Roberto Burle Marx, o pintor das plantas.

Nasceu em 1909 em São Paulo. Era o quarto filho de Cecília Burle, pernambucana de família tradicional, e de Wilhelm Marx, judeu alemão. Em 1913 a família mudou-se para o Rio de Janeiro. Entre 1928 e 1929, Roberto teve um problema nos olhos, e a família foi para a Alemanha em busca de tratamento. Em Berlim estudou pintura no ateliê de Degner Kemn e conheceu o Jardim Botânico de Dahlen. Roberto ficou maravilhado com a diversidade da flora tropical brasileira e abismado de conhecê-la de tão longe. Na época os jardins brasileiros eram todos copiados dos jardins europeus. De volta ao Rio de Janeiro, estudou na Escola de Belas Artes e passou a cultivar plantas nos jardins da casa da família no Leme.

A partir dessa constatação, na Alemanha, Roberto passou a se interessar por todas as espécies nativas brasileiras e se tornou um botânico auto-didata. As bromélias, entre outras plantas naturais da Mata Atlântica, se tornaram valorizadas e populares por causa de Burle Marx.

Sabendo do seu conhecimento em botânica o seu vizinho e amigo, o grande arquiteto modernista, Lucio Costa, convidou Burle Marx a criar projetos de jardins e terraços. Nasceu assim, a relação com Lucio e Niemeyer, que levou Burle Marx a grandes projetos como o Eixo Monumental de Brasília e o terraço-edifício Gustavo Capanema, antigo Ministério da Educação e Cultura no Rio.

Até então nem existia a profissão de paisagista. Burle Marx aliou seu conhecimento em arte, a sua curiosidade obsessiva por plantas e passou a literalmente pintar espaços planejados em residências, fazendas, parques e grandes projetos. Manter essas verdadeiras pinturas vivas não é nada fácil, mas o resultado e a beleza são realmente deslumbrantes. Essa nova forma de projetar chamou a atenção de grandes arquitetos e paisagistas internacionais e Burle Marx tornou-se referência mundial. Precursor do movimento que valorizava as formas orgânicas dos jardins, espaços para contemplação e lazer, seus projetos eram totalmente revolucionários para a época.

Entre os projetos mais famosos estão o paisagismo do Aterro do Flamengo e os calçadões de Copacabana. O calçadão em pedra portuguesa em formato de onda é anterior a Burle Marx. Ele mudou a direção das ondas em seu projeto e incluiu a parte central e da calçada dos prédios. São 4 km de uma obra de arte em pedras portuguesas de diversas cores.

Além de paisagista, Burle Marx foi pintor, escultor, azulejista, desenhava jóias, tapetes, tecidos e cantava maravilhosamente bem opera. Um dos seus maiores legados é o Sítio Burle Marx em Guaratiba, Rio de Janeiro. Esse sítio foi comprado em 1949 e lá, Burle Marx colecionava espécies de plantas de todo o mundo. Pode ser considerado um parque botânico tamanha a quantidade de espécies. Burle Marx fez expedições para buscar espécies por todas as principais regiões brasileiras e trazia mudas de viagens internacionais. Ele viveu nesse sítio a partir de 1973, onde fazia grandes festas com o objetivo de vender quadros e poder manter o espaço. Hoje o patrimônio é do IPHAN e foi doado por Burle Marx, que não tinha herdeiros direto, ainda em vida.

Burle Marx faleceu aos 84 anos em 1994 deixando um legado de mais de 2 mil projetos em seis décadas de produção. O seu estúdio de paisagismo, fundado em 1955, é dirigido até hoje pelo o seu fiel discípulo: Haruyoshi Ono. O Sítio em Guaratiba, a sua maior obra, com as coleções botânica-paisagística, artística, arquitetônica e biblioteca tem uma área de 400 mil m2 e é aberto a visitação. Além das 3.500 espécies de plantas cultivadas, o acervo possuí mais de 3.000 itens, que englobam inclusive a coleção de cerâmicas primitivas pré-colombiana, arte popular brasileira, esculturas e cerâmicas do Vale do Jequitinhonha, parte do acervo pessoal de Burle Marx. Vale muito a visita.

