Sebastião Salgado, o filosofo. O fotografo. O Marco Polo. O olho de dentro do olho do outro. O gênio.

Em Maio de 2013 eu estava no Rio de Janeiro à trabalho e recebi o convite para o lançamento da Genesis de Sebastião Salgado. Teria a inauguração da exposição no Jardim Botânico e outro evento na Galeria Tempo. Não fui a nenhum dos dois. A Dilea, minha grande amiga, me levou para assistir um show no Espaço Tom Jobim, local deslumbrante no Horto do Rio, antes de irmos para as exposições. Acontece que o show da Bianca Gismonti era tão absurdo de bom, o melhor show de música brasileira que assisti nos últimos tempos, que não deu para sair no meio, ficamos até o final. Perdemos o Salgado, mas eu ganhei a Bianca Gismonti na minha vida. A doce e linda Bianca, excelente cantora, compositora, pianista virtuosa, filha do também virtuoso Egberto.

Logo em seguida na ArtRio, também no Rio de Janeiro, a Taschen tinha o livro em formato gigante em seu stand na feira. A minha obsessão na época era a nossa feira que teria sua primeira edição naquele ano, outra vez vi e não vi a Genesis.

Esse assunto está na minha cabeça desde então.

Em 1997 eu conheci os Trabalhadores, livro que faz parte da minha coleção. Não lembro se conheci Salgado, pode até ser. Não sei se foi o Washigton que me introduziu a ele, pode até ser, pois a W/ era muito próxima da Cia. das Letras, editora do livro. Não lembro se fui na exposição de Trabalhadores, tenho uma lembrança de algo na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Pode até ser. O que tenho certeza é que esse livro me marcou. Marcou por serem as fotografias mais fortes e impressionantes que eu já tinha visto ou vi do ser humano. Em Trabalhadores, Salgado retrata o que a Revolução Industrial provocou ao principal animal que habita esse planeta. A corrida desenfreada por dinheiro independente das condições para obtê-lo. Quer seja perdido entre milhares nas imagens fortíssimas de Serra Pelada, quer seja em Minas de carvão e minério. Tudo para enriquecer pouco e escravizar muitos. Nunca mais comprei um livro de Salgado, fiquei tão chocada com Trabalhadores e Terra, que não conseguia nem folhear as outras, como ela chama, reportagens.

Nesse último domingo, o documentário sobre a vida de Sebastião Salgado concorreu ao tão sonhado um-dia-vamos-ter-o-Oscar-brasileiro. The Salt of Earth, foi dirigido por Wim Wenders e por Juliano Salgado, filho de Sebastião. Na última sexta-feira no meio das barbáries das notícias do Jornal Nacional, eu me pego concentrada na frase de Juliano Salgado: “Eu precisei fazer esse documentário para entender meu pai. Um pai ausente. Que na minha visão de filho sempre me abandonava em busca de novas aventuras. Fui atrás dele, participar dessas aventuras e descobri meu pai.”. Achei muito bonito e da sexta até hoje de manhã a minha cabeça está repleta de Salgado. Assisti o documentário, mesmo com áudio em inglês, francês e português, legenda em espanhol.  Terminou e meu cérebro tinha dado um nó de tanta língua e tanta informação. Assisti dezenas de entrevistas, outros documentários, li tudo que encontrei. Revi meus Trabalhadores e todas as fotos. Fiquei triste que o documentário não ganhou o Oscar, mas eu ganhei um absurdo de conhecimento sobre o ser humano, nosso planeta, sobre a vida.

