Nuno Ramos, filósofo, cineasta, escritor e também artista plástico.

Nasceu em São Paulo em 1960 e fez parte do ateliê BASE 7, onde compartia espaço e ideias com os artistas, hoje também consagrados, Paulo Monteiro, Rodrigo de Andrade,  Carlito Carvalhosa e Fábio Miguez. Nuno é formado em Filosofia, Letras e Ciências Humanas pela Universidade de São Paulo e é consagrado e premiado em todas as áreas que atua. Editou diversos livros, participou da Bienal de Veneza e de várias edições da Bienal de São Paulo, além de expor em vários países e ser sempre um dos artistas mais prestigiados em grandes coleções privadas de arte contemporânea.

A obra de Nuno é bastante plural. No início de sua carreira em 1983, Nuno diz que teve muita influência de Julian Schnabel e Anselm Kiefer. Podemos reconhecer muitos aspectos dessses artistas em sua obra. Suas telas são sempre enormes, carregadas de tinta, vaselina e outros elementos. A impressão que dá, é que Nuno passou por um galpão de escola de samba e recolheu alegorias e os restos do Carnaval para criar suas telas tridimensionais com adereços colados e muita cor.

Ou como ele mesmo diz em uma das suas poesias no seu livro Cujo, 1993, pág. 9:

“Pus todos juntos: água, alga, lama, numa poça vertical como uma escultura, costurada por seu próprio peso.”

Outra vertente bastante explorada por Nuno são as instalações, onde canoas estão sempre presentes, madeira, as vezes mármore. Analisando os mais de 20 anos de produção do artista, percebe-se que na pintura ele se repete, mas nas instalações ele está em constante transformação. Aparenta que esse suporte dê mais liberdade criativa ao artista, que sempre alia sua poesia e texto as obras.

A sua obra mais polêmica dos últimos tempos foi a instalação Bandeira Branca, que Nuno fez para Bienal de 2010. Em uma área central entre as rampas do pavilhão projetado por Niemeyer, Nuno colocou três pilares e caixas de sons tocando três músicas, o ambiente era cercado por rede. Três urubus faziam parte da obra, voando, comendo e fazendo suas necessidades. A ideia era provocar e conseguiu rapidamente nas primeiras horas de abertura da exposição. Organizações em prol a aves questionaram o confinamento dos urubus e assim durante anos Nuno passou explicando em tudo que é entrevista, inclusive no Roda Viva, porque fez tal instalação. Os motivos são sempre filosóficos, o ato de observar, o ecossistema, a intervenção mesmo em Niemeyer entre outros pontos.

Nuno cria intensamente e sempre tem exposições pela cidade ou algum lançamento de livro. A Galeria Fortes Villaça o representa e possuí várias obras em seu acervo.

“Ele canta através de nós. Nós cantamos por causa dele. De repente se cala e nunca mais sabemos se vai voltar a cantar.” (“Ele canta”, “O Pão e o Corvo”, Nuno Ramos, 2001, pág 14)

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Artur Lescher, o designer industrial das artes e seus rios.

Lescher nasceu em São Paulo em 1962. Chegou a iniciar o curso de filosofia na PUC, mas a sua formação artística se deu realizando cursos livres. As suas esculturas/instalações são elaboradas com materias diversos como bronze, cobre, metal, madeira, papel e normalmente são concebidas em processos industriais.

Como explica Artur em uma de suas entrevistas, ele é o diretor da peça e cada trabalho faz a sua parte como ator. A presença do público e a interação com o trabalho transcrevem cada linguagem proposta pelos materiais. O tema rio é descrito em instalações de malha de ferro e outras em papel. O trabalho em si nada tem de rio, mas os atributos estão presentes. A longa extensão na instalação de 2000 metros de papel, o percurso, as diversas vistas, observando consegue-se enxergar o rio. Fotografar a obra de Lescher parece uma tarefa difícil já que a mesma muda totalmente de perspectiva em função do ambiente. Logo, observá-la, rodea-la é sempre mais interessante.

A limpeza e perfeição de cada elemento que compõe a sua obra, remetem a polias, partes de máquinas, ou até objetos de design, produtos da indústria. E assim, sem colocar a mão, detendo a técnica de criação, design e entendimento dos materias, Artur concebe esculturas, muitas vezes suspensas, que dialogam com os ambientes expostos e com o espectador de maneira brilhante.

Em 2014, Lescher foi um dos artistas convidados da Mostra Made by… Feito por Brasileiros no antigo Hospital Matarazzo. Dessa vez utilizando de água, muita água, de reuso, Lescher fez chover abundante e incessantemente na antiga lavandaria do hospital. Como se estivesse lavando as memórias do local para receber o seu novo momento na história. Dessa vez o seu rio tinha finalmente o elemento principal: a água.

Lescher é considerado um dos maiores expoentes da arte contemporânea brasileira. A sua obra faz parte das principais coleções como Pinacoteca, MAM, Malba, Museum of Fine Arts Houston e é representado pela Galeria Nara Roesler.

