente fortes. Essa força e triteza que nos atormenta pelas fotos, deixou Salgado doente. Voltou para Paris, desacreditado da humanidade. “Como nós os animais teoricamente mais inteligentes podíamos cometer tamanha barbárie? como podíamos conviver com essa barbárie toda?” ele não podia mais.

Nessa mesma época seu pai o salvou desse descrédito da humanidade. Seu Sebastião, pai, como o mesmo nome e feição, estava bastante velhinho e resolveu doar em vida a fazenda onde seu único filho homem tinha sido criado. Ao retornar a sua casa, Salgado se assustou com a erosão das terras. “Onde esta a Mata Atlântica?”, tinha desaparecido por completo. Foi quando sua iluminada Lélia teve a idéia de eles replantarem a floresta. Assim nasceu o Instituto Terra. As fotos de como estava e de como está hoje a área são impressionantes. Com esse trabalho Sebastião resgatou sua vontade de viver e resolveu atentar para outro olhar. O olhar do que ainda temos de bom e que devemos cuidar. Foi assim que surgiu a idéia da reportagem Genesis. Pela primeira vez, Salgado iria retratar outros animais que não fossem os humanos. A pesquisa revelou que ainda temos 47% da terra intacta, sem ter sofrido interferência humana. E foi atrás dessas áreas com menor interferências, de civilizações que sofreram os menores contatos e de animais, que Sebastião foi atrás. Foram oito anos de aventuras. No Brasil, Salgado apenas me ratificou algo que sempre me chamou atenção em relação aos indígenas brasileiros. Ao meu ver, as comunidades indígenas brasileiras  são extremamente não evoluídas, brinco que não construíram pirâmides, ainda estão na época da mandioca. Mas quem sabe seja essa a verdadeira evolução? saber preservar tudo ao seu redor. E foi isso que Salgado também percebeu, que essas comunidades vivem em perfeita harmonia com a natureza, retirando o mínimo que precisam para sobreviver, realizando seus cultos, suas festas, felizes com a sua cultura e seu modo de vida. Não acredito que o índio sofra de depressão, ansiedade ou qualquer outra doença que criamos por conta dessa nossa vida totalmente sem limites. Nessas áreas a Mata Atlântica permanece intacta.

Viver com Salgado esses dias me trouxe a tona várias questões filosóficas sobre a vida e como a fotografia pode transmitir histórias completas em um clique que é apenas uma fração de um segundo.

Bom dia!

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