Sebastião Salgado nasceu em Aimorés (Minas Gerais), em 1944. Foi criado em uma fazenda circundada por uma imensa Mata Atlântica. Essa fazenda dava toda a subsistência para a família de Sebastião e suas seis irmãs. Tudo era tirado da terra. Aos 15 anos Sebastião foi para Vitória completar o segundo grau e pela primeira vez se deparou com a cidade grande e com algo chamado dinheiro. Até então nunca precisou de dinheiro para comprar comida. De Vitória veio para São Paulo onde se formou em Economia na USP. Conheceu sua Lélia. Mulher que o acompanha a mais de 50 anos. Sua melhor amiga, sua agenda, sua administradora, sua curadora, sua esposa e mãe dos seus dois filhos. Na verdade Sebastião Salgado é a dupla Sebastião-Lélia. Os dois jovens enveredaram pelos movimentos de esquerda da época da Ditadura, e em 1969 perceberam que o clima era muito pesado por aqui e resolveram imigrar para França. Foram de navio para Paris. Em Paris Salgado fez mais cursos de economia, mestrados, e foi contratado pela Organização Mundial do Café para fazer alguns trabalhos na Africa. Assim começou seu contato com a realidade dos países africanos. Lélia se formou em arquitetura e um dia comprou uma câmera fotográfica com lentes especiais. Em uma dessas viagens Sebastião resolveu levar a câmera e ao voltar e mostrar as fotografias para Lélia, ela ficou maravilhada com o olhar do marido. Depois de um tempo, os dois resolveram abandonar as carreiras e se dedicar a esse olhar de Sebastião. Nessa época com 29 anos de idade, bem sucedido, Sebastião começou de novo. Foram atrás de agências de notícias, principais revistas e jornais, até que conseguiram o contrato com a Sygma em 1973. Nos primeiros anos o trabalho de foto-jornalismo rendeu fotos marcantes como o atentado a Ronald Regan e várias fotos da miséria na Africa. Com um certo capital e sucesso como foto-jornalista, o casal, resolveu investir no que eles chamam de reportagens. Escolhiam um tema e durante anos de pesquisas, dezenas de viagens, períodos longos em contato com outras culturas e povos, esse material era compilado em exposições, livros, palestras e divulgado no mundo todo. Foi assim que nasceram: Outras Américas, Trabalhadores,Terra,  Êxodos, Genesis, entre outros trabalhos.

Essas expedições, dignas de Marco Polo, são organizadas por Salgado e Lélia através de muita pesquisa para definir o tema e de um tremendo trabalho de logística. Normalmente os trabalhos levam uns 8 anos para serem concluídos. Sebastião fica muitas vezes dois a três meses convivendo nas regiões que visita. Sebastião conhece mais de 130 países, talvez seja o ser humano que mais viveu experiências com outros seres humanos em profundidade. Essa profundidade trouxe para Sebastião um conhecimento da nossa espécie inacreditável. E muita frustração. Frustração essa que o deixou doente, depois de um período largo em Ruanda onde estava registrando imagens para o seu Êxodus. Êxodus retrata o sofrimento dos refugiados de várias situações de guerra e perseguições em diferentes países. Em Ruanda, em 1996, Salgado presenciou o sofrimento e a morte de centenas de milhares de refugiados, eram mais de 2 milhões, era um mar de gente desnutrida, sem a menor condição de higiene, de vida, morrendo aos milhares pelas ruas. As fotos desse período são extremamente fortes. Essa força e triteza que nos atormenta pelas fotos, deixou Salgado doente. Voltou para Paris, desacreditado da humanidade. “Como nós os animais teoricamente mais inteligentes podíamos cometer tamanha barbárie? como podíamos conviver com essa barbárie toda?” ele não podia mais.

Nessa mesma época seu pai o salvou desse descrédito da humanidade. Seu Sebastião, pai, como o mesmo nome e feição, estava bastante velhinho e resolveu doar em vida a fazenda onde seu único filho homem tinha sido criado. Ao retornar a sua casa, Salgado se assustou com a erosão das terras. “Onde esta a Mata Atlântica?”, tinha desaparecido por completo. Foi quando sua iluminada Lélia teve a idéia de eles replantarem a floresta. Assim nasceu o Instituto Terra. As fotos de como estava e de como está hoje a área são impressionantes. Com esse trabalho Sebastião resgatou sua vontade de viver e resolveu atentar para outro olhar. O olhar do que ainda temos de bom e que devemos cuidar. Foi assim que surgiu a idéia da reportagem Genesis. Pela primeira vez, Salgado iria retratar outros animais que não fossem os humanos. A pesquisa revelou que ainda temos 47% da terra intacta, sem ter sofrido interferência humana. E foi atrás dessas áreas com menor interferências, de civilizações que sofreram os menores contatos e de animais, que Sebastião foi atrás. Foram oito anos de aventuras. No Brasil, Salgado apenas me ratificou algo que sempre me chamou atenção em relação aos indígenas brasileiros. Ao meu ver, as comunidades indígenas brasileiras  são extremamente não evoluídas, brinco que não construíram pirâmides, ainda estão na época da mandioca. Mas quem sabe seja essa a verdadeira evolução? saber preservar tudo ao seu redor. E foi isso que Salgado também percebeu, que essas comunidades vivem em perfeita harmonia com a natureza, retirando o mínimo que precisam para sobreviver, realizando seus cultos, suas festas, felizes com a sua cultura e seu modo de vida. Não acredito que o índio sofra de depressão, ansiedade ou qualquer outra doença que criamos por conta dessa nossa vida totalmente sem limites. Nessas áreas a Mata Atlântica permanece intacta.