O companheiro de Burle Marx, Cleofas César da Silva é exímio cozinheiro e chef de cozinha e era responsável pelos banquetes que serviam aos convidados no domingo. Até nessas refeições o talento de Burle Marx regia, ele orientava César a sempre fazer saladas bem coloridas. As mesas eram maravilhosamente bem postas e decoradas com folhas de bananeiras e flores do sítio. Em 2008 Cecília Modesto, Claudia Pinheiro e César lançaram o livro, A Mesa com Burle Marx, que retrata 60 receitas repletas de ingredientes exóticos e reconstitui o cenário e a intimidade desse gênio. César recebeu sua parcela na herança e durante muito tempo manteve o César, restaurante especialista em frutos do mar, na região de Guaratiba.

Em Maio de 2016, o Jewish Museum em New York recebe a exposição “Roberto Burle Marx, Brazilian modernist”, que segue em 2017 para Berlim e depois para o MAR no Rio de Janeiro. Nessa exposição 140 obras, entre pinturas, esculturas, cenários, tecidos, projetos de paisagismo, tapeçarias, jóias são apresentadas. Também vale a visita.

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Iberê Camargo, o profundo.

“Minha contestação é feita de renúncia, de não-participação, de não-conivência, de não-alinhamento com o que não considero ético e justo. Sou como aqueles que, desarmados, deitam-se no meio da rua para impedir a passagem dos carros da morte. Esta forma de resistência, se praticada por todos, se constituiria em uma força irresistível. O drama trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais íntima que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo.

Não faço mortalha colorida. Por que sou assim?

Porque todo homem tem um dever social, um compromisso com o próximo.”

Iberê Camargo nasceu na pequena cidade de Restinga Seca, no interior do Rio Grande do Sul em 1914. Estudou artes na vizinha Santa Maria, trabalhou como desenhista técnico em Porto Alegre, onde conheceu e casou com  a sua companheira de toda a vida, Maria Coussirat, também graduada em pintura. Depois da primeira exposição em Porto Alegre em 1942, recebe uma bolsa do seu estado para estudar no Rio de Janeiro.

No Rio, Iberê passa grande parte da sua vida. Cria em 1946 o Grupo Guignard com o amigo Alberto da Veiga Guignard e outros artistas. O grupo dura pouco e em 1948 o casal viaja para Roma, onde Iberê estuda gravura com Carlos Alberto Pretrucci, pintura com De Chirico, materiais com Leoni Augusto Rosa e afresco com Achille. Depois em Paris estuda pintura em André Lhote. Munido do conhecimento que lhe faltava, retornam ao Rio de Janeiro em 1950 e Iberê passa a participar de todos os movimentos importantes da época: I Bienal em São Paulo, Salão Preto e Branco, entre outras diversas exposições individuais e coletivas.

O Salão Preto e Branco alertava ao risco dos pintores brasileiros ficarem sem cores. Iberê era ativista nesse tema, pois considerava imprescindível que a qualidade dos materiais fossem de primeira linha para o artista executar suas obras. As taxas de impostos e as dificuldades de importação, algo bastante comum em qualquer segmento no Brasil, atingiam em cheio as tintas, pigmentos, pincéis, usados pelos artistas.

Durante o primeiro período no Rio de Janeiro, Iberê retrata a paisagem com cores fortes, pinceladas fortes emplastadas (diversas camadas), característica que irá acompanhá-lo durante toda a sua vida. As cores mudam no percurso, os tons de verde da nossa mata, as cores alegres, passam a ser sombrias, preto, cinza, azul escuro, vinho. A vida vai mudando os personagens, os temas, e Iberê fica cada vez mais profundo, até na quantidade de camadas.

