Beatriz Milhazes e a sua explosão de formas e cores

Nasceu em 1960 no Rio de Janeiro. Estudou comunicação social na Faculdade Hélio Alonso no Rio e na década de 80, em pleno período do movimento Geração 80, cursa a famosa Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Charles Watson, um dos seus professores, ressalta a ousadia de Beatriz em não se importar em utilizar referências decorativas na sua obra. Colegas como Luiz Zerbini lembra de outra ousadia, o uso escancarado da cor, ninguém trabalhava cor dessa forma extravagante nessa época. Beatriz adorava ir atrás de tecidos e tramas que inspiravam suas criações abstratas. Seu trabalho fez com que ela criasse uma técnica única, onde ela pinta formas geométricas em plásticos e depois como decalques, cola essas formas em uma grande tela. Essa sobreposição de formas resultam no trabalho que conhecemos e praticamente fica imperceptível para o público que não está vendo uma pintura e sim uma imensa colagem. A capacidade de lidar com cores e formas, em um equilibrio que deixa nossos olhos encantados, é o grande talento de Beatriz.

Hoje considerada umas das artistas mulheres mais valorizada do mundo, Beatriz encanta colecionadores estrangeiros, que passam anos em filas, em suas 4 galerias, esperando novos trabalhos. A produção de Beatriz é muito pequena. As galerias conseguem fazer uma exposição de 4 em 4 anos e existem filas de até 60 pessoas nas listas. Isso faz com que os preços dos seus trabalhos não parem de crescer. Na Sp-Arte de 2016 um de seus quadros foi vendido por 16 milhões de reais e depois tal venda foi desmentida. Mesmo assim, em 2012, Beatriz ultrapassa novamente Adriana Varejão, e um trabalho seu chegou a ser arrematado na Sotheby´s por 2,2 milhões de dólares.

A obra de Beatriz caminha por referências bem cariocas e de seu entorno. A beleza do Rio de Janeiro é uma das suas fontes de inspiração, bem como o Carnaval, as plantas do Jardim Botânico, principalmente as suculentas. Além dos diversos museus, que costuma visitar pelo mundo, de arte popular, artedecorativa, moda.

Uma colecionadora francesa diz ter a sensação que uma escola de samba caminha sobre a obra que possui em seu apartamento. A obra é muito comprida e ela consegue perceber diversas passagens de alas pela mudança de cores e formas. Já outro colecionador, diz que a liberdade com que Beatriz utilizou na colagem de embalagens de doces, na obra que possui, lhe traz a lembrança do Brasil, do Rio de Janeiro, da forma como nós brasileiros encaramos a vida.

É unanime a opinião que a obra de Beatriz é uma explosão de alegria e uma incrível combinação de cores. Quando parece que ela esgotou as referências surgem novas fases onde texturas tribais compõe o tema, além de efeitos óticos.

Entender como é feito o trabalho, o fato de não ter o gesto, a presença da pincelada, essa forma muito original de colagem de pintura, traz para obra de Beatriz uma nova leitura. Perceba da próxima vez que estiver diante de seu trabalho algumas falhas, a tinta que não descolou do plástico, e como ela lida com essas imperfeições. Essa técnica nos dá ao final a sensação de uma grande pintura e nos revela como ela consegue fazer aquelas transparências e passagens de cor.

Beatriz é a única artista brasileira em exposição na coleção permanente do MoMA em NY. Um trabalho muito interessante foi a convite da joalheria Cartier, quando fez a exposição na Fundação em Paris, Beatriz criou a obra Aquarium, inspirado nas padronagens e cores do seu trabalho. Aquarium é um mobile de 15 fios, o maior de 2m, utilizando pedras preciosas, pérolas e metais. A iluminação provoca um encantamento absoluto. Essa obra foi apresentada na ArtBasel em Basel e em Miami, em 2011, e é simplesmente maravilhosa.

A irmã de Beatriz, a também famosa coreógrafa, Marcia Milhazes, colocou Beatriz no palco, onde ela cria vários dos cenários para a irmã. E nessa diversidade de formatos que Beatriz mostra o seu controle e equilibrio em formas e cores.

Em São Paulo, a Galeria Fortes Villaça representa a artista.

Nuno Ramos, filósofo, cineasta, escritor e também artista plástico.