Monica Piloni e as Ilegais

Curitibana, nasceu em 1978. Estudou na Escola de Música e Artes do Paraná, EMBAP. Vive e trabalha em São Paulo no bairro das Perdizes. Monica tem uma estética bastante peculiar para retratar a mulher. Suas bonecas multiplicam seios, vaginas, pernas em formatos sempre triangulares. As vezes lembram imagens de filme de terror, principalmente quando se percebe o cabelo e a falta de cabeça, mas não deixam de impressionar. Parece que ela mesma é a referência de seus trabalhos, no começo por falta de modelos e hoje viraram auto-retratos sem cabeça. Cabelos louros, peles muito brancas, como Monica, uma linda curitibana.

Conheci seu trabalho em uma galeria e na mesma semana revi na coleção particular de um grande amigo. Fiquem de olho nessa jovem escultora. No Rio, Galeria Laura Marsiaj. Em São Paulo, a FASS fez uma exposição de fotos esse ano, No Meu Quarto.

31a Bienal de São Paulo

Visitar a Bienal de São Paulo é sempre uma experiência única, que começa com a exuberância da arquitetura de Niemeyer e termina em tentar entender a proposta dos curadores. Levam dias, às vezes semanas, para que seja possível digerir mais de 100 obras de quase uma centena de artistas, que teoricamente conversam entre si e propõe questionamentos, espalhadas em um espaço tão gigantesco.

O espaço é dificílimo para a expografia, já que todo o seu entorno é de vidro e as curvas sempre brigam com o que está exposto. E, independente do conteúdo da exposição, as rampas em curvas são sempre as mais fotografadas. De qualquer forma, deve ter sido um tremendo desafio, para o arquiteto israelense Oren Sagiv, trabalhar nesse espaço gigante.

As obras dispostas pela parte mais exuberante da arquitetura, as rampas em curvas, pareciam acompanhar o movimento de Niemeyer e bailar com ele em seu projeto, nada prático, e apenas bonito de se ver. Como praticamente todos os projetos de Niemeyer. A Oca em São Paulo, Museu da República em Brasilia, entre outras obras esféricas com pé direito altíssimo e impossíveis de se trabalhar. Mas, o assunto não é a arquitetura de Niemeyer e sim os trabalhos e a proposta da 31a Bienal.

Em Junho saiu a lista dos principais artistas convidados e quem seriam os curadores. Fiz uma breve pesquisa, principalmente em relação aos jovens talentos brasileiros e esperava ansiosa pelo trabalho de Éder de Oliveira e Thiago Martins de Melo. Pelo visto, acertei, pois são exatamente os dois trabalhos que mais chamam a atenção.

Éder de Oliveira trás seus  rostos, ora pintados em muros de Belém do Pará, para dentro do pavilhão e cria uma série de expressões de criminosos muito fortes, sofridas, muito brasileiras, em tamanho gigante, cores entre o vermelho, marrom, alaranjado. Já Thiago Martins de Melo, cria uma instalação para abrigar suas telas a óleo como se fosse um ritual, uma homenagem aos mártires amazônicos. A obra de Thiago, artista jovem maranhense, é sempre muito dramática, retrata a morte, religião, conflitos e dessa vez esse trabalho se apresenta de forma ainda mais monumental, pelo seu tamanho.

Outra obra que chama muito atenção justamente por aproveitar as curvas do espaço é o projeto do artista libanês Walid Raad. Em painéis coloridos, Raad retrata texturas típicas de paredes do oriente, trazendo uma proposta de como seriam essas paredes em museus sobre a arte das “arábias” em qualquer  outra cidade do mundo.

O título da Bienal “Como (…) coisas que não existem”, possibilitou aos artistas abordarem questões como a diversidade, o antagonismo e as divergências religiosas, o aborto, a sobrevivência do planeta, a corrupção entre outras questões que populam a nossa vida cotidiana.

Sem grandes revelações ou grandes obras, fica a dúvida qual é o papel da Bienal Brasileira, discutir questões psicológicas e filosóficas, difíceis de se entender, se é que são compreensíveis ou revelar verdadeiros novos talentos e falar de arte?

Até 7 de Dezembro, visite o Pavilhão da Bienal no Ibirapuera.

Sofia Borges

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Nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, SP. Graduada em 2008 em Artes Visuais pela USP. Em 2012 partipou da 30 Bienal de São Paulo e apesar da pouca idade já ganhou vários prêmios e já expôs em  Londres, Los Angeles, Lyon, Doha e Beijing. Sofia tem fotografado peças e imagens de museus de Paleontologia e Anatomia, zoológicos, áquarios e centros de pesquisa. Como ela diz, a partir do momento que se fotografa, se desloca o elemento daquele local e causa estranhamento. As fotos parecem texturas, pedras, que poderiam estar em qualquer lugar e qualquer época.

“O que é uma fotografia?” essa é a questão que Sofia pretende abordar em suas exposições e a resposta vem do seu entendimento de espectador para aquilo que ela apresenta. Como a foto te impactou, sem que tenha uma resposta definitiva ou certeira. Simplesmente uma foto. que pode ou não representar a realidade. E normalmente as fotos de Sofia intrigam, pois remetem a cenas de um cotidiano não muito comum ou são registros de objetos deslocados dos seus contextos e em formatos enormes. As cores e texturas criam sempre um conjunto muito bonito, sem necessariamente ter um significado claro.

Para conhecer o trabalho de Sofia, ainda dá tempo de visitar sua instalação na Made by…Feitos por Brasileiros no Hospital Matarazzo ou na Galeria Millan, ambos em São Paulo.