Várias situações causam essa mudança. Iberê sempre trabalhou com uma imagem de base, de observação. Quando pintava paisagens e as ruas do Rio frequentava os lugares retratados. Até que teve uma hérnia de disco que o impossibilitou de ficar horas e horas fora do ateliê. Nesse momento a pintura passou a ser feita com modelos e objetos do cotidiano. Os carretéis, uma série bastante extensa, lembravam uma brincadeira de criança da saudosa Restinga Seca. Eram a natureza-morta de Iberê. Depois vieram as bicicletas e as suas almas penadas.

Essa fase pode ser provocada, apesar de não ter referências explicitas, pelo crime e a prisão de Iberê. Em uma discussão de rua no Rio de Janeiro, Iberê matou a tiros uma pessoa em suposta legítima defesa. Esse episódio levou Iberê a prisão por 1 mês e ao ser absolvido em 1982, a família retornou a Porto Alegre.

Faleceu em 1994 e logo no ano seguinte a sua maior admiradora e colecionadora, Maria Coussirat Camargo criou a Fundação Iberê Camargo. Maria doou todo o seu acervo de mais de 7 mil guaches, gravuras, desenhos, pinturas a óleo, além de 20 mil catálogos, recortes, cadernos de notas e matrizes para a Fundação. Até a sua morte em 2014 era a responsável pelo acervo.

Em 2008 a Fundação ganhou um edifício fantástico projetado pelo arquiteto português Álvaro Siza, um dos mais importantes museus do Brasil. Hoje a Fundação, além de administrar o acervo de um dos maiores pintores brasileiros, tem um extenso calendário anual de exposições. Visitar a Fundação Iberê Camargo é programa obrigatório em Porto Alegre.

Entrar no universo de Iberê Camargo não é fácil. A sua obra mais recente causa estranhamento pela tristeza e profundidade dos temas. Para compreender essa profundidade de Iberê assista o curta-documentário “Iberê Camargo em processo”. O vídeo retrata o artista em seu momento mais precioso de criação. Momento mágico onde essas imagens gravadas em seu ateliê, possibilitam entender o processo em camadas e a transformação de cada obra.

Iberê desconstrói as figuras humanas e as paisagens belas e surgem essas obras obscuras e profundas que conhecemos. Difícil de conviver com essas pinturas, mas difícil de não admirá-las, ainda mais depois de entender que partiram do belo. A alma da pintura é desvendada a partir do momento que o belo é transformado nessas pinturas tão sombrias. Simplesmente genial.

 

Sebastião Salgado, o filosofo. O fotografo. O Marco Polo. O olho de dentro do olho do outro. O gênio.

Em Maio de 2013 eu estava no Rio de Janeiro à trabalho e recebi o convite para o lançamento da Genesis de Sebastião Salgado. Teria a inauguração da exposição no Jardim Botânico e outro evento na Galeria Tempo. Não fui a nenhum dos dois. A Dilea, minha grande amiga, me levou para assistir um show no Espaço Tom Jobim, local deslumbrante no Horto do Rio, antes de irmos para as exposições. Acontece que o show da Bianca Gismonti era tão absurdo de bom, o melhor show de música brasileira que assisti nos últimos tempos, que não deu para sair no meio, ficamos até o final. Perdemos o Salgado, mas eu ganhei a Bianca Gismonti na minha vida. A doce e linda Bianca, excelente cantora, compositora, pianista virtuosa, filha do também virtuoso Egberto.

Logo em seguida na ArtRio, também no Rio de Janeiro, a Taschen tinha o livro em formato gigante em seu stand na feira. A minha obsessão na época era a nossa feira que teria sua primeira edição naquele ano, outra vez vi e não vi a Genesis.

Esse assunto está na minha cabeça desde então.