Viver com Salgado esses dias me trouxe a tona várias questões filosóficas sobre a vida e como a fotografia pode transmitir histórias completas em um clique que é apenas uma fração de um segundo.

Bom dia!

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Portugal.

Agosto de 1989. Algum “puente” ou feriado longo: 4 dias. Ivar e Ana Cristina, os únicos motorizados da turma, vieram buscar eu e a Magda na Calle Fernando el Católico. Prontos para zarpar. A viagem iria começar por Coimbra. Missão: Levar o nosso amigo português João Pá, apelido carinhoso, para passar o feriado na casa da sua família em Tomar. Cinco pessoas em um carro que depois seria abandonado nas ruas de Madrid, pois a manutenção não compensava e não iria passar na inspeção anual de veículos. Motorista: Ivar.

E assim fomos à Portugal. Essa região de Castilla y Leon é muito árida. O caminho até Coimbra, nosso primeiro destino, era desértico. Passando a fronteira para Portugal, o cenário muda e fica tudo verde, um verde bem parecido com o Brasil. Exuberante. Em Coimbra se encontra a Universidade de Coimbra, fundada em 1292, é uma das mais antiga da Europa e fiquei encantada com a construção. Gostei tanto que queria estudar lá. Logo de cara nos deparamos com a lógica reversa dos portugueses. Falar a mesma língua e não se entender é muito do esquisito. Algumas palavras como cú que quer dizer pescoço, podem te atrapalhar, mas o que pega mesmo é a construção das frases. O português é muito simpático, extremamente solicito com turistas, pelo menos naquela época, mas nós nos comportamos muito mal. Não tinha como não cair na gargalhada. As famosas histórias que todos os brasileiros passam em Portugal, óbvio que aconteceram conosco. Você pergunta uma coisa e a resposta normalmente é outra, ou é a resposta da pergunta literal que você fez. Aconteceu isso uma vez, duas vezes, na terceira nós dávamos risada antes de perguntar. Lembrem-se não existiam aparatos eletrônicos e internet, nós parávamos o tempo todo para perguntar. Feio. Bando de brasileiros mal educados. Rs Rs Rs.

De Coimbra fomos para Fátima. Todos eram católicos, menos eu, judia que tinha saído praticamente do gueto judaico de São Paulo: Peretz, Hebraica e algum movimento juvenil judaico, para Espanha. Há 25 anos atrás, a Espanha era um país genuinamente espanhol. A inquisição e outras guerras, tinham afugentado árabes, judeus e outros povos, durante anos de perseguição. E sobrou basicamente espanhóis. Nada de japonês, chinês, indu, negro, loiro. Todos eram espanhóis, cabelos negros, olhos negros. Hoje a realidade em países europeus é totalmente diferente. Cheguei em Madrid e descobri que tinham menos de 2.000 judeus vivendo na Espanha.

Voltando a Fátima. Fátima é um importante santuário cristão. Local de peregrinação. Milhares de pessoas do mundo todo vão a Fátima para cumprir promessas. Lembro de ter ficado chocada em ver senhoras velhinhas subindo de joelhos as rampas para o santuário. Foi uma experiência bem estranha. Eu mal tinha entrado em uma igreja, não conhecia Israel, e fui parar em Fátima. Eu fiquei mais chocada com essas cenas de sacrifício das pessoas, como subir de joelhos ou outras promessas, do que com a energia espiritual do lugar.

De Fátima fomos deixar o João Pá em Tomar. Estava acontecendo uma festa na pequena cidade que lembrava uma quermesse. A cidade era uma graça. Aliás Portugal é um país muito bonito. A comida então nem se fala, éramos jovens, duros e em qualquer lugar que parávamos para comer, comia-se maravilhosamente bem. Deixamos o João com a família, depois de curtir a festa, claro, e fomos para Lisboa.

