Iberê Camargo, o profundo.

“Minha contestação é feita de renúncia, de não-participação, de não-conivência, de não-alinhamento com o que não considero ético e justo. Sou como aqueles que, desarmados, deitam-se no meio da rua para impedir a passagem dos carros da morte. Esta forma de resistência, se praticada por todos, se constituiria em uma força irresistível. O drama trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais íntima que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo.

Não faço mortalha colorida. Por que sou assim?

Porque todo homem tem um dever social, um compromisso com o próximo.”

Iberê Camargo nasceu na pequena cidade de Restinga Seca, no interior do Rio Grande do Sul em 1914. Estudou artes na vizinha Santa Maria, trabalhou como desenhista técnico em Porto Alegre, onde conheceu e casou com  a sua companheira de toda a vida, Maria Coussirat, também graduada em pintura. Depois da primeira exposição em Porto Alegre em 1942, recebe uma bolsa do seu estado para estudar no Rio de Janeiro.

No Rio, Iberê passa grande parte da sua vida. Cria em 1946 o Grupo Guignard com o amigo Alberto da Veiga Guignard e outros artistas. O grupo dura pouco e em 1948 o casal viaja para Roma, onde Iberê estuda gravura com Carlos Alberto Pretrucci, pintura com De Chirico, materiais com Leoni Augusto Rosa e afresco com Achille. Depois em Paris estuda pintura em André Lhote. Munido do conhecimento que lhe faltava, retornam ao Rio de Janeiro em 1950 e Iberê passa a participar de todos os movimentos importantes da época: I Bienal em São Paulo, Salão Preto e Branco, entre outras diversas exposições individuais e coletivas.

O Salão Preto e Branco alertava ao risco dos pintores brasileiros ficarem sem cores. Iberê era ativista nesse tema, pois considerava imprescindível que a qualidade dos materiais fossem de primeira linha para o artista executar suas obras. As taxas de impostos e as dificuldades de importação, algo bastante comum em qualquer segmento no Brasil, atingiam em cheio as tintas, pigmentos, pincéis, usados pelos artistas.

Durante o primeiro período no Rio de Janeiro, Iberê retrata a paisagem com cores fortes, pinceladas fortes emplastadas (diversas camadas), característica que irá acompanhá-lo durante toda a sua vida. As cores mudam no percurso, os tons de verde da nossa mata, as cores alegres, passam a ser sombrias, preto, cinza, azul escuro, vinho. A vida vai mudando os personagens, os temas, e Iberê fica cada vez mais profundo, até na quantidade de camadas.

Várias situações causam essa mudança. Iberê sempre trabalhou com uma imagem de base, de observação. Quando pintava paisagens e as ruas do Rio frequentava os lugares retratados. Até que teve uma hérnia de disco que o impossibilitou de ficar horas e horas fora do ateliê. Nesse momento a pintura passou a ser feita com modelos e objetos do cotidiano. Os carretéis, uma série bastante extensa, lembravam uma brincadeira de criança da saudosa Restinga Seca. Eram a natureza-morta de Iberê. Depois vieram as bicicletas e as suas almas penadas.

Essa fase pode ser provocada, apesar de não ter referências explicitas, pelo crime e a prisão de Iberê. Em uma discussão de rua no Rio de Janeiro, Iberê matou a tiros uma pessoa em suposta legítima defesa. Esse episódio levou Iberê a prisão por 1 mês e ao ser absolvido em 1982, a família retornou a Porto Alegre.

Faleceu em 1994 e logo no ano seguinte a sua maior admiradora e colecionadora, Maria Coussirat Camargo criou a Fundação Iberê Camargo. Maria doou todo o seu acervo de mais de 7 mil guaches, gravuras, desenhos, pinturas a óleo, além de 20 mil catálogos, recortes, cadernos de notas e matrizes para a Fundação. Até a sua morte em 2014 era a responsável pelo acervo.

Em 2008 a Fundação ganhou um edifício fantástico projetado pelo arquiteto português Álvaro Siza, um dos mais importantes museus do Brasil. Hoje a Fundação, além de administrar o acervo de um dos maiores pintores brasileiros, tem um extenso calendário anual de exposições. Visitar a Fundação Iberê Camargo é programa obrigatório em Porto Alegre.

Entrar no universo de Iberê Camargo não é fácil. A sua obra mais recente causa estranhamento pela tristeza e profundidade dos temas. Para compreender essa profundidade de Iberê assista o curta-documentário “Iberê Camargo em processo”. O vídeo retrata o artista em seu momento mais precioso de criação. Momento mágico onde essas imagens gravadas em seu ateliê, possibilitam entender o processo em camadas e a transformação de cada obra.

Iberê desconstrói as figuras humanas e as paisagens belas e surgem essas obras obscuras e profundas que conhecemos. Difícil de conviver com essas pinturas, mas difícil de não admirá-las, ainda mais depois de entender que partiram do belo. A alma da pintura é desvendada a partir do momento que o belo é transformado nessas pinturas tão sombrias. Simplesmente genial.

 

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