Em 1997 eu conheci os Trabalhadores, livro que faz parte da minha coleção. Não lembro se conheci Salgado, pode até ser. Não sei se foi o Washigton que me introduziu a ele, pode até ser, pois a W/ era muito próxima da Cia. das Letras, editora do livro. Não lembro se fui na exposição de Trabalhadores, tenho uma lembrança de algo na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Pode até ser. O que tenho certeza é que esse livro me marcou. Marcou por serem as fotografias mais fortes e impressionantes que eu já tinha visto ou vi do ser humano. Em Trabalhadores, Salgado retrata o que a Revolução Industrial provocou ao principal animal que habita esse planeta. A corrida desenfreada por dinheiro independente das condições para obtê-lo. Quer seja perdido entre milhares nas imagens fortíssimas de Serra Pelada, quer seja em Minas de carvão e minério. Tudo para enriquecer pouco e escravizar muitos. Nunca mais comprei um livro de Salgado, fiquei tão chocada com Trabalhadores e Terra, que não conseguia nem folhear as outras, como ela chama, reportagens.

Nesse último domingo, o documentário sobre a vida de Sebastião Salgado concorreu ao tão sonhado um-dia-vamos-ter-o-Oscar-brasileiro. The Salt of Earth, foi dirigido por Wim Wenders e por Juliano Salgado, filho de Sebastião. Na última sexta-feira no meio das barbáries das notícias do Jornal Nacional, eu me pego concentrada na frase de Juliano Salgado: “Eu precisei fazer esse documentário para entender meu pai. Um pai ausente. Que na minha visão de filho sempre me abandonava em busca de novas aventuras. Fui atrás dele, participar dessas aventuras e descobri meu pai.”. Achei muito bonito e da sexta até hoje de manhã a minha cabeça está repleta de Salgado. Assisti o documentário, mesmo com áudio em inglês, francês e português, legenda em espanhol.  Terminou e meu cérebro tinha dado um nó de tanta língua e tanta informação. Assisti dezenas de entrevistas, outros documentários, li tudo que encontrei. Revi meus Trabalhadores e todas as fotos. Fiquei triste que o documentário não ganhou o Oscar, mas eu ganhei um absurdo de conhecimento sobre o ser humano, nosso planeta, sobre a vida.

Sebastião Salgado nasceu em Aimorés (Minas Gerais), em 1944. Foi criado em uma fazenda circundada por uma imensa Mata Atlântica. Essa fazenda dava toda a subsistência para a família de Sebastião e suas seis irmãs. Tudo era tirado da terra. Aos 15 anos Sebastião foi para Vitória completar o segundo grau e pela primeira vez se deparou com a cidade grande e com algo chamado dinheiro. Até então nunca precisou de dinheiro para comprar comida. De Vitória veio para São Paulo onde se formou em Economia na USP. Conheceu sua Lélia. Mulher que o acompanha a mais de 50 anos. Sua melhor amiga, sua agenda, sua administradora, sua curadora, sua esposa e mãe dos seus dois filhos. Na verdade Sebastião Salgado é a dupla Sebastião-Lélia. Os dois jovens enveredaram pelos movimentos de esquerda da época da Ditadura, e em 1969 perceberam que o clima era muito pesado por aqui e resolveram imigrar para França. Foram de navio para Paris. Em Paris Salgado fez mais cursos de economia, mestrados, e foi contratado pela Organização Mundial do Café para fazer alguns trabalhos na Africa. Assim começou seu contato com a realidade dos países africanos. Lélia se formou em arquitetura e um dia comprou uma câmera fotográfica com lentes especiais. Em uma dessas viagens Sebastião resolveu levar a câmera e ao voltar e mostrar as fotografias para Lélia, ela ficou maravilhada com o olhar do marido. Depois de um tempo, os dois resolveram abandonar as carreiras e se dedicar a esse olhar de Sebastião. Nessa época com 29 anos de idade, bem sucedido, Sebastião começou de novo. Foram atrás de agências de notícias, principais revistas e jornais, até que conseguiram o contrato com a Sygma em 1973. Nos primeiros anos o trabalho de foto-jornalismo rendeu fotos marcantes como o atentado a Ronald Regan e várias fotos da miséria na Africa. Com um certo capital e sucesso como foto-jornalista, o casal, resolveu investir no que eles chamam de reportagens. Escolhiam um tema e durante anos de pesquisas, dezenas de viagens, períodos longos em contato com outras culturas e povos, esse material era compilado em exposições, livros, palestras e divulgado no mundo todo. Foi assim que nasceram: Outras Américas, Trabalhadores,Terra,  Êxodos, Genesis, entre outros trabalhos.