Chegamos em Lisboa e já era de noite e tínhamos que encontrar o albergue da cidade. As instruções do mapa não eram tão precisas, e o nosso querido motorista, Ivar, deu várias voltas e nada de achar. Até que ele parou na frente de um restaurante que estava aberto e pediu para eu e a Magda irmos lá perguntar onde ficava a tal rua. A entrada do restaurante era um corredor e não dava para ver a rua. Fomos até o fundo e perguntamos: “Por favor, onde fica a rua tal?”. A pessoa respondeu: “Longe, muito longe”. Perguntamos de novo: “Mas onde fica?. A pessoa respondeu de novo: “É longe, bem longe. Oras pois.” Outra vez: “Mas o Senhor poderia explicar onde fica?”. E de novo: “Longe.”. Caspita. Mais uma: “Por favor, nossos amigos estão esperando no carro e vai fechar o albergue, onde fica a rua?”. Resposta: “Pois, vocês estão de carro? ah então é perto.” E explicou o caminho. Eu e a Magda nos seguramos para não dar mais uma daquelas gargalhadas da falta de entendimento com os portugueses. Taí um exemplo, teria que falar, estou de carro e quero ir até um lugar, a pessoa achou que nós estávamos a pé. Bom, nunca entendi essa lógica, mas deve ser por aí.

O albergue era sinistro, um horror. Daqueles que você dorme agarrado na mochila. Em 89, Lisboa não era uma cidade limpinha e segura, vimos até um tiroteio. Era bem escura e perigosa, mas pitoresca. Para nós brasileiros, era normal, como sempre a nossa referência de perigo é sempre pior. De Lisboa fomos para Oeiras lembro de termos ficado em um albergue bárbaro, Catalezete, de frente ao mar. Maravilhoso, mais parecia um hotel 5 estrelas, ou talvez, 4, ou quem sabe 3. Ganhei até um passaporte de albergue que guardo até hoje e meu primeiro carimbo. Fomos para Sintra. Tinha tido um incêndio na mata, muito triste ver a mata toda queimada. Sintra é um deslumbre. Fomos para o Cabo da Roca que tem o mirante do ponto do Atlântico na Europa considerado o mais próximo das Américas. Estivemos em Cascais e retornarmos a Lisboa, dessa vez o João foi nos encontrar e passeamos juntos pela cidade. Fizemos um caminho diferente na volta e passamos pelas ruínas em Mérida. E finalmente chegamos em Madrid, depois de mais de 1.500km em apenas 4 dias.

Essa viagem foi inesquecível para mim. Lembro até hoje das gargalhadas. Mesmo com pouca grana, nos divertimos muito. Mas eu nunca mais voltei a Portugal, apesar de ter adorado. Tenho muita vontade de repetir. Quem sabe não marcamos outra com as mesmas pessoas? que tal Magda? que tal Cris e Ivar? e você João recebe a gente?

A nossa maior riqueza.

Em 1989 participei de uma seleção para estágios no exterior e consegui uma das três vagas para brasileiros na Arthur Andersen de Madrid. As outras duas vagas foram preenchidas pela Vivi e pelo Ivar. O Ivar morava nessa época na Suécia e tinha acabado de convencer a namorada de ir morar com ele. Há 25 anos atrás para a família brasileira morar junto era a morte. Como assim? não vão casar? A Ana Cristina tinha acabado de se formar em psicologia na Puc do Rio e o amor a levou a aceitar ir morar em um país gelado, totalmente diferente da nossa realidade.

Ao chegar em Stockolmo, o Ivar lhe comunicou que em três dias eles estavam descendo de carro em direção a Madrid, pois ele tinha conseguido um estágio na famosa Arthur Andersen. “Madrid?”, ela disse, “mas eu vim para Suécia. Com tudo organizado, visto, etc. Como vou para Madrid?” Provavelmente o Ivar imaginou que seria mais fácil para ela, acho eu. Além da oportunidade de trabalhar na maior consultoria do mundo. Menos frio, sangue parecido com o latino. E foi assim que conheci eles.

Quando cheguei em Madrid fui direto para uma residência de estudantes que me recomendaram, onde becarios (ou estagiários em espanhol) do mundo todo passavam o verão, durante as férias dos estudantes das universidades madrilleñas. Um belo dia, uma brasileira muito simpática, sorridente e muito falante apareceu na residência para perguntar se tinha alguém interessado em dividir um apartamento com ela. A Cristina morava em Madrid fazia quase um ano e trabalhava com comércio exterior no escritório da Perdigão, ou melhor, era a responsável pelo escritório da Perdigão em Madrid. E foi assim que conheci a mineirinha mais querida, a Cris Cotta.