Nasceu em São Paulo em 1960 e fez parte do ateliê BASE 7, onde compartia espaço e ideias com os artistas, hoje também consagrados, Paulo Monteiro, Rodrigo de Andrade,  Carlito Carvalhosa e Fábio Miguez. Nuno é formado em Filosofia, Letras e Ciências Humanas pela Universidade de São Paulo e é consagrado e premiado em todas as áreas que atua. Editou diversos livros, participou da Bienal de Veneza e de várias edições da Bienal de São Paulo, além de expor em vários países e ser sempre um dos artistas mais prestigiados em grandes coleções privadas de arte contemporânea.

A obra de Nuno é bastante plural. No início de sua carreira em 1983, Nuno diz que teve muita influência de Julian Schnabel e Anselm Kiefer. Podemos reconhecer muitos aspectos dessses artistas em sua obra. Suas telas são sempre enormes, carregadas de tinta, vaselina e outros elementos. A impressão que dá, é que Nuno passou por um galpão de escola de samba e recolheu alegorias e os restos do Carnaval para criar suas telas tridimensionais com adereços colados e muita cor.

Ou como ele mesmo diz em uma das suas poesias no seu livro Cujo, 1993, pág. 9:

“Pus todos juntos: água, alga, lama, numa poça vertical como uma escultura, costurada por seu próprio peso.”

Outra vertente bastante explorada por Nuno são as instalações, onde canoas estão sempre presentes, madeira, as vezes mármore. Analisando os mais de 20 anos de produção do artista, percebe-se que na pintura ele se repete, mas nas instalações ele está em constante transformação. Aparenta que esse suporte dê mais liberdade criativa ao artista, que sempre alia sua poesia e texto as obras.

A sua obra mais polêmica dos últimos tempos foi a instalação Bandeira Branca, que Nuno fez para Bienal de 2010. Em uma área central entre as rampas do pavilhão projetado por Niemeyer, Nuno colocou três pilares e caixas de sons tocando três músicas, o ambiente era cercado por rede. Três urubus faziam parte da obra, voando, comendo e fazendo suas necessidades. A ideia era provocar e conseguiu rapidamente nas primeiras horas de abertura da exposição. Organizações em prol a aves questionaram o confinamento dos urubus e assim durante anos Nuno passou explicando em tudo que é entrevista, inclusive no Roda Viva, porque fez tal instalação. Os motivos são sempre filosóficos, o ato de observar, o ecossistema, a intervenção mesmo em Niemeyer entre outros pontos.

Nuno cria intensamente e sempre tem exposições pela cidade ou algum lançamento de livro. A Galeria Fortes Villaça o representa e possuí várias obras em seu acervo.

“Ele canta através de nós. Nós cantamos por causa dele. De repente se cala e nunca mais sabemos se vai voltar a cantar.” (“Ele canta”, “O Pão e o Corvo”, Nuno Ramos, 2001, pág 14)

Artur Lescher, o designer industrial das artes e seus rios.

Lescher nasceu em São Paulo em 1962. Chegou a iniciar o curso de filosofia na PUC, mas a sua formação artística se deu realizando cursos livres. As suas esculturas/instalações são elaboradas com materias diversos como bronze, cobre, metal, madeira, papel e normalmente são concebidas em processos industriais.

Como explica Artur em uma de suas entrevistas, ele é o diretor da peça e cada trabalho faz a sua parte como ator. A presença do público e a interação com o trabalho transcrevem cada linguagem proposta pelos materiais. O tema rio é descrito em instalações de malha de ferro e outras em papel. O trabalho em si nada tem de rio, mas os atributos estão presentes. A longa extensão na instalação de 2000 metros de papel, o percurso, as diversas vistas, observando consegue-se enxergar o rio. Fotografar a obra de Lescher parece uma tarefa difícil já que a mesma muda totalmente de perspectiva em função do ambiente. Logo, observá-la, rodea-la é sempre mais interessante.

A limpeza e perfeição de cada elemento que compõe a sua obra, remetem a polias, partes de máquinas, ou até objetos de design, produtos da indústria. E assim, sem colocar a mão, detendo a técnica de criação, design e entendimento dos materias, Artur concebe esculturas, muitas vezes suspensas, que dialogam com os ambientes expostos e com o espectador de maneira brilhante.

Em 2014, Lescher foi um dos artistas convidados da Mostra Made by… Feito por Brasileiros no antigo Hospital Matarazzo. Dessa vez utilizando de água, muita água, de reuso, Lescher fez chover abundante e incessantemente na antiga lavandaria do hospital. Como se estivesse lavando as memórias do local para receber o seu novo momento na história. Dessa vez o seu rio tinha finalmente o elemento principal: a água.