Essas expedições, dignas de Marco Polo, são organizadas por Salgado e Lélia através de muita pesquisa para definir o tema e de um tremendo trabalho de logística. Normalmente os trabalhos levam uns 8 anos para serem concluídos. Sebastião fica muitas vezes dois a três meses convivendo nas regiões que visita. Sebastião conhece mais de 130 países, talvez seja o ser humano que mais viveu experiências com outros seres humanos em profundidade. Essa profundidade trouxe para Sebastião um conhecimento da nossa espécie inacreditável. E muita frustração. Frustração essa que o deixou doente, depois de um período largo em Ruanda onde estava registrando imagens para o seu Êxodus. Êxodus retrata o sofrimento dos refugiados de várias situações de guerra e perseguições em diferentes países. Em Ruanda, em 1996, Salgado presenciou o sofrimento e a morte de centenas de milhares de refugiados, eram mais de 2 milhões, era um mar de gente desnutrida, sem a menor condição de higiene, de vida, morrendo aos milhares pelas ruas. As fotos desse período são extremamente fortes. Essa força e triteza que nos atormenta pelas fotos, deixou Salgado doente. Voltou para Paris, desacreditado da humanidade. “Como nós os animais teoricamente mais inteligentes podíamos cometer tamanha barbárie? como podíamos conviver com essa barbárie toda?” ele não podia mais.

Nessa mesma época seu pai o salvou desse descrédito da humanidade. Seu Sebastião, pai, como o mesmo nome e feição, estava bastante velhinho e resolveu doar em vida a fazenda onde seu único filho homem tinha sido criado. Ao retornar a sua casa, Salgado se assustou com a erosão das terras. “Onde esta a Mata Atlântica?”, tinha desaparecido por completo. Foi quando sua iluminada Lélia teve a idéia de eles replantarem a floresta. Assim nasceu o Instituto Terra. As fotos de como estava e de como está hoje a área são impressionantes. Com esse trabalho Sebastião resgatou sua vontade de viver e resolveu atentar para outro olhar. O olhar do que ainda temos de bom e que devemos cuidar. Foi assim que surgiu a idéia da reportagem Genesis. Pela primeira vez, Salgado iria retratar outros animais que não fossem os humanos. A pesquisa revelou que ainda temos 47% da terra intacta, sem ter sofrido interferência humana. E foi atrás dessas áreas com menor interferências, de civilizações que sofreram os menores contatos e de animais, que Sebastião foi atrás. Foram oito anos de aventuras. No Brasil, Salgado apenas me ratificou algo que sempre me chamou atenção em relação aos indígenas brasileiros. Ao meu ver, as comunidades indígenas brasileiras  são extremamente não evoluídas, brinco que não construíram pirâmides, ainda estão na época da mandioca. Mas quem sabe seja essa a verdadeira evolução? saber preservar tudo ao seu redor. E foi isso que Salgado também percebeu, que essas comunidades vivem em perfeita harmonia com a natureza, retirando o mínimo que precisam para sobreviver, realizando seus cultos, suas festas, felizes com a sua cultura e seu modo de vida. Não acredito que o índio sofra de depressão, ansiedade ou qualquer outra doença que criamos por conta dessa nossa vida totalmente sem limites. Nessas áreas a Mata Atlântica permanece intacta.