Esse final de semana, a Cris de BH fez 50 anos e promoveu uma festa bem animada para mais de 100 pessoas em seu paraíso lá em Rio Acima. Rio Acima é uma cidade muito perto de BH, que fica no meio das montanhas e segundo ela tem esse nome, pois o rio sobe ao invés de descer. A sua casa fica em um condomínio que só existe por lá. Antigamente era uma grande fazenda, no meio de uma mata bastante generosa, com montanhas, lagos e várias cachoeiras naturais. Indescritível de lindo. E assim ela conseguiu levar pessoas de todas as fases da sua vida para desfrutar de um almoço bem mineiro em pleno domingo ensolarado para o seu paraíso.

Faziam 25 anos que não encontrava a Ana Cristina, a Cris do Ivar, apesar de morarmos na mesma cidade. Nos reencontramos nessa sexta-feira no Aeroporto de Congonhas a caminho da festa. Passar esses dias com as duas Cris, me fez lembrar como é importante a amizade. Conversamos tanto, demos tanta risada lembrando das nossas aventuras em Madrid, encontramos até algumas pessoas no FB para participarem virtualmente dessa alegria toda. A Magda de Santa Maria, a Vivi que hoje mora em Brotas, o João em Lisboa. Foram meses intensos, em uma época que as telecomunicações eram bem precárias. Não tínhamos grana para falar com nossas famílias pelo telefone. Éramos todos muito jovens em nossa primeira experiência fora de casa. Essa situação nos permitiu uma cumplicidade absurda, uma amizade profunda, que não tem quantidade de anos que apague. Parecia que tínhamos nos encontrado no dia anterior. Foi mágico. Foi inesquecível. Não queria que acabasse.

No aeroporto de Confins, uma senhora que estava muito brava com a mudança de gate, começou a conversar comigo e com a Ana Cristina. Ela nos contou que foi a BH comemorar o aniversário de 100 anos de uma prima e nos contou que a prima estava lúcida e que ainda por cima dançou muito durante a festa. Não resistimos e perguntamos: “Desculpe, mas quantos anos a senhora tem?”. A senhora respondeu: “85”. Nos entre olhamos e nos imaginamos novamente em BH, comemorando outro aniversário da Cris. E logo contamos: “Estamos aqui por causa do aniversário de uma grande amiga de 50.”.

Nessa vida momentos assim nos revigoram. Nos trazem a certeza que as pessoas e os relacionamentos são nossos maiores presentes. Que cultivar a amizade, as relações familiares são os grandes prazeres. Que compartilhar esses momentos com quem gostamos são as nossas fontes de energia e a nossa maior riqueza.

Feliz! Muito obrigada as duas Cris.

Teste de Resistência.

Teve uma época que os aparelhos eletro-eletrônicos, carros e computadores eram feitos para serem trocados o mais rápido possível. O computador dava pau o dia todo, queimava um monte de peça, o hard disk ficava fragmentado e lento, a memória era desmemoriada, o monitor marcava a tela e nem se fala nas conexões. O modem era insuportável de lento e ainda tinha que esperar aquele toque de hand shake. A experiência era mais uma tortura, onde você passava o dia consertando o device e os paus de software, ao invés de desfrutar o uso.

Os pneus dos carros da minha infância furavam direto. Lembro de ir em borracharias, daquelas imaginárias, com calendários de mulher pelada pendurado em paredes tão imundas que nem dava para identificar a cor dos azulejos. Mecânica então era o programa de praticamente toda sexta-feira. Tudo quebrava. A lataria enferrujava e o funileiro sempre te enganava e ao invés de fazer o trabalho bem feito enchia de massa. Tinha que bater na lataria para ver se tinha massa, senão pipocava tudo e aí começava a enferrujar. Motor fundia. Rádio não pegava. A nossa Brasilia apodreceu o piso e quase caiu, imagina só?

Já com a televisão o problema era a antena. Quem não lembra de ter que ficar com a mão na antena virando de lado e apelar para o famoso bombril? Imagens fantasmas, listras, sem audio. Levantar e tentar sintonizar em algum canal. E quando esquentava muito não aparecia a imagem. Tinha fusível! Carro também queimava toda hora os tais fusíveis.

Geladeira não gelava, escorria água pelas paredes. O freezer congelava ao ponto de as vezes não conseguir abrir a porta. Tinha que descongelar a geladeira. Tarefa bem da chata. O fogão para acender as bocas era com o fósforo ou o famoso magic click, que alias eu acho o máximo. O lance era o medo de explodir o forno na hora de jogar o fósforo. E trocar botijão de gás ein? que medo.