Lescher é considerado um dos maiores expoentes da arte contemporânea brasileira. A sua obra faz parte das principais coleções como Pinacoteca, MAM, Malba, Museum of Fine Arts Houston e é representado pela Galeria Nara Roesler.

Tomás Saraceno, the scientist artist.

 

Nasceu em San Miguel, Tucumán, Argentina, em 1973. Com apenas um ano de idade foi morar em Milão, por causa do exílio da ditadura, e voltou aos 11. Atualmente mora em Berlim. Tomás é formado em arquitetura, pós graduado em arte e foi artista residente do International Space Studies Program da Nasa. Tomás se considera um eterno estudante.

A sua obra transita em conceitos complexos de engenharia, física, química, aeronáutica e ciência pura, com o auxílio de uma tremenda criatividade. Saraceno cria verdadeiras biosferas, em tamanhos diversos. Para Tomás a arquitetura não se resume a edifícios, qualquer tipo de estrutura depende de um projeto arquitetônico. Assim ele intitula suas obras de projetos. Explicar a complexidade de Tomás não é fácil. Os projetos podem ser em formato de bolhas de sabão,  em formato de moléculas, verdadeiras teias de aranhas. E o expectador participa do projeto tentando sair desses labirintos de bolhas, redes, materiais que afundam. Muitas vezes esperando que alguém caminhe do outro lado da instalação para conseguir sair de uma área que afundou. Ou seja, Tomás é tão complexo, que só podia ser o artista a inaugurar os lectures do CAST (Center for Art, Science & Tecnology) do MIT. Ele inicia a lecture de uma maneira meio tímida, no seu inglês carregado de sotaque italo-portenho: “I don´t like to make presentations about my work, it´s more about you and what you can imagine..” , e emenda em um papo de 1h30 explicando o talvez inexplicável.

Em 2012 sua instalação “Cloud City” foi exibida no fantástico Met Roof em Nova Iorque.

A estrutura em formato de molécula refletia a cidade e sua beleza em diversos espelhos. Cada projeto explora a relação do ser humano com o espaço e a utilização de diversos materiais, que captam energia solar, que possibilitam voos, que mudam a relação que temos com o universo. A impressão que dá é que Tomás quer que as pessoas se sintam parte de um novo ecosistema, do seu sistema, tendo essas experiências sensoriais de maneira diferente do que estão acostumadas.

Simplesmente um dos artistas mais geniais que tive a oportunidade de conhecer nos últimos anos.

 

Galeria Esther Schipper, Berlim

Peter Doig, stroke of genius (*)

Nasceu em 1957 em Edimburgh na Escócia. De praticamente desconhecido, Peter Doig, passou a ser o artista europeu vivo mais valorizado no mercado da arte. Passou Damien Hirst e seu tubarão em formol. Estabeleceu, assim, um novo parâmetro para os artistas figurativos. A volta da pintura, do óleo, da técnica, da precisão, é isso que demonstram os leilões das maiores casas de Londres e NY. Doig é uma pessoa simples, não dinheirista e midíatica como seu antecessor Hirst, e continua na vida pacata de Trinidad, sua casa desde 2002, dando aulas quando pode e pintando suas imensas telas. Viveu no Canadá por muito tempo e paisagens de neve fazem parte do seu imaginário. Nas suas telas encontram-se referências de todos os lugares onde viveu, passou, fotografou e observou. Doig faz praticamente uma colagem de cenas que observou. Nenhuma cena é fiel, apenas inclui um elemento como a ponte em arco-íris, o cavalo, a figura meio soturna. Através de sua coleção de fotografias, Doig compõe as imagens e tornam verídicas para nós espectador. A impressão que temos é sempre estarmos em um ponto de perspectiva de observador. Tornando a nossa presença como essencial, somos os observadores da cena.
Em sua exposição individual em 2008 na TATE Modern, Doig gravou essa entrevista, um making-of imperdível da montagem da exposição e a abertura da sua caixa de segredos, onde guarda todas as referências para concepção da sua obra.
Os valores do mercado de arte são realmente sem nexo, mas eu estou mais para Peter Doig como bola da vez
Galeria Victoria Miro Londres e Michael Werner Nova Iorque
* o título é do The Guardian, quando Doig atingiu sua maior marca no leilão da Christie’s U$ 26 milhões em maio/2015.