Viver com Salgado esses dias me trouxe a tona várias questões filosóficas sobre a vida e como a fotografia pode transmitir histórias completas em um clique que é apenas uma fração de um segundo.

Bom dia!

Encaixotando Farnese de Andrade.

Nasceu em Araguari, MG, em 1926. Mudou-se com a família para BH onde estudou com Guignard. Farnese teve uma formação clássica em arte e desenvolveu a técnica da ilustração e gravura. Passou um grande período trabalhando como ilustrador de revistas famosas como Cruzeiro e Manchete. Na década de 60 já morando no Rio de Janeiro, Farnese passou a colecionar objetos encontrados na orla do mar, como conchas e mariscos, e outros garimpados em antiquários, desmanches e outros tipos de lojinhas.

A partir de então a sua obra passou a ser feita com esses objetos em assemblages, sempre em formato de caixa, oratórios, gamelas de vidros ou objetos resinados para serem perpetuados. A psique de Farnese foi ficando cada vez mais perturbada ao ponto do artista criar para si mesmo. Vivia ao redor dessa coleção e dessas “caixas”, que lembram úteros, pois cada uma contém uma parte da nossa formação: o nascimento, a sexualidade, a religião, a morte, a angústia, o sofrimento. A sua obra é carregada de morbidez, muitas vezes perversa e violenta.

Farnese era homossexual e muito solitário. Não queria ter filhos e não gostava de crianças, achava que a vida era a maior representação do ato da morte. Afinal ao nascer a única certeza que temos é que vamos morrer.  Era diagnosticado com depressão bipolar, que o fazia tomar doses diárias de lítio. Acabou morrendo envenenado com o próprio medicamento em 1996, no Rio de Janeiro. Entre 70 e 75 viveu em Barcelona, onde também exercitou esse ato colecionista. A sua criação é tão única que fica difícil qualificar a obra, dadaísta, surrealista, pós-moderna, talvez farnesiana. Goya teve esse período com a sua fase negra, mas em pinturas, também bastante assustadoras. Então esquecendo os movimentos artísticos, vamos pensar em Farnese como um artista repleto de conflitos pessoais.

A obra de Farnese é muito forte. Eu diria inesquecível. Gostando ou não você fica marcado por essas caixas. Mesmo os quadros tem essa mesma força. Nem tudo tem que ser agradável e conhecer Farnese é conhecer uma mente genial, que consegue “congelar” momentos da vida como se fossem quadrinhos tridimensionais de terror através dessas assemblages. A sensação que eu tenho é que Farnese colocava essa suas angústias para fora a cada caixa. “Pronto, ta aí na caixa. Melhor aí que dentro de mim. E vocês que convivam com isso agora. “ – Provoca qualquer um, pois todos temos as mesmas ou algumas dessas angústias.

Até 11 de Janeiro, a CAIXA Cultural de Brasília recebeu a exposição – Farnese de Andrade – Arqueologia Existencial, curada por  Marcus de Lontra Costa. Vamos ver se vem para São Paulo. Farnese na CAIXA.

Alberto da Veiga Guignard, a eterna criança grande.