E aqueles filtros de galão de água que tem que ter um homem forte e disposto sempre para trocar?

Pois então, tenho 47 anos vivi tudo isso e muito mais.

Hoje os computadores funcionam muito bem. Duram muito mais anos. As tvs ocupam bem menos espaço, tem a comodidade do cabo, do controle remoto. Se você tiver uma visão ainda humana, vai se tocar que os milhões de novos pixels que anunciam nos novos modelos, seu olho, ainda humano não vai conseguir ver. O tal 3d você vai usar 1 vez e desdenhar toda a geração que teve a infeliz idéia de criar isso. A internet na tv você nunca vai acessar. O gravador, se você for que nem eu, não vai conseguir usar, por total incompetência em acertar o dia, hora e programa. Já o controle remoto você vai rezar para inventarem 1 com 1 comando apenas (a apple tv já tem), pois o resto não serve para nada. Aquele monte de tipo de conexão que vem escrito na caixa bem grande, você vai perceber que é para enfeitar a caixa.

A geladeira não congela. Fogão tem acendimento automático. Evite qualquer coisa nova, pois vão inventar algum circuito eletrônico inútil e a simples tarefa de acender um fogão pode virar um inferno. Esse fim de semana o fogão novo da minha mãe deu um baile na família toda. Quem é que conseguia entender como programava aquilo? programar fogão? pqp.

Caímos na tentação e há uns 5 anos atrás compramos um fogão novo. Quando chegou em casa, veio um técnico fazer a “inspeção” para instalar e paratanto teriamos que fazer uma reforma na cozinha. O mesmo técnico ficou surpreso: “ Mas o fogão da Senhora está novo!”. Eu respondi: “É mas as bocas não acendem mais”. Ele disse: “Minha Senhora com 45 reais resolvo seu problema. Esse fogão é mil vezes melhor que esses novos”. Fiz um escândalo na empresa que comprei o fogão, pois era um absurdo ter que reformar a cozinha e não tinha sido orientada para isso. Recebi a grana de volta. E o técnico arrumou o nosso.

Depois dessa eu nunca mais corri para o novo modelo aluminium-super-extra-chubbs. Estamos fazendo um teste de resistência. Nosso fogão tem 18 anos, a geladeira 15, máquina de lavar 15 também e o ar condicionado 13. Todos inteiros, limpinhos, bonitões e funcionando perfeitamente. Rezo para que todos continuem funcionando para sempre.

Mudança no consumo.

A cabeça do ano.

Amanhã judeus de todo o mundo comemoram a véspera de Rosh (cabeça) Hashaná (do ano), ou o ano novo judaico. Estamos em 5775. Soa esquisito falar que estamos há mais de 3 mil anos na frente do calendário cristão não? Convenções. Somos o tempo todo impostos a convenções.

Na minha convenção judaica, o meu ano novo é amanhã. Vamos comemorar com um jantar daqueles nababesco, típico de qualquer iddishe mame, repleto de gefilte fish para os ashkenazis e de outras iguarias a base de cordeiro dos sefaradis. Vamos comer uma fatia de chalá com mel, mas dessa vez redonda, nosso pão típico de festas, que normalmente é comprido e trançado. Redondo para lembrar que o ano tem um começo e um fim. O mel simboliza que tenhamos um ano doce, doce em harmonia, em atitudes, em relacionamentos.

A chalá redonda convenciona que terminou mais um ciclo. E que tal parar para pensar o que aconteceu nesse ciclo? Teremos 10 dias entre a cabeça do ano e o dia do perdão, ou Yom (dia) Kipur (perdão). Nesse dia vamos parar tudo que estamos acostumados a fazer. Desligar do mundo, da tv, das medias sócias, do telefone e ter 24h de introspecção, nem podemos comer ou beber. A idéia é refletirmos sobre como foi esse ciclo e nos prepararmos para o próximo.

E é assim todo ano. E que sejamos inscritos novamente no livro da vida. E que sejamos tolerantes com as convenções, crenças e diversidades de todos os povos e indivíduos desse planeta.

Shaná Tová Umetuká Lekulam!

Um bom (tová) ano (shaná) bem docinho (umetuká) para todos (lekulam) judeus e não judeus. Todas as pessoas queridas do meu coração.