Nasceu em 1896 em Nova Friburgo. Aos 11 anos mudou-se com a mãe, a irmã e o padrasto para a Alemanha. Guignard nasceu com os lábios leporinos. Essa deficiência, que na época não tinha cirurgia, dificultava a sua fala, a alimentação e ainda lhe trazia problemas de auto-estima. Estudou artes em Munique, morou em Paris e Florença. Perdeu a mãe e a irmã ainda morando na Europa e resolveu voltar ao Brasil aos 34 anos de idade. Pouco se sabe desse grande período que Guignard morou na Europa. Parece que se casou e se separou no dia do casamento. Participou de salões de arte importantes e foi o primeiro brasileiro a participar da Bienal de Veneza. Os catálogos constam seu nome, mas não se tem o registro das obras. Chegou ao Rio de Janeiro com uma mão na frente outra atrás, praticamente sem nenhuma obra. Se encantou com o Jardim Botânico, onde montou seu atelier. Sempre foi um apaixonado por paisagens de montanha, tanto que suas obras sempre retratam montanhas mesmo morando no Rio, nunca o mar. Passou uma temporada em Itatiaia até que Juscelino Kubitschek o convidou a formar uma escola de arte em Belo Horizonte. A Escola Guignard existe até hoje e formou e ainda forma importantes artistas brasileiros. Sempre foi um ótimo instrutor intuitivo. Passaram por suas mãos Iberê Camargo, Almícar de Castro, Farnese de Andrade, entre outras figuras importantes.

A vida de Guignard é repleta de episódios pitorescos e melancólicos. Em 1932, aos 36 anos de idade, conheceu em um concerto do Theatro Municipal a estudante de música Amalita Fontenelle, onze anos mais jovem e de Campinas. Durante 5 anos Guignard escreveu para a sua paixão platônica, cartões e mais cartões em praticamente todas as datas comemorativas. Cartões desenhados e contornados por frases de amor, dedicatórias e poesias. Chegaram a trocar cartas, mas os cartões nunca foram enviados. Esses 121 cartões foram reunidos em um álbum e doado, ainda em vida, para o poeta Oswald de Andrade. Hoje fazem parte do acervo da Casa Guignard em Ouro Preto e refletem a timidez de Guignard para expressar os seus sentimentos.

Ao perguntar a Guignard como ele sabia que havia terminado um quadro. Ele respondeu: “- Quando ele faz ” Tiiim…”. O artista é sempre retratado pelos amigos e alunos como um menino ingênuo. Uma pessoa muito simples desprovida de bens materiais. Vivia perambulando de casa em casa de amigos, com uma pequena malinha e um livro de Da Vinci. No aperto, vendia quadros por qualquer preço para comer.

Guignard foi um grande retratista. Até hoje seu acervo não foi catalogado mas estima-se mais de 700 retratos e um total de mais de 2.000 obras. Era um pintor compulsivo, como Portinari, pintava o tempo todo. Várias vezes os modelos não gostavam do retrato. E ele dizia: “Daqui a 40 anos, quem vai saber como você era…”. Tal feito, aconteceu com o próprio JK que encomendou seu retrato e não gostou, deu de presente para sua irmã, que colou um cartaz na obra. Essa obra foi recuperada depois para uma exposição.

Outra cena constante nos seus quadros são os balões de São João. Parece que Guignard pintava esse tipo de quadro uma vez por ano na época do aniversário do seu pai, pois era justo em São João, como uma homenagem. Guignard não era um intelectual, apesar de ser culto e de ser o brasileiro modernista com a mais consistente e longa formação acadêmica europeia. Era amigo de Portinari, Cecilia Meireles, entre outras personalidade importantes da época.

As telas de Guignard sempre retratam alguma paisagem, mesmo nos retratos. A forma como ele pintava era também peculiar, ele começava pelo céu e ia descendo até completar totalmente a tela com uma paisagem e depois ia colocando igrejas, casas e pessoas. Talvez por isso que temos a sensação que os objetos estão sempre voando na tela. Outro ponto interessante é que Guignard gostava de pintar sobre a madeira e no final de sua carreira foi abandonando os excessos de tinta e de informação na tela, criando cenas que lembram aquarelas de um universo onírico. Normalmente as paisagens e os retratos eram criações da sua cabeça, o lirismo de Guignard, inspirados pela cena observada. Além de paisagens e retratos, Guignard pintou vasos e vasos de flores inspirados no vaso de girassol de Van Gogh. Parecia uma homenagem ao pintor que ele admirava tanto. Eram as únicas telas intensas em cores.

O universo de Guignard é realmente fascinante. A vida de um artista engrandece e muito sua obra. Morreu pobre de ataque cardíaco em Ouro Preto. Hoje sua obra é bastante valorizada em leilões e faz parte do acervo dos principais museus e colecionadores brasileiros. Guignard, assim como Portinari, Tarsila e Di Cavalcanti é considerado um dos maiores pintores modernistas e o que mais retratou o Brasil na sua mais pura ingenuidade.

“Eterna criança grande, Guignard conservou a ingenuidade, o lirismo e a frescura da infância, como se a vida e o tempo por ele tivessem passado impunemente, deixando-o intacto”. falou a escritora e amiga do artista Lucia Machado de Almeida

Quando já tinham serenado as barricadas dos paulistas, Alberto da Veiga Guignard voltou da sua longa estadia na Europa, em cujas escolas de arte decorreu toda a sua juventude. Pois bem, Guignard que é dos pintores brasileiros o que recebeu mais longe formação européia, é justamente um dos representantes mais autênticos do espírito regional da pintura brasileira. Dono de uma técnica apuradíssima nos anos de estudo na Europa, ele é, todavia, a negação do espírito de virtuosismo. Há na sua pintura uma espécie de ingenuidade que não vem da deficiência de técnica, mas do sentimento com que contempla a paisagem nativa, sobretudo a das velhas cidades de fisionomia colonial. Ele nos transporta evidentemente ao âmago do Brasil, e sua pintura tem uma nota enormemente enternecedora e íntima, cujo segredo é perceptível a qualquer coração brasileiro. Esse grande lírico é o primeiro nome de importância que encontramos na fase que poderíamos chamar de ‘post-modernismo’, indicando um caminho já consolidado”.  escreveu Ruben Navarra em 1943, no ensaio “Iniciação à Pintura Brasileira Contemporânea”, escrito originalmente para ser publicado como apresentação da mostra de pintura moderna brasileira na Royal Academy of Art em Londres, em benefício da RAF (Royal Air Force) em 1944

Por Iberê Camargo, o mestre “não era um intelectual, era instinto puro… intuição pura. Era um artista profundamente intuitivo”

“Nasceu em Nova Friburgo, em 25 de fevereiro de 1896, feio como todo recém-nascido.
Estudou em Munique, na Real Academia de Belas Artes, onde aprendeu desenho e amou.
De acadêmico passou a moderno, após ter visto uma exposição de arte moderna alemã: o modernismo o fascinou.
Em 1930 veio para o Brasil, onde teve um choque com o ambiente artístico, bem atrasado em relação à Europa. Abriu seu ateliê no Jardim Botânico, entre a vegetação e milhares de mosquitos.
Veio para Belo Horizonte, a chamado do então prefeito Juscelino Kubitschek, e daqui se enamorou desde o primeiro dia da paisagem.
Fundou a Escolinha de Guignard, que tem vivido por milagre e amor de alunos e mestres, e aqui ensinou arte a diversas gerações de jovens. Adora ser cercado pela juventude, principalmente moças bonitas, e Ouro Preto é a sua cidade amor-inspiração”.
Guignard
(Guignard por ele mesmo. Pequeno texto autobiográfico no catálogo da exposição Guignard, no Museu de Arte da Prefeitura de Belo Horizonte. Junho de 1961.)

Em cartaz no MAR, Rio de Janeiro – Guignard e o Oriente, entre o Rio e Minas

11/11/2014 a 26/04/2015 – curadoria de Priscila Freire, Marcelo Campos e Paulo Herkenhoff,

e em julho no MAM, São Paulo –Alberto da Veiga Guignard

9 jul – 11 set – curadoria de Paulo Sérgio Duarte

A Casa Guignard fica em Ouro Preto aberta para visitação, curada pela Priscila Freire, grande especialista em Guignard.